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Tragédias evitáveis

“Uma sucessão de desastres evitáveis”, como nas palavras da procuradora-geral da República, Raquel Dodge, são também os casos de feminicídio. Ela se referia, claro, às recentes tragédias ocorridas em Brumadinho e no Rio de Janeiro. Mas é bom lembrar que outra tragédia acontece silenciosa: 2019 começou com uma onda assassinatos de mulheres. A maior parte desses crimes foram cometidos em casa, com arma de fogo, por parceiros ou ex-parceiros. Só em janeiro, mais de 100 mulheres foram assassinadas. E esses crimes poderiam ser evitados.
Algumas histórias provam isso.
Ana Lúcia*, é uma delas. Ela está viva, embora não esteja 100% segura. Há alguns meses – enquanto ainda morava com o agressor – conversamos sobre os riscos:

Você acredita que ele vai melhorar? perguntou-me.

Infelizmente não vai.

Por quê?

Ele procurou ajuda? Está fazendo terapia? Assumiu os erros?

Não.

Então não há nada que você possa fazer a não ser se proteger e proteger as crianças. Você ainda tem amor por ele?

Sim.

Então se você ama esse homem, faça isso. Recomece sua vida longe dele antes que as coisas piorem. E elas vão piorar.
Depois disso, desenhei no papel uma espécie de gráfico. Fiz perguntas sobre o grau de violência e contei minhas próprias experiências. Tudo isso durante uma massagem. O dia mais feliz foi quando recebi a notícia de que ela havia saído de casa. A ajuda de amigos foi fundamental. Com o apoio e a solidariedade das pessoas, conseguiu mobiliar um apartamento modesto e bem arrumado. Mas, o mais importante, um apartamento seguro, daqueles com guarita. O gasto total: R$3 mil reais, incluindo as despesas com advogado. Ao fazer a mudança e contar com a ajuda de pessoas generosas, não precisou procurar um abrigo, separar-se das crianças ou abandonar o emprego.

Eu expliquei a situação para a dona do apartamento e ela não exigiu fiança ou calção, graças a Deus.
Ana Lúcia teve sorte. Alguns amigos ajudaram-na a pegar as roupas e pertences pessoais. Mas nem sempre é assim. Sem ajuda e doações, o custo para recomeçar a vida não sai por menos que R$10 mil. Ainda assim, é mais barato que manter essa mulher sob a tutela do estado. É claro que cada caso é um caso. Se a mulher corre o risco de ser morta, talvez deva mudar de cidade, emprego, ficar abrigada. Talvez precise ingressar em um programa de proteção. Mas pequenas medidas podem ser tomadas antes de as coisas piorarem. Ações preventivas. Corretivas.
Vistorias. Laudos. Perícias. Estudos. Tal como em uma barragem, antes da fatalidade, há sinais. Cachorros, vacas, galinhas previram o desastre no Córrego do Feijão. Os bichos se comportaram de modo estranho. Nos casos de feminicídio, amigos e familiares quase sempre percebem que as coisas não vão bem. Geralmente se afastam vendo duas pessoas passarem pelo corredor da morte. Quase sempre culpam as mulheres. A maioria pouco se importa. A violência patrimonial, o controle e a possessividade são as vestes mais aparentes. Histórias trágicas, mas evitáveis. Poucos são os que percebem isso com a lucidez necessária. Recentemente atendi a um caso de rara lucidez: graças à intervenção do pai do agressor, o pior foi evitado. O filho segue internado.

Antes assim que preso ou morto, disse-me o senhor, de 78 anos.
Há uma semana Ana Lúcia me recebeu em sua casa. Ofereceu-me pavê.Tomamos café. Conversei com as crianças. Tricotamos. Há vida, e vida
em abundância, depois da violência doméstica. Era uma tarde de muito sol e fiquei impressionada com a alegria daquela casa, apesar de tudo.
Por sorte algumas vidas estão se transformando.

Quando olho para trás parece coisa de louco. Não acredito que isso tudo aconteceu.

Você é forte e linda. Uma mulher muito corajosa.
Abraçamo-nos como velhas amigas.
*O nome foi trocado para garantia de sigilo.

jornalistajubamaria@gmail.com

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