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MULHERIO

Terceira margem

Hoje, sexta, dia 8 de março, 14h, é a data e hora em que essa crônica foi concluída. Enquanto escrevo essa frase, três mulheres estão sendo espancadas no Brasil. Em poucos minutos, o texto estará nas mãos do editor a tempo de chegar à mesa dos leitores em uma manhã de sábado.
Quando isso acontecer, a caminhada proposta pelo Movimento somos sementes, somos muitas, organizado pelo AMAI (Apoio entre mulheres abusadas intimamente) já terá andado pela avenida Nenê Sabino, com ou sem chuva, até o Cemitério São João Batista.
Quando amanhecer o sábado, muitos dos sentimentos que agora nutrimos terão se dissipado entre palavras e preces, entre cartazes e poemas, entre homenagens e orações. Isso mesmo: uma cerimônia ecumênica terá reunido mulheres de práticas religiosas tão distintas como o catolicismo, a igreja evangélica, a umbanda, o espiritismo, o islamismo e seicho-no-ie.
Juntas, todas carregamos a crença de que a paz é o único caminho possível para promover o diálogo necessário a fim de enfrentar a questão da violência contra a mulher.
Desde o dia que começamos a organizar esse evento até este momento, mais mulheres tiveram suas vidas ceifadas Brasil afora. Também até este momento, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MDH), comandando por Damaris Alves, ainda não divulgou os dados sobre feminicídio registrados em janeiro de 2019.
Contactada por e-mail e telefone reiteradamente, a assessoria de imprensa do ministério apenas prometeu à coluna que divulgará os dados no fim de março, mas sem data definida. Para completar, o MDH retirou do site o histórico de notícias e ações dos governos anteriores com relação ao combate ao feminicídio, mostrando que a lógica masculina da competição maniqueísta impera e tenta superar uma outra, a que nos convida ao diálogo racional e amoroso.
Nos últimos tempos, também em Uberaba, a falta de uma terceira margem (a margem do não-óbvio) deixou algumas feridas. A primeira delas foi acompanhar de perto um caso de agressão que culminou no seguinte cenário: pessoas que se dizem progressistas defendendo um rapaz que agrediu a ex-namorada. E pior: criando desavenças com pessoas que defenderam a moça. Um episódio triste, mas que se repete todos os dias, especialmente em cidades com pouco ou nenhum debate sobre o feminismo e masculinidades. Essa falta de sororidade faz abrir feridas já cicatrizadas. Falo em sororidade porque é o termo criado para algo simples que a todas compete: amar-nos umas as outras.
Entender a dinâmica da relação abusiva, especialmente aquela que envolve a agressão física, não é nada fácil. Mas é necessário. Se a sociedade é capaz de se debruçar para estudar estratégias que tornem a operação de minério mais segura, por que não se permitir o estudo sério sobre a violência de gênero? É isso que queremos. E temos a consciência de que o lugar de fala das mulheres que passaram por situações de abuso íntimo deve ser respeitado e valorizado. A palavra respeito à dor de outras mulheres vem a minha mente e não escapa. Uma reflexão importante jamais abandona a nossa ideia impunemente: sempre volta, fantasmagórica. É essa a reflexão: o saber que não vem da experiência não é realmente um saber, como ensinou o grande mestre, Lev Vigotsky. Assim como o pensamento de Paulo Freire vem para nos desafiar e lembrar que sectaristas, em qualquer que seja a opção por onde parta a sua irracionalidade que cega, não conseguem ou não podem perceber a dinâmica da realidade, ou a percebem de modo equivocado. Uma coisa é certa: qualquer que seja o sectarismo, ele não contribuirá para melhorar a condição de vida da mulher brasileira.
E digo mais: quem disse que duas caminhadas realizadas no Dia Internacional da Mulher não poderiam ocorrer no mesmo dia? No sábado em que os leitores percorrerem as páginas pelo jornal, outra caminhada terá saído da praça Rui Barbosa até a Praça Dom Eduardo, organizada por mulheres que há muito tempo militam em Uberaba em favor das mulheres. No dia 12, um café seráo servido para mulheres na ACIU, acompanhado de uma conversa sobre empoderamento feminino. E ao longo do mês, diversas palestras ocorrerão na cidade, organizadas por grupos diferentes. Aliás, nessa manhã de sábado, 9/4, mulheres do AMAI e convidadas estarão no calçadão munidas de café e bolo para uma prosa sobre a questão da mulher.

Apareça!
Grupos distintos de mulheres, com objetivos distintos, podem sim organizar eventos diferentes sem que isso represente competição. Em vez disso, mostra o quanto estamos fortalecidas e empoderadas. Unir forças também é importante e o diálogo será sempre o caminho mais democrático para construir uma Uberaba melhor para as mulheres. Temos a certeza de que o vento soprará a canoa naturalmente. E desejamos que nossas filhas e filhos, espelhados em nós, possam nos olhar e dizer:

-Mãe, a senhora me leva junto, nessa sua canoa?
Margens à parte, lamentável mesmo foi um caso ocorrido no último dia 2/3, no Hospital Regional, quando um médico se recusou a realizar um exame de ultrassonografia em uma gestante atendida pelo SUS. Tudo isso porque ela fazia questão de entrar com acompanhante. Segundo fontes, o fato desumanizador ocorreu durante um mutirão, quando ficou determinado pelo Hospital que, para agilizar os atendimentos, as mulheres deveriam entrar sozinhas. Indignada, a paciente filmou o ocorrido e o vídeo circulou nas redes sociais.
Em tempos em que mulheres reivindicam cada vez mais a presença paterna na criação dos filhos como ferramenta de combate ao machismo, como pode um hospital agir na contra-mão? Cada vez mais homens precisam ser conscientizados e estimulados a comparecer nos exames pré-natais, se assim desejar a mulher.
Informada sobre o ocorrido, a assessoria de imprensa da Prefeitura de Uberaba informou que no momento do exame “havia a presença de enfermeira” em atendimento ao parecer do CRM-MG 95/2017. Ainda segundo a assessoria, a conduta do médico, cadastrado pela Fundação de Ensino e Pesquisa de Uberaba (Funepu) será apurada pela Ouvidoria do Hospital Regional. Além disso, a Secretaria Municipal de Saúde informou que está acompanhando o caso e marcará uma nova data para a realização do exame.
Por sorte, temos também algumas notícias boas como a recente parceria firmada entre o AMAI e o grupo Abayomi, que se dedica justamente a questão da maternidade e à prevenção e combate à violência obstétrica em Uberaba.
Falando nisso, há muito o que fazer em diversas áreas. Na última semana, em conversa com a secretária Municipal de Educação, Silvana Elias, por exemplo, soube de um dado estarrecedor: o número de meninos matriculados na rede municipal de ensino é consideravelmente superior ao de meninas. Em 2018, oram 13.622 meninos contra 12.674 meninas. Realidade tão amarga quanto prejudicial.

-Há dados que não podem ser negados. É com a realidade que devemos agir.

-Pois é. Mostra que a diferença de gênero começa ainda na infância.
É preciso transcender o cotidiano, o rotineiro. Juntas encontraremos uma terceira margem.

jornalistajubamaria@gmail.com

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