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MULHERIO

Procura-se homens em desconstrução

Numa quinta-feira à noite, minha pequena sala de estar recebe quatro novas amigas e um rapaz. Todos os seis com o idealismo de verão, aquele que supera o calor dos tempos difíceis e os rejeitos do mundo. Não há espaço para todos. Nem tempo para os tolos. Sentados em roda sobre o chão gelado, de alguma forma entendemos as tristes ideias dos dias atuais como flores de um jardim de Adónis: precisam ser regadas com a água morna que faz crescer logo – é verdade – mas fenecem tão rápido quanto. Tudo é passageiro. Conforme Horácio, somos pó e sombra. E o que começamos, diz ele, tem metade da obra executada.
Se fosse possível sentir o que fica plasmado no ar. Se fosse possível comparar as palavras lançadas no meio do círculo com as nuances do verbo amar, talvez tivéssemos conjugado no presente do subjuntivo: que eles amem.
Aconteceu assim: chegaram na minha casa e uma delas, pouco depois de sentar-se no sofá, com seus cabelos castanhos e os dedos de profunda paz, acariciou a Bebê, minha gata de pelos negros e curtos. Fizeram chiste e contaram histórias aleatórias enquanto eu separava um aperitivo qualquer.
Antes disso, larguei as compras sobre a mesa e fui ao encontro da gata que miava faminta. Bebê comeu e olhou em volta. Ficou entre as moças, embora as portas e janelas estivessem absolutamente abertas e convidassem para um passeio. Uma delas, a dos cabelos castanhos, havia começado a espirrar, alérgica, quando o casal de amigos chegou. Nem por isso deixou de acariciar a gata.
Explicar o que se sabe dos agressores e desmontar alguns mitos e prejuízos que ocultam a verdadeira realidade da violência doméstica é, talvez, o fio condutor que, sem querer, tece a nossa conversa. Olhamos nos olhos uns dos outros e percebemos nosso verdadeiro tesouro: idealismo, idealismo em volta, idealismo na mesa, idealismo no chão, idealismo nas unhas e nos pés, idealismo na raiz dos cabelos, nas estantes, nos livros. Idealismo nos pelos do braço. Idealismo na coragem e na timidez. O idealismo prático que se mede a cada passo. Idealismo bom de mastigar.
– Como fazer com que os homens participem da oficina?
– O sucesso da ação prescinde de um diálogo entre iguais, falei, certa de ser esse um dos princípios norteadores dos projetos. De todos eles.
E completei com uma nota que fez os olhos das moças brilharem como ocorre quando alguma coisa surpreendente está começando; um amor, por exemplo:
– Para gerar empatia é preciso ter passado pela experiência. É como um espelho: as palavras saem das nossas bocas dentro de um raio brilhante, entram pelo nariz e refletem algo na frente, alcançando o coração do outro. Faz-se um milagre. A ferramenta é uma só e se chama: Comunicação Não-Violenta.
– É só isso que falta acrescentar à proposta? – disse a outra.
– Sim…acredito que sim.
– Então acho que precisamos pensar também no plantão de atendimento psicológico.
– Perfeito.
*
Toda ideia nova é como semente: se lançada em terreno fértil gera frutos os quais, por sua vez, matam a fome de quem precisa. Algumas foram firmemente plantadas pelas mãos de um Gustavo de sorriso largo e abraço quente, antes mesmo de nos dizer o adeus eterno. Deixou sua marca. O objetivo? Apoiar as mulheres abusadas intimamente.
Outras escaparam dos lábios de Francine feito sementes de dente-de-leão: voando ao vento até alcançar um porto seguro. A proposta? Criar oficinas com os agressores. Conforme a ideia navegou, a ponta mais pesada fez a semente dar voltas no ar, desacelerando sua descida e permitindo que o vento carregasse a semente para bem longe do velho edifício onde funciona a Casa dos Conselhos, na Rua Artur Machado. Aconteceu de caírem sobre nós, pois já questionávamos com angústia velha: é preciso encontrar novas formas de germinar.
Quando todos saíram, fui eu reler alguns trechos de “El rompecabezas: Anatomía del maltratador”, do médico espanhol Miguel Lorente Acosta. O mito do príncipe encantado – ele diz – torna as mulheres dispostas a serem submissas, enquanto os homens vêem as mulheres apenas como um complemento e buscam o reconhecimento de outros homens. O autor considera: a violência não está diminuindo, mas se mantém estável ou aumenta. A lição de casa é simples: devemos refletir sobre o conceito de masculinidade e os chamados valores patriarcais. Fechei o livro. Em meu colo, Bebê pedia carinho. Os olhos fechados. O ronronar. Foi quando me lembrei da Berenice de Adalgisa Nery em “A imaginária”: “a minha vida, afinal, está resumida apenas numa simples contagem de anos”. Precisamos fazer valer a pena.
*
Permitam-me resumir a ópera. O dia internacional da mulher se aproxima. Ocorre que não queremos falar para as paredes. É necessário dialogar. Por isso precisamos de homens. Precisamos de homens não apenas para o oito de março. Necessitamos de homens em desconstrução. Em especial, procura-se ex-agressores ou homens que presenciaram o pai agredir a mãe. O sucesso do projeto prescinde disso.
*
Por fim, uma boa notícia chegou na mesma quinta-feira que encerrou esse janeiro difícil: o Sindicato Nacional dos Aeroportuários incluiu na pauta de reivindicações da data-base 2019-2021 da Infraero uma cláusula sobre violência doméstica, fruto do projeto do qual faço parte. Caso seja aprovada, a empregada que sofrer esse tipo de violência terá o direito a 15 dias de licença remunerada, bastando apresentar o registro da ocorrência ou declaração de autoridade competente. Fora isso, será assegurada manutenção do vínculo empregatício por seis meses e acesso prioritário à remoção, entre outros. Fico feliz por ter – eu mesma – lançado algumas dessas sementes. Seguiremos regando.

jornalistajubamaria@gmail.com

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