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José Moreira Filho

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Reflexões

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21/05/2020 05h00
Por: Redação

 DOIS MUNDOS

 

Nós, que hoje já passamos dos cinquenta, podemos nos considerar privilegiados, pois conhecemos dois mundos.  O mundo do saudosismo, que alimenta nossa alma de lembranças agradáveis, de recordações nutridas de erros quase sempre inofensivos, de maldades ingênuas e de liberdade, matéria prima para sonhos pessoais e originais. E o mundo hodierno, o mundo real em que vivemos a nossa concretude. Mundo esse de aparente liberdade, principalmente no Brasil, pois na verdade vivemos a maior das ditaduras, a ditadura das mentes, quando a vontade alheia acaba sobrepujando a nossa. Por não querer ser chato, passar por ignorante ou desagradável, aceitamos seguir o que nos impõem.

Diz Leandro Karnal que vivemos numa gaiola dourada, brilhante e agradável, que nos transforma em canários impotentes, incapazes de perseguir um sonho próprio, seguindo sonhos alheios.  Ainda interpretando Karnal quando em palestra explica Étienne de La Boétie: “eu cresço, eu deixei de ser criança, estabeleci minha liberdade, cheguei a minha autonomia, fui emancipado. Enfim, vou trocar o pai que abandonei pelo patrão, a mãe pela mulher e os amigos de infância por filhos. Este é o fruto de nossa liberdade.” Naquele nosso mundo brincávamos à noite na rua, ainda de terra, até sermos gritados pela nossa mãe anunciando a hora de dormir, agora nesse mundo que acreditamos ser livres e ter nossas próprias escolhas, somos prisioneiros de circunstâncias. De fato, não escolhemos nada, somos escolhidos. Somos vendedores ambulantes das grandes empresas anunciando gratuitamente o último aparelho eletrônico, quando trocamos nosso celular que é exibido aos amigos.

Isso acontece porque, culturalmente, estamos nos tornando dependentes do consumismo. Assistimos, por exemplo, jovens passar a noite em longas filas à espera da sua vez para adquirir uma novidade, talvez um aparelho de última geração na área da telefonia. Troca-se o consumo, que é necessário para a sobrevivência, pelo consumismo que é patológico. Que é doença e até já tem nome – oneomania. Por incrível que pareça, isso está coerente com nossa sociedade, que privilegia o ter em detrimento do ser. Nossa suposta liberdade é uma quimera. Voluntariamente colocamos nossa intimidade a público ao digitar informações numa telinha manual.  Os maiores ditadores da história nunca tiveram informações sobre os cidadãos, que têm hoje as centrais de inteligência dos governos. Liberdade vigiada é o que temos, pois estamos presos atrás das grades de nossa própria casa. São câmeras, chamadas de segurança, e celulares, que por causa da pandemia, estão usando para saber a localização dos cidadãos.

Não é à toa que muitos de nós sessentões suspiramos: éramos felizes e não sabíamos. Hoje, o modo de sociedade está nitidamente polarizado entre o “ter” e o “ser”. Com grande predominância do primeiro sobre o segundo. Isso, em virtude do modelo de produção adotado pela maioria dos povos. Consumir é a palavra de ordem. Propagada, ilustrada, estimulada e assimilada. Tanto que em nossas conversas, usamos muito mais o verbo ter do que o ser. De manhã – tenho muito que fazer hoje. No trabalho – tenho que terminar esse relatório. No médico – Dr., eu tenho um problema, tenho insônia, tenho uma dor, tenho isso e aquilo. Incorporamos a palavra e a ideia do possuir, e o marketing, inteligentemente, aproveita-se disso para nos fazer pensar que precisamos, que temos necessidade de tal produto. O “ter” representa poder. Quem tem, pode! E quem pode é feliz. Mas essa presunção é falaciosa, pois o que se tem, pode-se perder, enquanto o “ser” está centrado na pessoa humana, nos valores éticos e nas virtudes, que uma vez solidificados jamais se perdem. 

                             José Moreira Filho

                                                 [email protected]

                                                    ARLS Salim Bittar

                      Or.´. de Ituiutaba-MG

 

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