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MULHERIO

Janelas para o vazio

Começo a escrever na quinta-feira à noite esse texto a ser lido apenas no sábado, dia 23. Neste instante, após o árduo expediente de trabalho, eu gostaria de estar em um bar ou na companhia de amigos. Em vez disso, aqui sentada, ouço os gritos das mulheres do campo ecoando através do fio invisível que conecta a todas nós que sentimos, em algum grau, a dor de ser mulher. Ou seja: em vez de falar de flores, preciso fazer valer a minha condição de mulher. Ou não serei mulher afinal de contas. Aproxime, então, seu ouvido deste papel-jornal a fim de absorver melhor: a aprovação da nova reforma da Previdência é particularmente prejudicial à mulher rural.
Ou será que em tempos de tempestade seremos covardes a ponto de ignorar isso: estar na zona rural é viver algo isolada!
Imagine apanhar do marido sem vizinho por perto a ouvir os gritos de socorro e chamar a polícia, sem uma alma acolhedora para oferecer abrigo ou emprego, sem a chance de esbarrar com algum anjo que perceba seu olhar opaco e os hematomas de grande dor.
Consegue ver?
Você concluirá, sem demora: se já é difícil no meio urbano, quem dirá no meio rural? É triste. Muito triste. Mas é também verdade: sequer há no Brasil pesquisas acadêmicas suficientes para fazer entender essa realidade da mulher do campo.
E mesmo que fuja de casa com mala e cuia, sem dispor de renda própria ou das economias de direito pelo trabalho na roça, como essa mulher poderá segurar o sol com as mãos e recomeçar? Como sustentará a si própria e as crianças?
Para essas mulheres, a prisão de existir tende a ficar ainda mais sufocante.
Será isso uma maldição?
Há poucos dias, quando a reforma da Previdência chegou finalmente à Câmara dos Deputados, algumas deputadas ponderaram sobre os prejuízos à mulher. Eles são muitos. Mas aqui, por causa do espaço reduzido, vou precisar cruzar meu oceano interno para me ater apenas à mulher do campo.
Na prática, as mulheres que trabalham em propriedades rurais familiares sem registro em carteira acabam se aposentando por idade. Representam uma parcela pequena da população, ganhando uma aposentadoria irrisória, conforme os dados do próprio governo disponíveis no Boletim Estatístico da Previdência Social.
Só em novembro, em todo o Brasil, apenas 6 mulheres trabalhadoras rurais se aposentaram por tempo de contribuição, enquanto 13.112 se aposentaram por idade, ganhando em média R$ 954,80. No mesmo mês, 18.493 homens, trabalhadores rurais, se aposentaram por tempo de contribuição, ganhando R$.2.458,94.
A disparidade é chocante, embora saibamos que o trabalho braçal da mulher na roça atrelado aos afazeres domésticos e o cuidados com os filhos levam ao seu envelhecimento, comprometendo fortemente a saúde.
Após a reforma, lamento escrever, o cenário será desesperador. Por onde vamos nos atirar de volta para o sonho de um país melhor para nós?
Homens e mulheres nessa situação passarão a se aposentar com 60 anos, com pelo menos 20 anos de contribuição. Se o valor arrecadado no momento da venda dos produtos não atingir um patamar mínimo, o núcleo familiar terá que completar o valor até chegar a uma contribuição anual de R$ 600,00 para Previdência.
Pergunto eu: quem acredita que o marido abusador, controlador da renda familiar, retirará do seu bolso o valor necessário para completar a contribuição da esposa? Ou seja: basta juntar lé com cré para perceber o cenário delineado: se em todo o Brasil já são poucas as mulheres rurais que se aposentam por tempo de contribuição, agora elas serão artigo raro.
Percebemos que essa reforma é algo como sombra projetada por homens incapazes de perceber a natureza do que recairá sobre as mulheres. Aqui, não tem jeito. A racionalidade só invadirá o debate público se nós, as mulheres, formos capazes de entender, acolher, ajudar, debater, lutar.
Ao terminar esse texto, recebo um telefonema. É Ana Carolina Ros, mulher uberabense, socialmente comprometida, analista de seguridade social do INSS
– Você acha que consegue falar sobre os impactos da Reforma da Previdência para as mulheres?
– Consigo sim.
– Vamos organizar então uma palestra para o mês de março.
– Mas posso adiantar que essa proposta, se for aprovada assim, fica mesmo pior para a segurada social que trabalha na propriedade familiar e também para aquelas mulheres que trabalham sazonalmente e que terão seus contratos flexibilizados. Então, a chance de conseguir se aposentar por tempo de contribuição vai ficar quase impossível para as mulheres mais pobres.
– E há algum outro prejuízo nisso, especialmente para Uberaba e região?
– Sim, claro. O êxodo rural. E, consequentemente, o aumento do preço de verduras e legumes hoje produzidos por essas pequenas propriedades, muitas vezes sem uso de agrotóxicos.
Ah, como eu queria falar de flores em vez de ver as janelas abrindo-se para o vazio!

jornalistajubamaria@gmail.com

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