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MULHERIO

Como perceber um relacionamento abusivo?

Demorei a entender o fetiche que está por trás de um relacionamento abusivo. Aliás, há pouco tempo nem sequer havia uma expressão que nomeasse tão bem a loucura que é viver um amor capaz de nos cortar em pedaços e ainda assim nos imobilizar a ponto de a gente não conseguir sair. Quando muito, dizia-se que a mulher nessa situação deveria procurar algum grupo onde “mulheres que amam demais” se reuniam para contar suas histórias de dependência afetiva. Como se a culpa fosse delas e – pasmem – como se amar intensamente fosse o real problema a ser combatido. Em que planeta haverá de ser ruim deixar a paixão consumir os sentidos e fazer a alma expandir feito o Sol?
O problema apenas existe se amar fizer sofrer. E nisso o termo “abusivo” soa tão perfeito como a pele para o corpo. Do latim abusus, significa “fazer mal uso”. E é bem assim que o vento da tristeza assobia cortante no coração: fazer mau uso do amor será sempre um erro grande. Eu diria fatal.
Hoje amanheci disposta. Ouço pássaros e mugidos como só no interior. Escrevo sem demora entre tarefas domésticas e os cuidados com o filho. Planejo ações para o 8M – dia internacional da mulher. Uma vida normal, portanto. Um luxo se considerarmos que só em Minas Gerais a Polícia Civil investiga pelo menos sete casos de feminicídio desde o início de 2019.
O amor precisa ser dócil ou não será amor em parte alguma. Palavras como “vadia”, “vaca” e “filha da puta” jamais poderão compor o vocabulário de quem diz amar. O que fizer queimar em lugar algum da Terra poderá ser chamado chuva. Ameaça, chantagem ou agressão – reflexos dos monstros internos – serão sempre manifestações de ódio e egoísmo. Ou mau caratismo, como diria meu pai.
Por abusivo entenda algo como lançar-se em um oceano gelado e desejar um Sol que nunca vem para derreter nosso iceberg interno. O oceano congelante tratará você como se fosse um objeto. E depois de roubar a sua essência, vale pisar, rasgar, cortar. Vale qualquer coisa para destruir.
Esqueça também a ideia de ciclo do abuso: essas coisas que ensinam na internet a qualquer um que googlar. A coisa é bem mais complexa e o molde pode te fazer perigo. Calma! Não direcione os olhos para o alto sem ficar comigo mais um pouco. Vou explicar do começo.
Ficou mais fácil perceber o abuso quando, ao estudar Mikhail Bakhtin, passei a entender a linguagem como um constante processo de interação mediada pelo diálogo. E que nenhum gesto, palavra ou silêncio são prescritos ao vento impunemente. E se todos nós participamos em condição de igualdade da interação por meio da linguagem, há de se convir que o russo estava certíssimo quando afirmou que o psiquismo individual constitui a fonte da língua. Não é a toa também que a pessoa abusiva procura justamente cercear a linguagem do outro.
Ou seja: conclui que não há abuso sem diálogo & silenciamento. E se soubermos identificar suas marcas, podemos cortar cuidadosamente as folhas podres tal qual jardineiro fazendo uso da tesoura para cuidar da planta.
Helena, 53 anos, é uma mulher completa. Administradora, pedagoga e filósofa. Casou-se duas vezes. Como muitas mulheres, sentiu de perto o oceano congelante do abuso. Na infância, presenciou o pai agredir a mãe, experiência algo comum entre as famílias brasileiras. Realidade que faz nossas crianças nadarem desde cedo na angústia tortuosa da dor suprema e do conflito entre amar e odiar.
Mas quando conheceu a violência psicológica na própria pele, tomou coragem e saiu de casa com os filhos, deixando tudo para trás antes que o pior acontecesse.
– Não foi fácil. A gente sabe que começa assim e depois acaba em agressão, disse-me.
– É melhor sair antes que piore, né?
– Sim. E piora mesmo.
Bom, nada disso é novidade. Eu tinha 12 anos quando vi, pela primeira vez, um homem puxar a mulher pelo cabelo na rua em plena luz do dia. Ela chorava. As pessoas assistiam sem interferir. Fui advertida a atravessar a rua. Depois soube que ela cometeu suicídio. Anos depois, foram os vizinhos: ouvíamos as ofensas, os gritos, o barulho dos objetos se quebrando. O síndico aconselhou-me a não me meter. Não obedeci. Muitas vezes presenciei agressões que ocorriam dentro de carros – ora parados, ora em movimento – em meio ao trânsito caótico do Rio ou de São Paulo. Se hoje interfiro de alguma forma é menos por coragem e mais por medo de me sentir culpada caso algo pior aconteça.
Quanto ao ciclo da violência, dizem os especialistas que ele apresenta três fases. Na primeira delas, instalam-se as tensões: ciúmes, brigas sem motivo, injúrias e ameaças. A sensação é de perigo eminente. Na segunda, o ataque: agressões físicas e psicológicas. No terceiro, dizem, vem a lua-de-mel: pedidos de desculpa, carinhos e promessas de mudança.
Mas nem sempre é assim. Pode acontecer de o abusador não se arrepender. Não fará promessas. Não pedirá desculpas. Em vez disso, afastar-se-á. Provavelmente atribuirá a responsabilidade do ato agressivo ao álcool, aos problemas financeiros, ao trabalho, ao comportamento da mulher. Pode ser que busque novas companheiras sem desligar-se da anterior. É possível que exija fidelidade ainda que tenha várias parceiras sem receio ou proteção. Não se incomodará com lágrimas. Não perceberá o próprio vazio. Terá feito o jogo sombrio da culpabilização, esse inferno que confunde a mulher abusada. O oceano que antes congelava, de repente se converte em lava ardente que queima e afunda.
A terceira fase é, portanto, tão densa quanto a fossa mais profunda do oceano, onde estranhos animais tentam resistir às grandes pressões. Em vez de ciclos, um gráfico ascendente. Uma prisão.
Por isso, a exemplo do que me contou Helena, é preciso confiar nos instintos – sentido de sobrevivência herdado das cavernas – e abandonar o barco antes do naufrágio ou ao primeiro sinal de perigo. Ninguém quer congelar no oceano ou beber na fonte de um vulcão em erupção. Precisamos podar a linguagem desde a primeira folha. Deixar aos galhos a função de apenas fazer crescer o diálogo que é nutrido de respeito, de cordialidade, de gentileza, em todas as circunstâncias. E junto aos homens, encontrar a mistura certa do adubo.
Essa semana estive na Câmara Municipal para tratar sobre o combate à violência contra a mulher. Por sorte, é possível enxergar um feixe de luz: em breve será posta em votação uma proposta de lei para colocar no calendário municipal a semana de conscientização e combate ao feminicídio, a exemplo da vizinha Uberlândia. Caso seja aprovada, poderemos começar a adubar o terreno. Mas aí é assunto para outra crônica. Até lá.

jornalistajubamaria@gmail.com

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