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MULHERIO

Aos anjos e pardais: mulheres sozinhas na virada de ano

De repente meia-noite. E você por um instante esquece que 152 crianças e adolescentes foram vítimas de violência sexual só em Uberaba em 2018: um aumento de 38,2% em relação ao ano anterior. De repente meia-noite. O céu todo brilha. As gentes brindam um amanhã incerto. Enquanto você vê os fogos, despreocupada, uma mulher é agredida, manchando as flores de aflição. Uma hora depois ela estará morta.
Enquanto você vê os fogos, cairá a noite sobre uma criança violada em sua intimidade; enquanto você vê os fogos, os olhos tristes de uma jovem sozinha ao meio-fio observam calados as folhas sobre o chão; enquanto você vê os fogos, uma idosa, em algum lugar, não consegue virar a página do abandono sem chorar baixinho.
De repente nenhum beijo ou jura de amor. Você está só. Mais uma vez só. Dessa vez você não lamenta a solidão sob seus pés. Você simplesmente pula as sete ondas sem fazer pedido e entende que ser mulher é estar completamente só. No céu absolutamente escuro, nenhuma chuva. Deve ser de muito longe os tiros que se confundem aos fogos. Deve ser de muito perto o vazio que se confunde ao mar. Mas ao mesmo tempo vem a melancolia indispensável aos recomeços: estar só é olhar profundamente para si, com olhos imperfeitos. Se a solidão for uma máscara e algumas vezes um álibi, de que vale confrontar-se? Olho para o alto. De repente meia-noite. Em plena Avenida Atlântica, uma mulher está sozinha à janela. No que estará pensando? Será que sofre ou é feliz? Teve filhos? Um propósito? Poderia tudo mudar assim de repente?
A mineira Amya, 20 anos, está em casa com seu gatinho. Ela mora nos fundos da casa da avó, em Uberaba. O animalzinho tem apenas um mês de vida e corre para debaixo da cama ao menor sinal de barulho. Ambos dormem. De repente meia-noite, mas eles não acordam com os fogos. Essa é a primeira vez que Amya passa a virada de ano sozinha. Ela acorda de madrugada e um pensamento algo assustador vem à tona: ela sente como se estivesse em pleno bombardeio na Síria. Pergunta-se: como estarão as coisas por lá? Afinal, 19.666 pessoas morreram no conflito em 2018, das quais 6.349 eram civis, sendo 1.437 crianças.
– Estou sozinha porque quero estar em paz com meu gatinho, conta-me.
– Estar em paz é uma dádiva, né?
– Sim.
Amya tem olhos profundos e alguma inocência na voz própria da juventude. As mãos finas e suaves. Os cabelos ao vento. Ela faz tiragem de Tarô e mostra-me a carta de número 2. Ela me transmite, sem demora, exatamente o que busco.
– A carta da Sacerdotisa representa a solidão da mulher que carrega um profundo conhecimento de si mesma.
– E o que ela diz?
– Que você precisa entrar em um momento de meditação e autoconhecimento.
Em Campinas, Thaíse, 23 anos, historiadora, também está em casa sozinha com seus gatos. Cozinhou, tomou banho e maquiou-se como se fosse a uma festa, mas optou pela solidão. Ou, como ela mesma diz, pela solitude. Ela fala: eu preciso de um tempo para conversar comigo mesma. De repente-meia noite. Thaíse faz um balanço de 2018 e constata que apesar de algumas conquistas pessoais, coletivamente foi um ano muito ruim.
– Peço apenas sabedoria para conseguir enfrentar o que virá em 2019, fala-me com a serenidade de uma guerreira.
Thaíse é uma mulher negra de sorriso largo que experimenta a solidão de uma forma muito profunda. Sempre esteve só. Imensamente sozinha, mesmo cercada por pessoas. Como a maior parte das mulheres negras, Thaíse sofreu muito e tornou-se uma mulher forte. Segundo ela, isso faz com que a mulher negra se torne algo inacessível para a maior parte das pessoas.
– É como se a gente estivesse em um pedestal, o que de alguma forma nos desumaniza.
– Isso é tão contraditório né?
– Sim, porque deixamos de receber o afeto e carinho de que precisamos.
Silene, tem 57 anos. Ela está na praia de Santos, sozinha, sentada na areia. De repente é meia-noite. Ela não abraça ninguém. Assiste a tudo como uma sábia espectadora que carrega o sentimento oceânico dentro do peito. Conhece a alegria de estar em paz. Pula sete ondas. Depois vai para o hotel descansar. Sem ilusões. Amanhece. Já não há fogos. E o céu deixaremos aos anjos e pardais.
Marli, 55 anos, psicóloga, caminha solitária sob o Sol do ano que começa. Ela entrega um livro com dedicatória a um belo homem sentado na areia de Copacabana. “Gosto de pensar em experiências possíveis de serem compartilhadas num sistema cíclico, onde possamos nos encontrar, pois que não somos seres sozinhos’, escreveu.
– Entreguei o livro e fui embora. Depois fiquei olhando de longe enquanto ele folheava.
– Adorei.
Um cãozinho perdido caminha no calçadão. O homem segue sentado com o livro-presente sobre os joelhos. “Solitários, somos livres, porém passamos frio. A dois ou em grupo as diferenças causam dores”.

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