ColunasLuiz Hozumi - Cultura

NOS BASTIDORES DA ARTE E PELA ARTE

Prosa, cidade e arte com o produtor cultural Tonico Carvalho

Tonico Carvalho conhecido em todo país no circuito de produção cultural
Com Milton Nascimento em uma de suas últimas apresentações na cidade

O FAZER DA
PRODUÇÃO CULTURAL

Nem tudo é glamour, nem tudo são festas, ainda assim, nem tudo é lamento, nos bastidores dos eventos culturais há uma mistura de realização com muito trabalho, em alguns momentos extremamente estressantes e de dificuldades de todos os tipos, desde as financeiras até as mais complexas brigas de egos dos artistas, mas que ao final, ou quase nele, pois não podemos esquecer as pós-produções, há sempre algo a ser comemorado, se não de forma festiva, pelo menos em mais páginas para o grande livro das experiências. O que o público vê pode ser realmente comparado com a pontinha do iceberg, pois o grande corpo fica mesmo fora dos holofotes, e mesmo sendo um enorme trabalho coletivo e de equipe, está entrelaçado com o protagonismo e a essencialidade do produtor cultural. Os contatos, as propostas, os projetos, até mesmo a criação podem partir da iniciativa do produtor, além é claro do enorme trabalho de logística, de levar a arte até o público, as intricadas relações políticas, com patrocinadores, apoiadores, espaços, órgãos públicos, privados, de regulamentação e tantas outras incontáveis burocracias e necessidades de um evento cultural. O produtor é um fazedor da cultura, que coloca nas costas a difícil missão de ser a ponte entre o que é feito até quem o recebe, seja pelas poltronas confortáveis do teatro, até grandes arenas ou mesmo nas ruas, praças, casas. O produtor cultural Tonico Carvalho faz este trabalho em Uberaba praticamente sua vida toda e é com ele o Prosa, Cidade e Arte desta edição.

A VIDA CONTADA
PELOS PALCOS

Antônio de Souza Rego Carvalho Neto, morava no alto do Boa Vista, no final da avenida Fidélis Reis, na época ainda deserta e com grandes terrenos, eram ali, na sua vizinhança, que se instalavam os grandes circos que passavam pela cidade. Curioso e encantado com as caravanas dos circenses, o ainda menino Tonico Carvalho estava sempre por perto e dessa forma começou sua vida cultural. Ajudava na montagem, subindo lona, cuidando dos animais, colando lambe-lambes pela cidade, vendendo balas e refrigerantes pela plateia, tudo para estar dentro do mundo mágico do circo. Logo iria descobrir um universo todo de artes do qual não se desprendeu nunca. Presenciou grandes shows que aconteciam no picadeiro, sem casas específicas na cidade Mazzaropi, Tião Carrero e Pardinho, Trio Parada Dura, Zilo e Zalo e vários outros artistas se apresentavam debaixo das lonas. Após a fase dos circos, descendo o morro parou no centro da cidade, engraxava sapatos no extinto Grande Hotel. O fascínio pelas artes se manteve com o contato com artistas que se hospedavam lá. Inquieto e com sua experiência circense, ajudava nas produções do também extinto Cine Metrópole, descarregava caminhões de equipamentos, ajudava na portaria, no camarim, no palco. Ali conheceu os maiores empresários do país na época, Manoel Poladian foi um deles, com quem depois realizou grandes eventos na cidade. Já mais velho entrou para o circuito universitário, uma grande competição cultural entre centros acadêmicos que produziam shows diversos na cidade, algo comparado com as festas universitárias de hoje, diferente apenas no foco, essencialmente artístico antes e indiscriminadamente alcoólico atualmente. Um dos grandes motivos para Tonico ter saído desse ramo, as festas começaram a ter como convidadas especiais as bebidas e as drogas, o que não era seu objetivo. Partiu assim para o teatro, ramo que atua fortemente até hoje. A ideia sempre foi mostrar a arte, pura e simplesmente, mas não deixou de lado os shows, muito menos sua formação acadêmica, é jornalista e publicitário e uniu o melhor de cada área aproveitando os conhecimentos para contribuir nas artes. Os clientes da comunicação encontram através de suas produções uma forma de alcance de suas marcas muito diferente das mídias tradicionais. Tonico Carvalho tem sua vida, seu histórico pessoal e profissional contado pelos palcos, desde que se entende por pessoa a arte corre por sua vida e se encontra nela das diversas formas para que nós, enquanto público, também nos encontremos.

Ao lado de Caetano Veloso com sua filha Karen no colo dele

DA GRANDEZA ÀS
DIFICULDADES DA
PRODUÇÃO

Já chegou a fazer quatro shows por mês em Uberaba, praticamente um por final de semana, nomes como Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Vanderleia, Toquinho, Simone, Zé Ramalho, Betânia, Gal Costa, Secos e Molhados, Os Mutantes, Lulu Santos, Legião Urbana, Raul Seixas, Paralamas do Sucesso, Titãs, Engenheiros do Hawaii, Nenhum de Nós, Milton Nascimento, Caetano Veloso entre tantos outros da música. No teatro Fernanda Montenegro, Beatriz Segal, Chico Anísio, Francisco Cuoco, Rogerio Cardoso, Eva Wilma, Vera Fischer, e inúmeros ícones das artes cênicas com espetáculos memoráveis. Já foi muito mais fácil produzir na cidade, em tempos não tão distantes, Uberaba era polo econômico e cultural da região. O aeroporto tinha vários voos das capitais, os patrocinadores como CTBC, hoje Algar, e Coca-Cola investiam na cidade. Hoje, as indústrias instaladas aqui não apoiam, não há valorização, não tem incentivo e nem políticas públicas, os voos só chegam até Uberlândia. Inviabiliza muito, para quem se considera um operário da cultura, Tonico conta que o único patrocinador efetivo é o Balbec e que a cidade foi deixada de lado. A máxima que dizem que em uma cidade que não tem cultura é a violência que vira espetáculo tem se perpetrado na terra do zebu, que um dia já foi a terra da arte.

Guardada em porta retrato sua foto em trabalho com o rei Roberto Carlos

MOLDE E ESPELHO –
O REFLEXO DA
CULTURA NA VIDA

Vivendo da arte a vida toda, Tonico considera que sua própria vida é o que tem de mais artístico, mesmo não se considerando uma pessoa culta, diz ser um profissional, técnico e especialista da área. Sua vida o levou a fazer isso foi moldado pela arte e através dela aprendeu a viver e a sobreviver. Não tem planos para o futuro, espera trabalhar até morrer. Também não acredita que alguém na cidade ocupe sua função, sabe que é muito conhecido, mas pouco valorizado. Pensa em se aposentar todos os anos, da mesma forma que pensa em continuar, sempre com cautela esperando que as coisas ainda melhorem. A esperança, ao menos para quem vive da arte, é necessidade diária. Tão necessária quanto nossa reverência e aplausos pela dedicação, pelo entusiasmo, pela construção de um fazer artístico em Uberaba. Tonico Carvalho é exemplo, um reflexo de cultura na vida, na minha, na sua e de qualquer pessoa que entenda e valoriza a importância da cultura no dia-a-dia. Me resta agradecer, espero que a cidade faça o mesmo.

Mais atual com Eduardo Sterblischt
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