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Agronegócio

Embrapa divulga estudo sobre tendências e novos desafios do agro com a Covid-19

O fechamento generalizado de restaurantes, hotéis e outros estabelecimentos tumultuou os sistemas alimentares

06/05/2020 05h00
Por: Redação
Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

O surto da Covid-19 no mundo, em especial na China e no Brasil, trará

riscos e oportunidades em um futuro próximo. Para 2020, além da

explosão da pandemia da Covid-19, persistirão a influência da peste

suína africana (PSA) na China e a disputa comercial EUA-China. A

expectativa é positiva para o setor de proteína animal brasileira, com

previsões de aumento nas exportações de carne suína para a China e

forte demanda do mercado internacional. Por outro lado, para o setor de

soja, qualquer recuperação nas receitas em 2020 é incerta, dependendo

não apenas da evolução da PSA que vem dizimando milhares de animais

no país asiático, mas também das relações comerciais EUA-China.

 

  O surto da epidemia da Covid-19 veio se somar aos condicionantes

anteriores, passando a constituir-se em um terceiro e importante desafio

ao agronegócio brasileiro. Antes do surto, as estimativas eram por um

PIB Global de 2,3%. Agora se estima uma queda em até -2,5%. Uma

contração mais profunda do que a crise global de 2008.

 

  As informações são da Secretaria de Inteligência e Relações

Estratégicas da Embrapa (SIRE) que acaba de publicar o estudo

"Agronegócio em tempos de Covid-19: desafios para o Brasil e a China",

 elaborado pelo pesquisador Mário Seixas Alves, do departamento de

Análises e Estudos Estratégicos.

 

  A publicação tem como subsídio os dados publicados por agências

internacionais que atuam com foco em agronegócio e em serviços de

alimentação: RaboResearch, Food & Agribusiness, departamento

vinculado ao Rabobank, instituição líder em serviços de

financiamento para alimentação, agronegócio e sustentabilidade;

FitchSolutions, pertencente à agência de risco Fitch Rating

Inc, bem como pela The Economist Intelligence Unit Limited

(EIU) e pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (CEPEA),

 da ESALQ/USP.

 

  "O Brasil enfrenta o desafio de lidar com a ameaça que a pandemia da

Covid-19 representa para a saúde de seus cidadãos e para a economia do

país. Como principal exportador mundial de vários produtos agrícolas,

o país exerce uma liderança reconhecida nos mercados globais de

commodities agrícolas", reconhece o relatório da RaboResearch, Food &

Agribusiness.

 

  Em termos globais, embora haja riscos crescentes de interrupções nas

cadeias de fornecimento de alimentos, assim como de protecionismo

alimentar, por parte de alguns países, estimam-se poucas mudanças na

produção mundial. Isso porque a produção agrícola foi relativamente

isolada da disseminação da Covid-19 e das medidas de restrições de

movimentos de pessoas e de bens entre e intra-países, e regiões.

"Evidências sugerem que houve uma interrupção relativamente limitada

no setor agrícola, especialmente na produção de grãos e carnes",

afirma o relatório da agência FitchSolutions.

 

  Por outro lado, o fechamento generalizado de restaurantes, hotéis e

outros estabelecimentos devido à pandemia de coronavírus, tumultuou os

sistemas alimentares dos dois países em foco: Brasil e China. No

Brasil, a determinação de fechamentos de restaurantes, lanchonetes e

outros serviços de fornecimento de alimentos diretos à população, em

resposta à disseminação da Covid-19 por todo o país, reduziu a

atividade de serviços de alimentação, limitando os alimentos fora de

casa a apenas pedidos de entrega em domicílio, por um período ainda

não determinado.

 

  "Com grande parte da população brasileira permanecendo em casa, pelo

período de isolamento social necessário para conter, ou minimizar, a

contaminação pela Covid-19, a demanda por itens de consumo doméstico

aumentou repentinamente e a disponibilidade de alimentos no canal de

varejo se tornou uma preocupação para consumidores, processadores de

alimentos e varejistas", detalha Mário Seixas.

 

  Sobre a produção brasileira de commodities, segundo Seixas, embora o

comércio global de alimentos dê a impressão de normalidade, em meio

à forte demanda de importações para a China ocorridas em março e

abril, as agências internacionais demonstram em seus relatórios

analíticos preocupação com possíveis interrupções na cadeia de

suprimentos em decorrência das medidas de contenção da Covid-19.

 

  "O fechamento de fronteiras ou as restrições de movimentos em

determinados países, como é o caso da Argentina, pode afetar o

escoamento da produção em portos para exportação", exemplifica

Seixas.

 

  Ele acrescenta que os gargalos que podem impactar a entrega de

suprimentos pelos países da América do Sul para o continente asiático

podem incluir problemas com transportes terrestres, portos, restrições

à circulação de mercadorias, fechamento de ativos e disponibilidade

de trabalhadores.

 

  Seixas cita alguns pontos identificados pela agência _RaboResearch,

Food & Agribusiness_ como possíveis impeditivos para o escoamento da

produção para a China, tanto por países da América do Sul quanto

pelos Estados Unidos: a maioria das exportações de soja e farinha da

Argentina ocorre em uma pequena área perto da cidade de Rosário, que

encontra-se em quarentena; o Brasil envia a maior parte de sua soja,

milho e algodão pelo porto de Santos, que tem operado normalmente até

agora, apesar do medo de contágio pelos trabalhadores portuários; e os

Estados Unidos que enviam grande parte de sua safra de milho e soja a

partir de duas regiões portuárias concentradas no Pacífico e em Nova

Orleans.

 

  MERCADO DE CARNE SUÍNA

 

  Por outro lado, de acordo com o estudo em questão, haverá um aumento

de exportações de carne suína para a China em torno de 40% em

relação ao ano passado e isso deverá se manter até o ano de 2021,

cenário no qual o Brasil terá grandes oportunidades de exportação

para o continente asiático.

 

  Já com relação às exportações para a China de carne bovina, as

agências internacionais estimam que haja um crescimento de

importações do produto dos Estados Unidos e não do Brasil, tendo em

vista a questão da sustentabilidade ambiental.

 

  Mas o Brasil já vem se antecipando a este cenário: "a iniciativa da

Associação Brasileira de Produtores de Carne Carbono-Neutro foi criada

para desenvolver a oferta e a demanda por carne bovina neutra em carbono

e isso deverá repercutir lá na frente", afirma o especialista da

Embrapa em estudos estratégicos.

 

  Também deve-se considerar neste cenário mundial a redução do poder

aquisitivo da população. Como já vem acontecendo no Brasil, onde o

mercado interno é responsável por cerca de 75% do consumo de carne

bovina. "E o mercado exterior, retraído pela pandemia, já praticava

preços inferiores desde o inicio deste ano", ressalta Seixas. Ele

esclarece também que em relação às propriedades dedicadas à

avicultura e suinocultura, todas as instalações permanecem em

funcionamento no Brasil.

 

  Outro dado interessante é sobre a produção de açúcar e álcool no

Brasil. A redução do preço do petróleo no mercado internacional

provocou também a queda do valor do combustível nos postos de gasolina

e afetou a competitividade do etanol brasileiro. "Muitas usinas já

estão doando etanol ao sistema público de saúde para a produção de

álcool em gel e álcool a 70%, usados na desinfecção, devido ao

excesso de produção. As usinas reprogramam-se para acelerar a

produção de açúcar, em detrimento do etanol", ressalta Seixas.

 

  O MERCADO CHINÊS DE GRÃOS

 

  De acordo com dados da agência internacional Rabobank, a China é

autossuficiente em todos os principais grãos para alimentação humana,

incluindo trigo, milho e arroz. "A importação de grãos para consumo

humano representa apenas uma pequena parcela do consumo doméstico, na

faixa de 1% a 3%. Além disso, a China possui grandes quantidades de

estoque desses grãos, sob responsabilidade estatal", explica Seixas.

 

  Por outro lado, a China tem uma alta dependência de importação da

soja. "A soja importada, a maioria proveniente do Brasil, EUA e

Argentina, responde por 85% do consumo doméstico", ressalta Seixas. "E

de acordo com os dados destacados pelas agências internacionais, o

mercado está extremamente preocupado com o fato de a logística interna

e as operações portuárias poderem ser prejudicadas nesses principais

países exportadores, especialmente no Brasil e na Argentina, o que

poderia causar interrupções de fornecimento de curto prazo no mercado

internacional", complementa o pesquisador.

 

  Mas o impacto da Covid-19 nas culturas de grãos e oleaginosas no

Brasil é visto pelos especialistas das agências internacionais como

limitado. Março foi o mês mais intenso da colheita de grãos de

primeira safra, e início de preparo para a segunda safra. As

operações de campo estão agora focadas na pulverização de

proteção das culturas, e essas operações estão sendo realizadas por

empregados que vivem na própria propriedade. Portanto, por enquanto, os

problemas climáticos são vistos como o principal risco para a

produção.

 

  Por outro lado, a expectativa de ganhos é grande pelos produtores, com

valores nominais recordes para a soja, devido à forte desvalorização

do Real, em relação ao dólar americano. Por esse motivo, os

produtores estão acelerando as negociações e vendas da soja no

mercado externo, em comparação com os anos anteriores.

 

  CHINA: MUDANÇAS NO COMPORTAMENTO DO CONSUMIDOR

 

  De acordo com a _RaboResearch, Food & Agribusiness_, ainda não há uma

previsão de final para o surto na China, Por isso, alterações

profundas já podem ser observadas no comportamento do consumidor e

pelas novas regulamentações criadas pelo governo chinês.

 

  O governo chinês também tem sugerido que as indústrias processadoras

de alimentos invistam em processos de inovação e automação,

aprofundando a parceria com indústrias de tecnologias para acelerar,

por exemplo, a automação de entregas com o uso de robôs ou drones,

reduzindo assim os riscos de escassez ou custos de mão de obra.

"Portanto, a tendência é o aumento do comércio eletrônico, com

pesado investimento eu automação para a garantia do fornecimento de

alimentos para a população", diz Seixas.

 

  "Multinacionais hoje instaladas na China também já começam a se

planejar ou a considerar a possibilidade de realocarem suas capacidades

de fabricação para fora daquele País", ressalta o pesquisador da

Embrapa.

 

  Conheça o estudo completo sobre as tendências do agro com a Covid-19

acessando aqui. 

 

  O trabalho publicado faz parte da Série Diálogos Estratégicos -

Mercados Internacionais e integra o Sistema Agropensa [9] - Sistema de

Inteligência Estratégica da Embrapa dedicado a produzir e difundir

conhecimentos e informações em apoio à formulação de estratégias

de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) para a própria Empresa

e instituições parceiras.

 

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