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Entrevista

Cresce busca espontânea por acolhimento na Seds por pessoas em situação de rua

Há alguns meses o antigo albergue municipal foi desativado dando espaço para o surgimento de um novo modelo de abrigamento para o migrante itinerante

31/05/2020 05h00
Por: Redação
Secretário Marco Túlio Cury, diz que não é contra a esmola, mas que a intenção é garantir o cuidado multiprofissional a este público - Foto: Neto Talmeli
Secretário Marco Túlio Cury, diz que não é contra a esmola, mas que a intenção é garantir o cuidado multiprofissional a este público - Foto: Neto Talmeli

Coronavírus, frio. Situações que fazem aumentar a preocupação da comunidade solidária com as pessoas que vivem em situação de rua em Uberaba. O secretário municipal de Desenvolvimento Social (Seds), Marco Túlio Cury, tranquiliza e orienta a população durante entrevista ao JORNAL DE UBERABA. Destaca que estas pessoas recebem atenção específica e especial rotineiramente. Conta que não é fácil convence-las à aceitarem o acolhimento oficial e orienta a população a ajudar de forma criteriosa, para além de comida e agasalho também para o acolhimento e acompanhamento multiprofissional. Conforme Túlio, neste período de pandemia a Seds tem observado certa mudança positiva de comportamento das pessoas que vivem nas ruas tendo aumentado o número delas em busca espontânea de institucionalização. 

Há alguns meses o antigo albergue municipal foi desativado dando espaço para o surgimento de um novo modelo de abrigamento para o migrante itinerante: a Casa de Passagem e para as pessoas em situação de rua foi firmado termo de parceria com instituições a  fim de acomodar, oferecer tratamento, atendimento digno, acolhimento junto à rede de  saúde, assistência ,tratamentos específicos como para os dependentes químicos, portadores de transtornos mentais. A intenção é acolher e tratar, garantir dignidade humana  dentro de novo direcionamento para proporcionar atendimento mais amplo , utilizando a rede de assistência já existente e  instituições diversas rumo a maior controle e eficiência. 

Túlio Cury que tem acompanhado muito pessoalmente as abordagens, explica o trabalho humanizado onde a pessoa “tem que querer”, aceitar ser alojado. E para tanto a equipe é treinada para o trabalho na linha do convencimento . “Mais que alojar, a ideia, o ponto chave, é também tentar descobrir o ponto de  ruptura que levou à vulnerabilidade, a partir de estudo da realidade individual e familiar :  cada caso é um caso e cada pessoa tem o seu tempo”, diz. E destaca que quando o morador de rua não quer, não aceita alojar-se nas instituições, a equipe vai retornando e repetindo o processo na busca do convencimento. “É trabalhoso, desafiador, mas necessário e importante e a sociedade pode ajudar muito no convencimento de aceitar ir para instituições; no sentido de trocar doações individuais por visitas e/ou colaborações nas instituições.Há casos de pessoas que viviam nas ruas atendidos que estão trabalhando, que constituíram família. A tentativa é trabalhar dentro desta lógica.

 

JORNAL DE UBERABA - Como é o trabalho da assistência social em Uberaba, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Social?

MARCO TÚLIO CURY  - A Prefeitura de Uberaba através da SEDS operacionaliza programas e serviços de proteção social básica e especializada, além de oferecer serviços e ações preventivas, de convivência, socialização capacitação e inserção produtiva, apoio e acompanhamento familiar. E também oferta benefícios socioassistenciais a públicos específicos de forma articulada aos serviços, assumindo seu papel protagonista da inclusão social.

 

JU - Quais os serviços prestados pela SEDS?

TÚLIO CURY - A política de assistência social oferece um conjunto de serviços para garantir que o cidadão não fique desamparado em situações inesperadas, nas quais a sua capacidade de acessar direitos sociais fica comprometida. Portanto, os serviços da SEDS são prestados a quem deles necessitar e tem como objetivos a proteção à família, à maternidade, à infância, à adolescência e à velhice; o amparo às crianças e adolescentes carentes; a promoção da integração ao mercado de trabalho; a habilitação e reabilitação das pessoas portadoras de deficiência e a promoção de sua integração à vida comunitária; a garantia de um salário mínimo mensal ao portador de deficiência e ao idoso que comprovem não possuir meios de prover a própria manutenção ou de tê-la provida por sua família na forma da lei.

 

JU - Como funciona o serviço de Abordagem Social? Como a SEDS lida com a pessoa em situação de rua?

TÚLIO CURY - O Serviço Especializado em Abordagem Social é um serviço ofertado de forma contínua, instalado no âmbito de Proteção Social Especial de Média Complexidade. Seu objetivo é a busca ativa, a identificação e mapeamento de vulnerabilidade, atendimento, acompanhamento e intervenções no território, com a população em situação de vulnerabilidade social e com a população em situação de rua, visando o enfrentamento e superação das violências vivenciadas no território. A Abordagem Social atua em Uberaba, de segunda à sexta-feira das oito horas à meia noite e meia e aos sábados, domingos e feriados das nove às 15 horas. Devido ao momento pandêmico mundial, ampliamos o horário de atuação nestes dias, trabalhando também das 16  às 22 horas.

 

JU - Como funciona a Casa de Passagem? Quem pode ter acesso ao serviço?

TÚLIO CURY - Este é um serviço de acolhimento institucional para adultos e tem por finalidade oferecer acolhimento provisório a pessoas com vínculos familiares rompidos ou fragilizados, em situação de rua e desabrigo por abandono, migração e ausência de residência ou pessoas em trânsito e sem condições de autossustento. A Casa de Passagem funciona diuturnamente e possui capacidade para até vinte pessoas. Dentre as atividades desenvolvidas, destacam-se a acolhida e garantia da proteção integral; atendimento psicossocial; identificação e mobilização da família extensa ou ampliada; orientação para acesso a documentação pessoal; intermediação do benefício eventual de passagens; espaço para moradia, que garante condições de repouso, alimentação, banho e higiene pessoal.

 

JU - Com quantos profissionais esses serviços funcionam?

TÚLIO CURY - A abordagem social sempre atua com um técnico e um motorista. Já a Casa de Passagem possui uma equipe ampla e multiprofissional, contando com assistente social, educador social, coordenador, agentes administrativos, trabalhadores braçais, cozinheiros, vigias e outros. Contamos também com a equipe da Seção de Apoio à Pessoa em Situação de Rua no apoio logístico para abordagem social e com o CentroPop que presta serviços especializados e continuados à população adulta que utiliza a rua como espaço de moradia e/ou sobrevivência, assegurando-lhe atendimento, encaminhamentos, acompanhamentos e atividades direcionadas para o desenvolvimento de sociabilidades, na perspectiva de fortalecimento de vínculos interpessoais e/ou familiares que oportunizem a construção de novos projetos de vida.

 

JU - Quais os pontos críticos de pessoas em situação de vulnerabilidade?

TÚLIO CURY – A vulnerabilidade tem diversos fatores responsáveis pela ‘exclusão social’ de uma parcela da população. Entre eles, podemos incluir questões históricas, de raça, de gênero e de orientação sexual. Questões como essas fazem com que diversos cidadãos sofram com a falta de representatividade e de oportunidades. E o nosso objetivo é identificar necessidades e apoiar as famílias e indivíduos para que possam construir opções de enfrentamento da vulnerabilidade mediante o fortalecimento de vínculos familiares e comunitários, bem como através do acesso a saúde, educação, trabalho, dentre outras políticas.

 

JU - A SEDS só aborda a pessoa ou promove trabalho de recuperação social? Há alguma ação de acolhimento, instrução, motivação para a pessoa sair da rua?

TÚLIO CURY - A abordagem social tem como base a escuta qualificada e a busca ativa. Realizamos apoio social e trabalhamos no convencimento do usuário para a saída das ruas, para novo projeto de vida. Encaminhamos estes usuários para o Centropop ou para instituições de acolhimento conveniadas à Prefeitura de Uberaba por meio da SEDS.

 

JU - Quantas pessoas estão hoje em Uberaba em situação de rua?

TÚLIO CURY - No fim de 2019, fizemos um levantamento e identificamos 217 pessoas em situação de rua em Uberaba, sendo 55 migrantes/itinerantes, 162 moradores em situação de rua. Atualmente 131 pessoas estão nas instituições de acolhimento. Aproveitro para divulgar  o Disk Abordagem Social: 99667-4451 

 

JU - Por conta da pandemia do coronavírus, o que a SEDS tem feito com esse público?

TÚLIO CURY - Preocupados com este momento de pandemia, de imediato aumentamos a capacidade de vagas nas instituições de acolhimento conveniadas à Prefeitura por meio da SEDS para atender este público. O curioso é que antes tínhamos vagas disponíveis e dificuldade em convence-los a se institucionalizarem e hoje, as pessoas em situação de rua nos procuram buscando a institucionalização. 

 

JU - A SEDS é contra dar esmolas? Como deve agir aqueles que querem ajudar?

TÚLIO CURY - Não somos contra esmola, somos a favor de doações com critérios, para chegar a quem precisa. A SEDS tem o diagnóstico, então sabemos orientar para que as doações cheguem realmente a quem necessita, e atenda a vontade de quem quer doar. Por exemplo, na região da rodoviária o público que vai buscar as doações, não é apenas de  pessoas em situação de rua, e sim, pessoas que moram nos arredores, como as pensões etc.A distribuição é tanta que depois ficam o lixo e restos espalhados na praça e arredores. Eu me preocupo muito e vou sempre que posso acompanhar o trabalho da Abordagem Social.Vejo doações em grande quantidade de colchões, cobertores e comida nas ruas. Queria pedir com todo carinho e cuidado para que fizessem estas doações para instituições de acolhimento, porque estas pessoas não precisam só destes itens, precisam também de acolhimento, atenção e sair dos perigos que a rua oferece. A partir do trabalho de convencimento dessas pessoas em situação de rua, conseguiremos oferecer através do acolhimento institucional, comida, roupa, cama e atendimento especializado com psicólogos e assistentes sociais.

 

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