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Padre para menina: “quero fazer amor”

O que temos feito da religião é coisa de causar espanto. Pior: é de cortar a alma. Não temos sequer seguido o beabá do cristianismo. Tampouco amado. A palavra caridade transformou-se em objeto de ostentação. Atiramos pedras. Destilamos ódio. Ignoramos lágrimas em nome de uma casa na praia, viagens, lipoaspiração, óculos de marca. Não, não estou sendo comunista. Coloque a mão na consciência. É o fim dos tempos. Leiam. Está na Bíblia Sagrada: “Ai de vocês, escribas e fariseus, hipócritas! Pois são semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos mortos e de toda a imundícia”. E entre os religiosos estão um cem número de algozes, algozes encobertos, algozes protegidos, algozes perdoados. Tudo em nome da fé. Pergunto aos leitores: esses homens são dignos de um perdão que garante impunidade e permite reincidência?
Do Monte Caburaí ao Chuí, numerosos são os casos, numerosos os joões-do-diabo, numerosas as dores de se nascer mulher. Esses que se valem do poder e da conivência de seus pares para permanecerem impunes enquanto nas vítimas dói, enquanto nas vítimas doerá para sempre. Sofrer com medo, com culpa e trauma, pedindo compreensão: eis a nossa sina. Milagre algum há de curar o que houver maculado a alma. Imagine você que 51,2% das vítimas de abuso sexual no Brasil entre 2011 e 2017 tinham de 1 a 5 anos. Registrou? E diga-se de passagem: 74,2% das vítimas eram meninas.
Enquanto isso, uma mãe em penúria financeira está em pânico. A mulher não fala outra coisa a não ser repetir que tem medo de ser morta. Essa semana foi a primeira vez que conseguiu levar a público um pouco da dor que vem guardando consigo desde que a filha de apenas 11 anos recebeu um convite insólito do homem que deveria catequizá-la. No print, é possível ler o momento em que o religioso diz “estou triste, queria fazer amor, mas você não pode contar ninguém [sic]” ao que a criança teria respondido “como assim tenho 11 anos [sic]”. Apavorada e confusa, a mãe não quer conceder entrevistas aos jornalistas, mas diz a conhecidos que a menina também está com medo.
– Não sei o que faço ainda, estou atarefada, mas ela precisa de ajuda, está muito assustada – disse-me Consuelo, uma advogada tão preocupada quanto prestativa.
– E você acha importante a denúncia?
– Claro, por isso quero me inteirar e ajudar essa mãe a romper a barreira do silêncio para que outros abusos que porventura tiverem ocorrido possam vir à tona.
– Tem toda razão.
Uma coisa é certa: não basta a proteção do manto de Nossa Senhora da Abadia. Uma cidade precisa de muitas pessoas que protejam seus meninos e meninas. Vejam bem: quanto maior a porcentagem de crianças vulneráveis à pobreza, maiores são as chances dela sofrer abuso.
– O abusador geralmente se aproxima e estabelece uma relação de confiança, o que permite a abordagem e faz com que a criança se sinta confusa e até mesmo culpada, disse-me Letícia.
– Foi assim com você?
– Sim. E digo mais: há indícios de que por aqui existam outras pessoas se aproveitando da condição religiosa para cometer abusos.
– Inacreditável!
Túlio é secretário de governo. Ele agora foi investido de mais uma tarefa. Uma daquelas tarefas impossíveis de se cumprir sozinho. Ele quer sentar com a sociedade. Ele quer entender. Ele quer conversar sobre o que está acontecendo. Ele precisa saber o que está deixando de fazer. Eu quero acreditar – preciso acreditar – na possibilidade de pequenos avanços mesmo em tempos sombrios. Fora que o hábito de dialogar com o diferente em nome de um bem maior sempre me acompanhou. Não seria de outro modo agora. Mulheres e crianças não podem esperar o trem carrilhar outra vez ao passo que o fundo do poço se aproxima. Hoje em dia, se você está em situação de vulnerabilidade, vive-se incomparavelmente com mais receio do futuro.
– É inadmissível que ainda existam crianças, mulheres, meninas, sofrendo abuso, e o silêncio pairar, fala-me Túlio.
– E você acha que pode ajudar?
– A gente tem que ser implacável para que isso não venha a acontecer na sociedade.
– Fazendo tudo do mesmo jeito?
– Não, de forma alguma. Vamos fazer diferente e eu vou trabalhar muito para isso.

Bom, essa história termina aqui sem que eu possa revelar o nome do padre ou contar outras histórias de abuso. Antes de encerrar, porém, é preciso dar um recado ou fazer um apelo tão justo quanto necessário: não interpele a mãe de uma criança abusada; a menos, claro, que sua pretensão seja a de ajudá-la ou de contribuir para descortinar a verdade. Porque é nos momentos difíceis que se conhecem as intenções.

jornalistajubamaria@gmail.com

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