Carlos Alberto Pereira - Vinhos & TalColunas

MONTEPULCIANO

Outro dia, nos corredores de um shopping local, fui abordado por um gentil leitor de nossa coluna, que depois de se apresentar e se dizer um seguidor e admirador deste espaço dedicado ao vinho, fez uma cobrança, nos solicitando mais informações sobre os vinhos e uvas italianas. Como descendente, ele disse ser fã das uvas italianas e ponderou que muito pouco se encontra em opções de vinhos na cidade. De fato, os vinhos italianos não ocupam o mesmo espaço que os vinhos chilenos, portugueses e argentinos nas gôndolas de nossos supermercados, empórios e adegas. Isso se deve, é obvio, pelo menor interesse dos brasileiros no consumo destes vinhos, o que pode parecer um contrassenso, já que devemos aos imigrantes italianos a pujança de nossa indústria vitivinícola e a nossa iniciação no consumo do vinho. Afinal, eram das cantinas e da produção familiar de vinhos dos imigrantes, que tivemos o nosso primeiro contato com o néctar de Baco. E todos nós sabemos que até hoje, os italianos são os responsáveis pelo grande sucesso de nossos vinhos, especialmente os espumantes, que são premiadíssimos e referências internacionais. Mas, até acho que o vinho italiano é bem consumido, pois ocupa a quarta posição no ranking de importação e consumo. Alguns fatores econômicos importantes e de marketing impedem uma maior expansão do consumo. Sabemos que o processo de produção dos vinhos italianos é um pouco mais complexo, com consequente custos maiores, se comparados aos vinhos produzidos aqui no novo mundo, especialmente na América Latina. Depois, a moeda que financia a produção é o euro, bem mais valorizada que o real. Mas, com certeza, os maiores vilões disso tudo são os impostos e taxas de nossa política fiscal, que são altíssimos, o que faz com que o vinho chegue por aqui num preço exorbitante. Por outro lado, como a indústria italiana de vinhos já é consolidada, com grandes consumidores mundo afora, eles pouco investem na divulgação de seus produtos por aqui, diferentemente da indústria portuguesa, por exemplo, que já ocupa, hoje, a segunda posição em consumo de seus vinhos no país, graças a qualidade de seus produtos e de um marketing agressivo.
Não contradizendo o meu caríssimo leitor, me dei ao trabalho, neste dia, a buscar no mercado local vinhos italianos. Encontrei uma grande variedade, tanto de regiões e castas, assim como de preços. Comprei um que gostei muito da uva Montepulciano, o que me inspirou a pesquisar sobre ela para ser o tema da nossa edição de hoje. Então, para atender meu caro leitor e ajudar no estimulo ao consumo dos vinhos italianos, vou falar desta uva, que depois da Sangiovese (que já falei por aqui) é a segunda mais importante do país, tanto em cultivo como no volume de vinhos produzidos. Vamos falar então, da casta autóctone italiana MONTEPULCIANO. Vamos a ela!

A história
Nas pesquisas que fiz para saber a história e origem desta uva e da denominação de origem Abruzzo, encontrei no blog “Itália para brasileiros” algumas versões, onde selecionei uma delas por achar mais romântica. A versão diz que esta casta é dos tempos da Roma antiga. Conforme os registros de Políbio, um historiador grego-romano, o famoso general Anibal, que entrou para a história como o homem que fez Roma tremer, cuja façanha foi sair da Espanha, atravessar os alpes e atacar de surpresa os romanos na segunda Guerra Púnica, dava aos seus soldados o vinho Montepulciano d’Abruzzo, para o tratamento da sarna. Portanto, uma uva muito antiga e com muita história.

DOC Abruzzo
Abruzzo é uma região montanhosa, onde abriga alguns dos picos mais altos dos Apeninos (Gran Sasso, Majella, Monte Velino). As suas montanhas vão até o Mar Adriático, formando um litoral que varia de selvagem ao sul e de grandes áreas de praias ocupadas no norte. A junção mar e montanhas influencia diretamente o clima e consequentemente, cria uma condição única e especial para produção da casta Montepulciano. A legislação desta DOC é bem rígida e determina que os vinhos produzidos ali, tem que ter no mínimo 85% de uvas desta espécie. Porém, em 2003, foi criada a sub-região Colline Teramane como DOCG (denominação de origem protegida e garantida) e acrescentou importantes diferenças, que entre eles estão: quanto às uvas utilizadas são permitidas a Montepulciano (90%-100%) e Sangiovese (0-10%); e quanto ao envelhecimento, esta nova DOCG precisa de, no mínimo, 2 anos, dos quais são obrigatórios 12 meses em barril e 6 meses em garrafa, enquanto na DOC original , precisa envelhecer, no mínimo, até o dia 1° de março do ano seguinte à safra.
Abruzzo fica na região central da Itália, tem 1,3 milhões de habitantes e sua capital é Áquila, cidade que sofreu um intenso terremoto no ano de 2009. Uma das cidades mais conhecidas desta região é Pescara, que fica à beira-mar e é bastante visitada por turistas. O Montepulciano d’Abruzzo goza a designação de origem controlada DOC, desde 1968.

Uma coisa é uma, outra coisa é outra coisa
Não faça confusão, pois Montepulciano é um nome que pode significar duas coisas: pode ser o nome de uma variedade de uva vinífera, nativa da Itália, que remete a amoras pretas, e a cereja, e mundialmente conhecida como a uva que faz os famosos vinhos Montepulciano d’Abruzzo ou nome de uma cidade que fica na Toscana ( Itália), de nome Montepulciano. Nesta cidade também se faz belos vinhos, mas, no caso, são os também famosos Vino Nobile di Motepulciano. Inteso?

Características
As uvas que fazem o Montepulciano d’Abruzzo DOC entregam aos vinhos uma cor vermelha profunda, rubi. No nariz, é floral e frutado, com notas de frutas vermelhas e especiarias. O paladar é seco, suave e tânico. As vinhas são geralmente encontradas em terreno montanhoso ou planalto, a uma altitude de 500m acima do nível do mar.

Harmonização
Geralmente, os vinhos de Montepulciano apresentam baixo teor alcoólico (12,5%) e devem ser consumidos em 5 ou 6 anos da safra. Na gastronomia, para apreciar melhor um Montepulciano d’Abruzzo, pode escolher uma refeição a base de carne ou massa com molho forte e intenso. Ou ainda, se preferir, harmonize com queijos igualmente fortes e uma boa variedade de risotos.
Dica de Vinho
Vinho: BONACCHI
Ano: 2016
DOC: Abruzzo
Produtor: Bonacchi
País: Itália
Tipo: Tinto
Uva: Montepulciano (85%) e outras (15%)
Salute!

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