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MULHERIO

As peças de um quebra-cabeça sem encaixe

Há figuras da mais assombrosa ignorância capazes de nos remeter à imagem de Demian, personagem de Hermann Hesse, não pela semelhança, mas por seu avesso. Jovens que podem deixar de fazer tudo o que for proibido e ser, a despeito disso, um “ressumado patife”. Esquecem-se a lição básica: nem tudo convém. Falam por falar, sem escrúpulos, esquecendo-se que cada qual tem que responder por si mesmo.
Ao longo dos meus 35 anos, estimo ter sido, em algum momento, instruída por mais de trezentos professores e não receio afirmar que mais de 85% eram mulheres. Ao longo da minha vida acadêmica, entretanto, apenas uma delas, Maria de Lourdes, revelou aos alunos suas próprias convicções políticas. O ano era 1991. Na ocasião, eu estudava em uma escola municipal, na cidade de São Paulo. Em 1989, Luiza Erundina, então filiada ao Partido dos Trabalhadores, havia se tornado a primeira prefeita da cidade e seu secretário de educação era nada mais nada menos que Paulo Freire. Eu tinha apenas oito anos e Maria de Lourdes nos colocou a par do cenário político e das transformações pelas quais a escola passaria. Aos 48 anos de idade, ela estava radiante diante da possibilidade de melhoria da qualidade de ensino, valorização do professor e alfabetização de jovens e adultos. Paulo Freire havia acabado de criar o Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos (MOVA).
Com a ajuda dessa professora, dei o primeiro passo para fora da minha redoma. Isso ocorreu quando pôs-me sentada na primeira fileira lado-a-lado com um menino que em pouco tempo se tornaria meu melhor amigo. Rafael não era um garoto qualquer. Órfão de pai e mãe, morava com a avó e havia repetido a segunda-série duas vezes. Tinha evidentes problemas cognitivos.
Na medida em que nossa amizade crescia, eu ajudava Rafael nas tarefas enquanto ele me ensinava a arte da sobrevivência. Juntos recolhíamos tocos de giz de cera que Rafael derretia para fazer bolas coloridas. Assim, enquanto eu escrevia meus primeiros poemas, estimulada por Maria de Lourdes, Rafael tratava de ilustrá-los. Na hora do recreio, trocávamos bolas de giz por cachorro-quente, pipoca, biscoito. Era na escola que Rafael fazia sua única refeição diária.
No ano seguinte, meus pais me matricularam em uma escola particular de modo que precisei dar adeus àquela realidade. Em nenhuma outra escola encontrei professores que estimulassem de igual maneira minha paixão pela escrita. Nem colegas que precisassem driblar as dificuldades com tamanha criatividade. Muito tempo depois, ao esbarrar com uma ex-colega de turma, soube que Rafael acabara preso aos quinze anos. Segundo ela, meu amigo fora “resgatado” por Maria de Lourdes, que ajudou o rapaz e conseguiu para ele uma oportunidade de trabalho. Nunca mais tive notícias nem de Rafael nem de Maria de Lourdes.
Décadas após, seja nos bancos da Universidade Federal do Rio de Janeiro, nos cursos preparatórios ou como visitante no curso de Mestrado em Administração do IBMEC, assisti inúmeras aulas em que o capitalismo era não apenas o sistema de pensamento reinante como seu paradigma e pressuposto. O que pensar, por exemplo, do estudo sobre os princípios do Marketing e das ferramentas de análise SWOT, CRM, Benchmarking? Como passar por uma aula de Matemática Financeira sem compreender os princípios de capital, juro, taxa de juro, prazo ou montante?
Entendo perfeitamente os que se sentem incomodados com as Marias de Lourdes do nosso tempo. Há quase trinta anos, professoras como ela tinham sua autoridade respeitada e talvez por isso conseguissem transmitir o conhecimento com tranquilidade. Tanto é que jamais presenciei em sala de aula qualquer sinal de violência ou agressividade por parte dos alunos. Maria de Lourdes, ao contrário, era ao mesmo tempo firme e amorosa. Sua imagem ainda ressoa sobre e mim com respeito e admiração. Em outubro último, lembrei-me dela após dialogar com meu filho:

  • Mãe, minha tia da escola falou que o Bolsonaro é bom e vai salvar o Brasil. Ela está errada, né?
  • Filho, essa é a opinião da sua professora. A mamãe não acredita nisso, mas as pessoas têm o direito de pensar de maneira diferente. Você deve obedecer e respeitar a sua professora, tá?
    Na opinião de psicólogos, desautorizar um professor é absolutamente incompatível com o objetivo de formação de um cidadão capaz de respeitar a autoridade e a pluralidade de opiniões inerentes ao progresso social.
    Quando se trata do projeto denominado Escola sem Partido, corremos o risco de colocar todo o peso do conflito político atualmente existente em nosso país sobre as costas dessas brasileiras que representam a maior força de trabalho feminino do país. Afinal, de acordo com os dados do INEP referentes ao ano de 2017, existem, no Brasil, pouco mais de 1,9 milhão de professoras lecionando na educação básica e superior. Nesse quebra-cabeça, sobram ou faltam peças. E a imagem que se forma não é capaz de retratar com veracidade a sociedade em que vivemos.
    Na balança do patriarcado, a culpabilização tende a recair sobre mulheres como Rosemeire Scatena, assistente social e professora do curso de Serviço Social da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM). Na última semana, Rosemeire teve sua aula gravada sem permissão, cortada, editada, e publicada nas redes sociais, de forma descontextualizada, por grupos políticos favoráveis ao Escola sem Partido. O fato gerou repercussão e inúmeras moções e atos de repúdio ao autor da postagem.
    O departamento de Serviço Social da UFTM, por exemplo, foi enfático ao afirmar que “rechaça e repudia qualquer iniciativa contra quaisquer de um dos professores” e que a gravação feita, “sem o conhecimento e autorização prévia”, “configura-se uma violação do direito do docente e pode vir a ser crime de assédio”, além de uma atitude “imoral, antiética’. Em outra nota, 61 pessoas, entre professores e funcionários da UFTM, manifestaram “a sua irrestrita solidariedade à docente ofendida em seu direito de exercer livremente sua profissão”.
    As notas recordam que é absolutamente incompatível com a Constituição Federal todo e qualquer ato, conduta, prática ou norma que proíba ou limite o exercício da atividade docente sob o fundamento de doutrinação política.
    *os nomes dos personagens Rafael e Maria de Lourdes foram alterados para preservar sua intimidade.

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