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MULHERIO

É preciso educar para a paz

O ano de 2019 nem completou 90 dias e estamos presenciando uma onda de misoginia sem precedentes, o que levou milhares de mulheres, em todo o Brasil, a irem para as ruas no último 8 de março, acendendo as chamas do movimento #8M. No mundo inteiro, as ações compreenderam greves simbólicas, paralisações, protestos, assembleias e passeatas. Não foi diferente em Uberaba, onde caminhadas e protestos foram realizados para lembrar que em 2018, 16 milhões mulheres brasileiras sofreram algum tipo de violência, o mesmo número de toda a população do Equador. Uma das ações promovidas por aqui foi uma cerimônia ecumênica em memória às vítimas de feminicídio em 2019, evento que procurou mostrar que mulheres de todas as religiões e convicções políticas sofrem as consequências do machismo estrutural e por isso mesmo devem caminhar unidas, ajudando umas às outras a romper a barreira do silêncio e da opressão.
Não é só nos lares que o patriarcado mostra a sua força. Presenciamos com frequência, durante a transmissão das reuniões plenárias, o silenciamento e a interrupção da fala de deputadas e senadoras, especialmente as pertencentes aos quadros dos partidos de esquerda. Fenômeno que se multiplica nas câmaras municipais e dos deputados.
Para entender a esse fenômeno, é importante recorrermos ao pronunciamento de Marielle Franco feito na Tribuna no dia 8 de março de 2018, portanto poucos dias antes de ser executada. Na ocasião, Marielle falou sobre o momento político como um momento de fragilidade democrática e citou uma série de dados sobre violência contra mulheres, entre eles o espantoso índice de 12 assassinados e 13 estupros diários registrados no Brasil.
Enquanto falava, uma voz masculina tentou interrompê-la. “Tem um senhor defendendo a ditadura e falando alguma coisa contrária a isso? Não serei interrompida, não aturo interrupção de um cidadão que vem aqui e não sabe ouvir a posição de uma mulher eleita”, respondeu Marielle na ocasião.
Mas não são apenas homens da direita a praticar atos de misoginia contra a mulher. Homens de todas as concepções políticas têm se mostrado incapazes de aceitar a autoridade e a fala de uma mulher com o mesmo respeito e decoro com que lidam com seus pares masculinos. Homens que silenciam nossas falas, que não reconhecem a autoridade conferida por um cargo político, um diploma, uma profissão. Homens que querem nos ensinar o que é ou como deve ser o feminismo (em vez de conversar entre eles sobre masculinidades) ou que se julgam suficientemente investidos de autoridade para dizer como devemos combater a violência doméstica. Homens que desqualificam nossas falas e pesquisas, questionando nossos métodos e posicionamentos de um modo como não fazem entre homens. Não respeitaram, por exemplo, o pedido de silêncio feito pela deputada Carla Zambelli (PSL-SP) essa semana durante uma sessão que ela mesma presidia. Não vou entrar aqui no mérito da sessão, mas apenas ressaltar que Carla precisou assobiar ao microfone para ser finalmente ouvida. Depois disso, homens de diferentes ideologias, referiram-se à deputada com comentários depreciativos tais como: “agiu como uma criança”, “criancisse’, “que coisa feia para uma mulher”.
Micromachismos à parte, o que mais me preocupa nesse mês de março são as recentes mortes por feminicídio e que o mês esteja sendo também marcado por confusão, tristeza e desinformação. Em Uberaba, apenas nos últimos nove dias, atendi a três casos de mulheres de classe média ou alta que foram ameaçadas por seus maridos ou ex-companheiros. Em comum, todos disseram que iriam “comprar uma arma”, “atirar na sua cara”, “acabar com a sua vida”. Nenhuma das três estudou feminismo ou foi educada para conhecer e saber enfrentar a dinâmica do relacionamento abusivo. Apesar disso, uma parte do governo e de pessoas que estão à frente de ações de prevenção e combate à violência contra a mulher, mostram um completo despreparo para o desafio que assumiram. Longe de dialogar com vítimas e pesquisadoras da área, assumem posturas que apenas reforçam a violência em vez de combatê-la
É o caso da ministra Damaris Alves, que, em discurso proferido no último dia 8/3, atribuiu à luta por equidade a culpa pela onda de violência contra a mulher. “Enquanto nossos meninos acharem que menino é igual a menina, como se pregou no passado, algumas ideologias… já que a menina é igual, ela aguenta apanhar”. Damaris defendeu ainda que “meninos tem que aprender a dar flores para as meninas” como forma de prevenção à violência contra a mulher.
Damaris prova com isso um completo despreparo para lidar com essa temática. Isso porque a violência contra a mulher é uma realidade no mundo inteiro e é praticada há milhares de anos. Depois porque a emancipação feminina é justamente o que tem ajudado as mulheres a saírem dos relacionamentos abusivos. Emancipação essa que valoriza o feminino na mesma medida em que defende a igualdade de direitos e oportunidades. Ao analisar diferentes casos de violência doméstica, pesquisadores e psicólogos percebem fatores em comum: dependência econômica e financeira. Homens que se comportam como se fossem donos da mulher: possessivos, ciumentos, controladores e agressivos. Paulatinamente, esses homens vão perdendo o afeto da companheira, que fica cada vez mais triste e desolada. Então, ao perceberam o distanciamento da parceira, passam a vislumbrar a separação e possíveis traições. Após episódios de violência, imploram por perdão ou oferecem flores para reconquistar a mesma mulher que ofenderam, humilharam, socaram, chutaram, empurraram e beliscaram dias antes. A cada novo ciclo, mais grave a violência. Mesmo quando a mulher trabalha fora, o companheiro abusivo controla e gasta o dinheiro dela como se fosse dele. Ou seja, é a conduta do homem a causa da violência. Mas se essa mulher é assalariada terá, evidentemente, mais chances de conseguir sair do relacionamento agressivo. É preciso, portanto, fazer algo que mesmo as feministas de direita já perceberam: educar os meninos desde à primeira infância para que não reproduzam frases e comportamentos machistas. Afinal, a violência é uma escola que começa pela forma como os adultos lidam com as crianças. Nas palavras da grande educadora Maria Montessori, a paz não escraviza o homem, pelo contrário, ela o exalta. Não o humilha, muito ao contrário, ela o torna consciente de seu poder no universo. E porque está baseada na natureza humana, ela é um princípio universal e constante que vale para todo ser humano. É esse princípio que deve ser nosso guia na elaboração de uma ciência da paz e na educação dos homens para a paz.
Sabemos que mulheres também dizem e se comportam de forma machista, mas MULHERES NÃO SÃO MACHISTAS. Por estarem inseridas numa estrutura patriarcal, algumas mulheres reproduzem o discurso machista e também precisamos nos conscientizar e reeducar a todo instante. O feminismo, ao contrário do que dizem muitos por aí, é libertador. Agora, se tudo o que você sabe sobre feminismo é o que aprendeu nas redes sociais, recomendo que estude e respeite suas diferentes concepções teóricas. No final, homens e meninos são algozes e vítimas do mesmo patriarcado, incluindo também os dois rapazes que atiraram contra alunos e funcionários na escola em Suzano. Orientados e seduzidos por grupos extremistas perigosos, foram, antes de qualquer coisa, vítimas de um padrão de masculinidade que gera sofrimento para toda a sociedade e precisa ser desconstruído. Por não saber lidar com esse problema, acabam canalizando seu ódio contra as minorias, principalmente mulheres.
Mas existem também aqueles que acreditam na força do amor: os que seguem os passos de um Gandhi que fora capaz de escrever uma carta para Adolf Hitler a fim de tentar convencer o ditador de que não era uma boa ideia arrastar a humanidade para um conflito de destruição total.
Para finalizar, gostaria de ressaltar um ensinamento que aprendi com uma grande psicanalista uberabense que infelizmente nos deixou em 2018: mulheres não precisam ser cuidadas por um homem. O verbo “cuidar” está relacionado à relação entre pais e filhos. Mas mulheres, por sua vez, são adultas e, portanto, responsáveis por si mesmas, seus corpos, seus direitos. Mulheres precisam ter voz e serem respeitadas em suas opiniões e desejos. Homens e mulheres devem, portanto, caminhar lado a lado, entendendo, confiando e respeitando a liberdade que ambos devem ter para conduzir suas vidas da forma mais harmônica possível. Obrigada, Zezé.

jornalistajubamaria@gmail.com

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