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Coronavírus e a Indústria Automobilística: o que mudou nas duas últimas semanas

Abril fechou com emplacamentos de 51,4 mil unidades, 67% a menos do que o mês anterior

07/05/2020 05h00
Por: Redação

No mar revolto em que se transformou o mercado global da

indústria automobilística, a palavra "previsão" parece ser proibida.

Ter informações robustas sobre o futuro do setor no Brasil é a

diferença entre a decisão alinhada ao momento e ajustes cujas

consequências poderão custar milhões de reais às empresas. É

determinante ter o domínio de informações sobre o comportamento do

mercado, com o objetivo de orientar os gestores do setor, uma vez que o

planejamento das empresas no retorno às atividades tem por base as

decisões de curto e de médio prazos.

 

São apenas 15 dias desde a última publicação, mas algumas mudanças

são significativas: enquanto a grande maioria do mercado acreditava em

uma queda de até 90% nas vendas de veículos leves de abril em

relação a março e que o fim dos tempos estava próximo, prevíamos

uma venda de 43 mil unidades, já que a participação de São Paulo era

insignificante devido à queda dos licenciamentos como consequência do

fechamento do Detran no estado.

 

Abril fechou com emplacamentos de 51,4 mil unidades, 67% a menos do que

o mês anterior, devido às incertezas com relação à pandemia e aos

efeitos do "lockdown" parcial nos principais centros do país.

Acredita-se que aproximadamente 15 mil veículos já vendidos deixaram

de ser licenciados, majoritariamente em São Paulo, volume este que

deverá ser computado às vendas de maio.

 

Apesar de nossas previsões considerarem expectativas econômicas (as

quais neste momento carregam grande parcela do imponderável), nossa

metodologia ancora os números na evolução de alguns segmentos e na

redução das vendas corporativas, ou seja, o peso de vendas a locadoras

deverá diminuir enquanto o peso das vendas PCD deverá aumentar.

Nossa previsão de vendas e produção para o mercado de veículos leves

está detalhada no quadro abaixo e foi ajustada à extensão do

isolamento decretada em vários estados após 15 de abril: Com isso,

nossa previsão para o 2º trimestre do ano reflete, agora, vendas de

295,4 mil unidades - uma queda de 45% em relação ao primeiro trimestre

de 2020.

 

O QUE NOS AGUARDA APÓS O ISOLAMENTO

Países inteiros tiveram sua mobilidade restringida, mas os efeitos da

crise que irão perdurar após a volta da livre circulação das pessoas

e veículos farão parte da gestão diária dos executivos do setor

automotivo por longo tempo. As consequências na indústria

automobilística serão multifacetadas e permanentes, a ponto de a

reorganização do setor ser uma nova história a ser contada.

No entanto, é necessário pensar na nova configuração do mundo

pós-pandemia, que está diretamente relacionada à forma como os

mercados e as atividades comerciais irão se reestabelecer no "novo

normal".

 

Continuará a indústria automotiva a ser um polo de desenvolvimento no

mundo e quais as consequências para o Brasil? Como ficarão as

empresas, os empregos em toda a cadeia de valor, os investimentos e a

regulação relacionada à segurança, emissões e eficiência

energética? Qual será a vontade política para continuar limitando as

emissões de gases de efeito estufa a fim de mitigar o aquecimento

global?

 

Os governos federal e estaduais vieram em socorro ao mercado estendendo

prazos de pagamento de tributos. As negociações entre empresas e

empregados evoluíram. Porém, as negociações relacionadas a capital

de giro entre montadoras e bancos continuavam na pauta ao final de

abril. Pagamentos em toda a cadeia continuam escassos impactando,

principalmente, as pequenas e médias empresas tanto no fornecimento de

componentes quanto de distribuição.

 

Vagamente, começam a ser sinalizados novos produtos e novos prazos de

lançamento, ajustados a esta nova realidade mais lenta e de menor

volume. Como um sinal dessa mudança, diminuíram muito as campanhas

publicitárias em TV, refletindo os novos tempos de contas mais enxutas.

 

RISCOS E CONSEQUÊNCIAS

 

* INVIABILIZAÇÃO DAS PEQUENAS E MÉDIAS EMPRESAS - O temor pela

sobrevivência das PME's aumentou consideravelmente nas últimas 2

semanas, uma vez que o fundo de caixa restante está se acabando. Os

bancos receiam socorrer empresas que podem quebrar, o que se traduz em

aprovações morosas e taxas mais altas - tudo o que o mercado não

precisa.

 

* POSTERGAÇÃO DAS COMPRAS DE VEÍCULOS - A segurança necessária para

a compra de um veículo novo evaporou, tanto pela descapitalização das

famílias quanto pela menor utilização dos mesmos. "Compre agora e

pague no ano que vem" tem sido o mote mais frequente das ofertas.

Veículos usados, transformados em caixa para pagar despesas, viram seus

preços despencarem. As montadoras retardaram seu reinício de

operações e trabalharão a venda dos estoques existentes, sem

loucuras. Já não se encontram mais exemplos de taxa zero.

 

* DESEMPREGO - O Programa Emergencial de Manutenção de Emprego e Renda

(MP-936/2020) está permitindo que uma parcela do emprego seja protegida

com demissão proporcionalmente menor que a redução dos negócios. As

demissões ocorrem agora em maio por toda a cadeia e serão informadas

nos noticiários. Mantemos sua previsão com a redução de

aproximadamente 10 mil empregos nas montadoras e de 20 mil posições

nas autopeças.

 

* REDE DE DISTRIBUIÇÃO - De acordo com a Fenabrave, aproximadamente

30% das concessionárias não suportarão passar o mês de maio

fechadas. As montadoras e seus bancos vinculados concederam o auxílio

que era possível, mas que não resolve o problema. A ajuda

governamental na forma de postergação de impostos e oferta de capital

de giro deve ser prioridade. Decisões tomadas em abril e implementadas

em maio irão separar as empresas que continuam daquelas que ficam pelo

caminho.

 

* METAS REGULATÓRIAS - Espera-se que haja, por parte do governo,

flexibilização na qualificação das montadoras às regulações de

eficiência energética e segurança do programa Rota 2030 e de

emissões PL7 e PL8 do Proconve. Achatar a curva das metas para evitar

aumento de custos em um momento futuro de recuperação do mercado

parece ser razoável. Postergar obrigações regulatórias por até 3

anos como ventilado em abril traria prejuízos imensos tanto à saúde

pública quanto à economia.

 

* MUDANÇA NO PERFIL DA VENDA - As regras de isolamento causaram grande

impacto na mobilidade de pessoas e veículos, o que abalou pesadamente o

negócio das locadoras cujo business estava alavancado pelos serviços

de mobilidade sob demanda. A consequência foi a devolução em massa de

veículos aos pátios das locadoras, que irão acelerar as ações de

redução de estoque e queda nos preços dos usados. Mostramos como as

locadoras participarão menos nas vendas da indústria em 2020.

 

* PRESSÃO DE PREÇOS NOS VEÍCULOS “0 KM”- A pressão de preços

dos usados vai reverberar nos veículos zero em um momento em que as

montadoras necessitam repassar em torno de 12% de aumento de preço

devido à desvalorização do Dólar, base para commodities e conteúdo

importado dos veículos. Mesmo com a lógica da crise nos direcionando a

pensar que os consumidores irão procurar veículos de entrada,

entendemos que o perfil de compra no Brasil de hoje é completamente

diferente daquele de 2013/2014. Em um mercado no qual a venda à pessoa

física representou 1,2 milhão de veículos, o perfil do comprador de

SUV e com "dinheiro na mão" deverá prevalecer.

 

* GLOBALIZAÇÃO EM XEQUE - O mundo tem assistido a ações

protecionistas de países como Japão, Alemanha e USA que estão

patrocinando o retorno de empresas instaladas na Ásia a seus

territórios. No caso do Brasil, a atual desvalorização do Real abre

oportunidades reais e necessárias à localização de componentes

desviados em passado recente principalmente à China e ao México devido

à falta de competitividade da indústria local.

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