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MULHERIO

Juba Maria

Ninguém gosta
A uma escrivã afirmei uma vez por que não era verdade aquilo que ela acabara de me dizer. Em resposta, ela mexeu a cabeça como quem tenta encostar a orelha no ombro enquanto digitava rapidamente uma representação. No minuto anterior, a mulher me afirmara categoricamente: “Tem mulher que gosta de apanhar”. Bom, dito isso, a boa notícia é que nem todos pensam como ela. Na última quarta, 28, a Câmara dos Deputados aprovou quatro projetos que reforçam o combate à violência contra a mulher. O primeiro deles agrava a pena de feminicídio em 1/3 do tempo para quem matar a mulher descumprindo a medida protetiva já declarada. O segundo, pune o registro e a divulgação da intimidade sexual. Por fim, o último autoriza gestantes e mães de pessoas com deficiência que estejam em prisão preventiva a passar para o regime domiciliar. Os projetos seguem para sanção presidencial. No último 2/10 o presidente Michel Temer aprovou outra medida favorável às mulheres. Trata-se da Lei 13.721 que dá prioridade à realização do exame de corpo de delito quando se tratar de crime que envolva violência doméstica e familiar contra a mulher ou violência contra a criança, adolescente, idoso ou pessoa com deficiência. Isso porque há casos em que a mulher agredida é atendida por agendamento, prejudicando o exame. Precisamos seguir avançando, pois a violência contra a mulher não escolhe lado. Pode ocorrer com qualquer uma de nós. A deputada Marília Campos (PT/MG) é presidente da Comissão de Mulheres da Assembleia de Minas e comemorou a aprovação dos projetos. “Com muita luta vamos estruturando as políticas de proteção que podem salvar vidas”, disse.

Em Uberaba
O estado de civilização precisa avançar mesmo em tempos sombrios – onde a expressão debater faz ainda mais sentido enquanto prática de resistência. Sem medo de seguir em frente e lutar. O silêncio só faria aumentar ainda mais o número de mulheres assassinadas. Por essas e outras é que continua a todo vapor a programação da Campanha do Laço Branco no Centro Integrado da Mulher (CIM) em Uberaba. Dia 4/12, às 14h, tem a segunda edição da oficina Costurando Sonhos, na Rua Luiz Próspero, 242. Dia 5/12 ocorre o debate Desafios na Aplicação da Lei Maria da Penha com a presença da delegada Carla Garcia Bueno da Cunha, da Oficiala do Ministério Público de Minas Gerais, Francine Moura Limírio, da gerente do CIM, Juciara Moura Limírio e da advogada Núbia Martins da Costa. No dia 6/12 será a vez dos homens assinarem um termo de compromisso pela causa. A panfletagem será feita às 15h na área do entorno das delegacias, no Parque das Américas. De algum modo é preciso contribuir pela paz, sem medo de errar. Vamos juntas, de mãos dadas.

Exemplo
Na segunda, 26, o prefeito de Uberlândia, Odelmo Leão, sancionou a Lei 13.011 que institui no calendário municipal da Semana de Conscientização e Combate ao Feminicídio. Ela ocorrerá na cidade, anualmente, na semana de 1 a 8 de março. O objetivo é conscientizar a população sobre os direitos humanos das mulheres e combater o feminicídio. O projeto é da vereadora Jussara Matsuda (PSB/MG). Que sirva de exemplo para os vereadores daqui. Pode-se até mesmo rivalizar com a cidade vizinha – como é do feitio local – mas quando se trata de causas nobres, que os bons exemplos sirvam de guia. A disputa entre suas cidades por protagonismo deve parar no seu ponto de contato: a promoção da paz.

Mulheres unidas
Na Assembléia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) já começaram as reuniões preparatórias para a organização das ações do 8 de março com a presença das deputadas eleitas Marília Campos (PT/MG), Ana Paula Siqueira (Rede Sustentabilidade/MG) e Laura Serrano (Novo/MG). A proposta é que o Dia Internacional da Mulher não seja uma data de “entrega de rosas”, mas de acolhimento das demandas das mulheres de Minas Gerais por representação. O próximo encontro acontece na terça, 4/12, às 9h30. Uma amiga minha disse que a única pauta capaz de unir novamente o Brasil é o combate ao abuso infantil e à violência contra a mulher. Concordei. Sinto que as nossas deputadas na ALMG são prova disso.

Mulheres negras
Uberaba recebeu, durante a programação da Consciência Negra, duas intelectuais e ativistas de tirar o fôlego. Uma delas, a doutora em ciências sociais Tatiane Pereira de Souza, paulista de 32 anos, que descobriu no estudo a principal arma de libertação. Tatiane mora em Araraquara e esteve na Igreja São José Operário onde falou sobre educação e resistência afro-brasileira. “Sou uma pessoa cristã que se valeu da sua fé em Deus para transformar a própria vida”, disse. “Eu sempre tive o sonho de estudar, mas quando você nasce mulher, negra e pobre no Brasil raramente você tem oportunidade de estudo. Com o passar do tempo fui crescendo e observando que boa parte das minhas primas e até mesmo minha avó, minha mãe, tinham apenas duas opções na vida: trabalhar como empregada doméstica e, quando tinham sorte, casar com alguém. Nada contra esse trabalho, mas eu não queria nem uma coisa nem a outra”, disse. Tatiane conta que viu suas primas desenvolvendo uma série de doenças por conta desse trabalho. Outro destaque da participação das mulheres negras na programação da cidade foi a brilhante palestra da historiadora Taina Aparecida Silva Santos, formada pela Unicamp. Ela esteve na Universidade Federal do Triângulo Mineiro, onde falou sobre sua experiência na luta pela democratização do ensino público por meio da política de cotas e combate ao racismo. Taina fez parte da luta pela implementação das cotas da Unicamp em um contexto político que, segundo ela, não foi nada favorável. Ao público, a historiadora contou com paixão nos olhos como tudo ocorreu. “Em 2016 aconteceu algo inédito na história da Unicamp quando a universidade parou com a eclosão de uma greve estudantil. Estávamos ali para denunciar o racismo e reivindicar a implementação das cotas raciais e a ampliação das políticas de permanência estudantil”, contou. A Unicamp tem histórico de práticas racistas. O caso mais recente envolveu a pichação de muros, banheiros, mesas e telas de computadores com frases racistas, e apologia ao nazismo e à supremacia branca.

Groove de Bamba
Para contrapor tanto ódio, a banda autoral Groove de Bamba toca hoje, sábado, na Casa di Giulietta. Com canções influenciadas pela Soul Music Nacional e uma sonoridade moderna, o destaque fica por conta da voz potente de Nara Dom, além de muita referência ao samba, dub, rock e hip-hop. A banda é formada ainda por Fabiola Ognibeni (guitarra e voz), Cacau Dourado (baixo) e Vinicius Suzuki (bateria). Corre lá porque “só espero te encontrar”.

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