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MULHERIO

JUBA MARIA

Geralda, presente!
Emoção é soltar a voz e deixar correr a memória das nossas irmãs assassinadas. É o que fez, mais uma vez, a grandiosa Gilda Magela de Oliveira, durante palestra na Igreja de São José Operário, dia 20. É por isso que Guiomar Maria Tomaz está viva. E estará eternamente entre nós. Quem fizer uma breve pesquisa no Google não encontrará qualquer notícia sobre a sua morte a não ser uma singela menção à Lei nº 10497, de 1 de julho de 2008, que autorizou a prefeitura a dar o nome Guiomar Maria Tomaz a qualquer logradouro público desta cidade. Uma pesquisa rápida, no entanto, aponta que isso não feito. Guiomar, mulher negra, foi cruelmente assassinada pelo marido com um tiro. O motivo? Ele não aceitou a separação. Logo em seguida matou a Lu, Lucimar Maria Tomaz, irmã de Guiomar, com um tiro na nuca. Foi quando dona Geralda, mãe das duas, gritou: “Sérgio, o que você está fazendo com minhas filhas?”. Acabou ferida de raspão. A seguir, o assassino entrou no banheiro, onde cometeu suicídio. Apesar disso, dona Geralda mostrou sua força e fé ao pedir aos amigos e familiares, durante o velório, que também rezassem pela alma de Sérgio. A gente às vezes reclama de coisas tão pequenas sem se dar conta de que estar vivo é um luxo perigoso, especialmente se você é mulher, se você é negra, se você é pobre, se você é periférica. Como não há libertação que seja outorgada pelas mãos do opressor, a mim cabe desnudar a alma para, inspirada em Gilda, clamar para que a memória de Guiomar não se apague jamais. Como? Não tenho outro recurso a não ser gastar os meus dedos para pedir que se preencha o vazio com alguma esperança. Não ter fé é que seria aumentá-lo. Dar à Praça Pôr do Sol o nome de Praça Guiomar Maria Tomaz é um pedido que faço, embora me pareça pouco. Guiomar mereceria mais que esse singelo pleito. Ela mereceria o mundo. Para fazer o deserto florir, embora a chuva às vezes seja de sangue, precisamos de bem mais que iluminar uma praça com o nome de uma mulher. O sol precisa permanecer dentro dos corações dos homens.

Daniella Sal da Terra
É sempre bom assistir a uma mulher negra iluminar o público com sua inteligência e um vestido laranja brilhante como um nascer do dia sobre o mar. Mulher que, como seu filho desenhou, tem o globo na mão para salvar o mundo. Essa é bem a impressão que causa a voz potente de Daniella Néspoli com seu sorriso discreto e uma alma efervescente. Mulher que fala com a alma em resgatar os valores e a memória do seu povo. “Resgatar essa memória é um compromisso nosso que vem de um passado que se reflete nos tempos presentes. Se a gente colocar o pé na realidade e levar a nossa vida com um compromisso com as causas sociais e desmistificar ideologias, nós vamos admitir que vivemos em uma sociedade desigual onde a população negra, periférica, está em condições de vida e de trabalho exploradas, marginalizadas. Nosso compromisso é o de descortinar essa realidade para agir. Nossa vida precisa ser uma luz, o sal da terra que faz a diferença para mudar essa sociedade de injustiça, de intolerância, de negação do outro”, disse. Daniela é assistente social e artista plástica de talento incontestável. Ela participou de uma série de palestras e ações organizadas em Uberaba em função do dia 20 de novembro, quando se lembrou o aniversário de morte de Zumbi dos Palmares.

Euripa é quem sabe
Euripa é uma senhora. Euripa é uma guerreira. Euripa é uma mulher negra que sabe sobretudo o que sabe sabendo porque sabe vivendo. O que Euripa sabe da Lei Maria da Penha é justamente aquilo que a Lei Maria da Penha é para Euripa. Apenas um papel. “Quando alguém me pergunta se eu conheço a Lei Maria da Penha eu respondo que não
conheço”, disse ela segurando a lei na mão. E ela está certa. Apesar da importância da lei e dos debates que suscitou, os dados mostram que essa violência continua. É preciso, antes de tudo, combater a cultura do machismo e da violência. Mas o nosso país foi construído alicerçado pela violência contra as mulheres indígenas: abusadas e exterminadas durante a colonização. “Foi aí que começou a violência contra a mulher no Brasil”, disse Euripa Machado Costa, mulher que dedicou boa parte da vida a lutar pelos direitos das mulheres negras em Uberaba. Mas como nem tudo é só lágrimas, os dados do IPEA trazem alguma esperança para as mineiras. Isso porque de 2006 a 2016, a taxa de homicídios de mulheres negras por 100 mil habitantes caiu 12,2% no nosso estado. Também é positivo o quantitativo de vítimas gerais de violência doméstica e familiar divulgado pelo Governo do Estado de Minas Gerais e que inclui o homicídio e outras violências. Isso porque, em Minas, o número de casos caiu de mais de 148 mil em 2015 para 145 mil em 2017. Apesar disso, como já noticiamos, a região que abrange Uberaba e outros trinta municípios do entorno é a que apresenta os piores índices. Por aqui, as cidades mais perigosas para mulheres são Carmo do Paranaíba, São Gotardo e Rio Paranaíba.

Erro judiciário
Clarice Lispector dizia que escrever é como vender a alma. “Mesmo quando não é por dinheiro, a gente se expõe muito”. Não tem como ser de outra forma. Mas Clarice não esteve sempre certa. Isso porque o que mais interessa à mulher não é o homem, como ela escreveu. O que mais nos interessa é a paz. E acreditamos que combater à violência do homem contra a mulher é tão vital quanto respirar. Algum resgate do passado também deve ser feito. Não que seja regra, mas é requisito, pois aquele que caminha com um olho nas costas não cai no buraco duas vezes. É por isso louvável o trabalho da professora Neiva Flávia Oliveira, da Universidade Federal Fluminense, de valorização e resgate da memória de Rosalina Buccironi, assassinada pelo marido, Tubal Vilela da Silva, em 21 de maio de 1926, com três tiros pelas costas. Rosalina era uma menina linda e sequer viu quem a matou. Menos de um mês depois, no Tribunal do Júri, composto apenas por homens, o marido foi absolvido, apesar do empenho do promotor em acusá-lo. Flávia conta que o julgamento tratou apenas de decidir se Rosalina havia ou não traído Tubal como se a contenda não passasse de um romance machadiano. E com olhos oblíquos e dissimulados, o tal Júri inocentou um assassino frio e cruel em um dos mais terríveis erros judiciários da história do Brasil. E pior: depois disso, Tubal ainda se tornou prefeito de Uberlândia (1951-1954) e deputado estadual (1955-1959). Hoje, acreditem, a principal praça da cidade tem o nome do homem que assassinou a própria esposa grávida. O homem. Ah, o homem!. Ou será o bicho? “Como o homem é capaz de matar a mulher que diz amar?”, uma amiga me perguntou hoje cedo. “Como outro homem pode inocentá-lo?”, redarguí. O que almejamos é a paz. E que outros homens queiram o mesmo que nós.

Homenagem a Cristiane

“Que Deus me salve. Ou me mate logo”, é isso o que pensam muitas das mulheres vítimas de violência no relacionamento afetivo. Elas não são fracas. Elas não são loucas. Elas não são culpadas. Não é uma vergonha apanhar de um homem. Vergonha é controlar, humilhar, diminuir, chantagear, ameaçar, beliscar, empurrar, puxar o cabelo, chutar, socar, enforcar, esfaquear, atirar, matar. Não pense, mulher, que de nada adianta falar e contar e escancarar a sua vida íntima. A verdade liberta. E cada vez que uma mulher agredida tem a coragem de expor a sua voz, o seu rosto, a sua beleza e a sua inteligência, ela ajuda a acabar com o preconceito. E com ela levanta outras tantas mulheres. Milhares delas. Que bom essa nota não terminar de forma trágica. Muito pelo contrário: ela é uma celebração à vida de Cristiane Machado, a atriz que teve a coragem de contar em rede nacional de televisão o que sofreu. Isso não é pouco. E está registrado nas filmagens. Porque em uma sociedade em que a palavra da mulher não tem valor, filmar a agressão é fundamental. Que mais mulheres tenham acesso à tecnologia como ferramenta de produção de provas. Isso, aliás, deveria ser garantido por lei às mulheres vítimas de violência doméstica. Filmar é o que pode fazer a diferença entre a impunidade e a condenação. Eu, que passei conheço essa dor, poderia continuar minha vidinha modesta sem me preocupar com nada. Em vez disso, quero dar um abraço no coração de todas as outras mulheres: as que saíram e seguem vivas, as que morreram assassinadas e todas as que ainda estão sofrendo esse que é um dos grande males da humanidade. Enquanto não formos capazes de resolver a questão de gênero, não haverá paz possível. Obrigada, Cristiane. Você está se libertando e iluminando outras mulheres. Todo furacão passa, mas precisamos que nossas estruturas permaneçam intactas, pois há outras mulheres precisando de nós.

Situação difícil

“Bom dia, não estou nada bem, ainda moro com meu marido, vivo uma situação difícil e, pra piorar, ele é dependente químico”. Essa não era bem a mensagem que eu queria ler ao acordar. Mas enquanto houver uma mulher sendo agredida não podemos sossegar. Há de haver uma saída, uma solução. Se com tantos avanços tecnológicos não formos capazes de encontrar soluções inovadoras para salvar a vida dessas mulheres, de que vale a modernidade? Também me entristece saber que há uma aluna da rede estadual de ensino de Uberaba que, neste momento, está em situação de violência no relacionamento afetivo. No entanto, nada pode ser feito para salvá-la. E nada poderá ser feito para salvar a nós mulheres enquanto depender de nós a denúncia e a representação de um crime que deveria, sim, ser tratado pela lei enquanto tortura e sequestro. O que de fato é. Hoje, no Brasil, se alguém denunciar que há uma mala de dinheiro de corrupção dentro de um apartamento, rapidamente um mandado autorizará que a polícia invada o local. Uma denúncia anônima de violência doméstica, no entanto, não provoca o mesmo efeito. Mas essa já é outra história. Para finalizar a primeira, meu desejo, é que toda a mulher seja capaz de ouvir outras mulheres. Não hesitem em se abraçar. É possível. É bem provável que bem perto de você aja outra mulher sofrendo calada e precisando de ajuda. Ligue 180 e faça uma, duas, cem denúncias, mesmo que de forma anônima. Chame a polícia, mesma que pareça “não adiantar de nada”. Acredite: ainda que o homem não seja preso de imediato, ele saberá que está sendo monitorado. E isso salva vidas.

Mercado de trabalho

O setor de supermercado é o que mais emprega mulheres em Uberaba. A informação é da matemática Juliana Zanini, 39 anos. Ela é formada em gestão de pessoas e tem um papel de destaque na Associação Comercial, Industrial e de Serviços de Uberaba (ACIU). Juliana conta que a cada 10 pessoas atendidas por ela no último ano, 4 são mulheres. As atividades de Juliana vão desde seleção de currículo e treinamento até apoio nas contratações. “O setor de atendimento e auxiliar de açougue, por exemplo, carece de mão-de-obra. E é um segmento onde, conforme percebo, a pessoa que se destaca logo consegue uma promoção”, diz. Dia 28, às 19h30, Juliana realiza na ACIU uma atividade aberta ao público. Trata-se da 1ª Mostra de Desenvolvimento de Competências indicada para quem quer se preparar melhor para uma vaga. A entrada é uma caixa de leite. Os donativos serão destinados ao Sanatório Espírita de Uberaba.

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