Agronegócio

Trigo: momento de monitorar doenças do Cerrado

A expectativa é de uma pequena redução na área cultivada em relação ao ano passado

02/06/2020 05h00
Por: Redação

A semeadura do trigo está praticamente encerrada nos estados de MG, GO,

DF, MS e BA. A expectativa é de uma pequena redução na área

cultivada em relação ao ano passado, ficando próxima de 200 mil

hectares. Na maioria das áreas o momento é de manejo de doenças com

monitoramento das lavouras e acompanhamento das previsões climáticas.

 

O trigo de sequeiro foi semeado em março e abril, com muitas lavouras

na fase de enchimento dos grãos. A atenção agora é para o controle

de doenças de espiga. No trigo irrigado, os trabalhos de semeadura

começaram mais tarde e deverão encerrar até o início de junho. O

cuidado é com a sanidade das folhas.

 

De acordo com o pesquisador Vanoli Fronza, do Núcleo Avançado de Trigo

Tropical da Embrapa, em Uberaba, MG, apesar da grande incidência de

brusone no ano passado, a oferta de sementes para a safra 2020 não foi

afetada de forma a comprometer a safra deste ano. No trigo de sequeiro

foi verificada tendência de redução de área em GO e no DF, devido

às perdas com brusone na safra anterior, e, em MG, houve produtores que

optaram pelo milho ou sorgo, com cotações em alta, em detrimento do

trigo. No cultivo irrigado, a elevação na cotação de preço do

feijão tomou espaço do trigo em alguns pivôs. Segundo o relatório da

Secretaria de Agricultura de Minas Gerais (maio/2020 [3]) a redução de

área de trigo no estado pode chegar a 14%. As estimativas iniciais

apontam para uma área entre 170 e 200 mil hectares nos estados de MG,

GO, DF, MS e BA.

 

MANEJO DE DOENÇAS

 

A incidência de brusone ainda na fase inicial de desenvolvimento do

trigo marcou a safra 2019 no Cerrado. A ocorrência de chuvas no

período de seca, temperaturas mínimas acima de 15ºC, duração de

molhamento da planta acima de 10 horas, dias nublados e alta umidade

relativa do ar causaram as condições ideais para a proliferação da

doença. O uso de cultivares mais suscetíveis e a dificuldade para

fazer o controle das doenças na lavoura também aumentaram os danos no

trigo, tanto em cultivos de sequeiro quanto no irrigado.

 

Nesta safra, até o momento, as lavouras de trigo sequeiro têm

apresentado um bom desenvolvimento. Em Goiás e no Distrito Federal, as

lavouras de sequeiro já apresentam alguns sintomas de brusone na

espiga, mas ainda não representam perdas no trigo. “O bom

desenvolvimento das plantas até o momento e a baixa incidência da

brusone encaminha as lavouras de sequeiro para um alto potencial de

produtividade que pode alcançar até 80 sacos por hectare”, avalia o

pesquisador da Embrapa Cerrados, Júlio Albrecht.

 

Segundo o pesquisador da Embrapa Trigo Jorge Chagas, no sistema

irrigado, a recomendação do pesquisador é sempre evitar a semeadura

no mês de abril, dando preferência à semeadura no mês de maio,

reduzindo as condições favoráveis para a brusone no espigamento e

temperaturas elevadas no início do ciclo, aumentando o potencial

produtivo da lavoura. “Até o final da maturação dos grãos, os

produtores devem monitorar suas lavouras diariamente para utilizar no

momento correto os fungicidas indicados para controle da doença”,

alerta o pesquisador, lembrando que, apesar da chuva, a previsão de

temperaturas mínimas abaixo dos 15ºC nos próximos dias não deverá

favorecer a incidência de brusone: “A saída é acompanhar a lavoura

e as previsões climáticas”.

 

Para o pesquisador da Embrapa Trigo João Leodato Maciel o controle da

brusone deve ser preventivo. Segundo ele, em anos com condições

climáticas favoráveis à proliferação da brusone, a primeira

aplicação do fungicida deve ocorrer logo no início do espigamento e

as seguintes a cada 12 dias. O pesquisador alerta, porém, que se não

houver condições favoráveis para a infecção, não é preciso fazer

a aplicação do fungicida: “Na condição do Cerrado, normalmente, é

a chuva que forma o molhamento necessário para iniciar a infecção”.

Os experimentos de campo determinaram que fungicidas comerciais com

mancozebe na sua formulação foram os de maior eficiência para

controlar a brusone do trigo. Ainda, na aplicação dos fungicidas é

muito importante que o volume de calda aplicado seja de 200 a 250 litros

por hectare.

 

Em anos de alta incidência da doença o manejo da irrigação deve ser

alterado. A recomendação da Embrapa é fazer as irrigações apenas

durante o período da noite. O intervalo entre as irrigações deve ser

maior para diminuir o tempo de molhamento da parte área das plantas.

 

Outras doenças que o produtor deverá ficar em alerta são as manchas

foliares, como a macha amarela e a mancha marrom. Neste caso, os

fungicidas indicados para o controle apresentam eficiência elevada,

desde que aplicados no início do aparecimento dos sintomas foliares.

“De agora em diante é preciso atenção no que diz respeito ao

controle de doenças, sempre buscando orientações junto às

informações técnicas, pois o risco de brusone, apesar de ser baixo no

momento, ainda não pode ser ignorado totalmente. O controle deve ser

feito pensando em brusone, mas a estratégia para brusone pode se

aplicar também para as doenças de folha”, explica o pesquisador da

Embrapa Trigo Joaquim Soares Sobrinho.

 

CLIMA

 

De acordo com o agrometeorologista da Embrapa Trigo, Gilberto Cunha o

outono marca o início da estação seca na região Centro-Oeste e em

grande parte do bioma Cerrado. “No trimestre maio-junho-julho o normal

é termos um período de baixa pluviosidade no cerrado brasileiro.

Todavia, há variabilidade na ocorrência de chuvas entre locais nessa

vasta região, havendo aqueles onde as últimas chuvas avançam um pouco

mais na estação e outros que o período seco inicia mais cedo”. Essa

particularidade, avalia o pesquisador, pode intensificar os problemas

causados pela brusone nos locais que registram chuvas numa época que

seria seca, ou pode causar deficiência hídrica naquelas que as chuvas

param mais cedo, podendo, ambas, afetar o trigo de sequeiro no cerrado.

 

No tocante ao trigo irrigado, “a semeadura ainda está em marcha ou as

lavouras estão na fase inicial do ciclo, exigindo atenção no manejo

de água e outros tratos culturais para explorar o potencial de

rendimento desse cereal que, no sistema irrigando, é bastante

elevado”, pontua Gilberto Cunha.

 

Para ajudar o produtor no monitoramento da lavoura, a Embrapa Trigo tem

trabalhado em aplicativos que analisam dados climáticos para avaliar os

riscos de epidemias nas lavouras.

 

Na safra 2019, a condição climática favorável para a ocorrência de

brusone no Brasil Central foi identificada no aplicativo SISALERT [4],

desenvolvido pela Embrapa Trigo em parceira com a Universidade de Passo

Fundo. Com base em informações meteorológicas, um modelo de

simulação avalia o risco de ocorrência da brusone no trigo e envia

uma mensagem de alerta aos usuários cadastrados.

 

Saiba mais sobre o SISALERT [4] no vídeo explicativo do pesquisador

José Maurício Fernandes.

 

Outra ferramenta é o Pic-a-Wheat-Field [5] (“fotografe um campo de

trigo”, em livre tradução). O sistema foi desenvolvido pela Embrapa

e contou com a colaboração da Universidade do Kansas visando a

interação com o produtor e a assistência técnica no abastecimento da

base de dados do sistema. Basta o usuário ligar o GPS do celular e

fotografar a lavoura ou as espigas com sintomas de brusone. As

coordenadas geográficas (latitude e longitude) serão extraídas das

fotos e identificadas no mapa mostrando a exata localização da

ocorrência que é compartilhada entre os usuários. O aplicativo é

gratuito e está disponível para baixa no smartphone (sistema iOS ou

Android) com o simples cadastro de um usuário.

 

AÇÕES PARA ATRAIR NOVOS PRODUTORES

 

“Observamos que o trigo ainda é uma cultura um pouco desconhecida

para o produtor do Cerrado”, avalia o Chefe-Geral da Embrapa Trigo

Osvaldo Vieira. Segundo ele, está sendo finalizada uma proposta para

ser apresentada à Ministra da Agricultura, Tereza Cristina, no formato

de uma aliança entre indústria, setor produtivo, lideranças,

pesquisa, assistência técnica e extensão rural para ampliar as

ações de transferência de tecnologia e compartilhar conhecimentos com

o produtor de trigo do Cerrado. O plano de trabalho deverá ser

desenvolvido a partir de julho de 2020 até o final de 2021, com o

objetivo de aumentar a produção nacional de trigo e reduzir a evasão

de divisas com importações desse cereal que podem atingir 10 bilhões

de reais neste ano.

 

Para o dirigente, o avanço do cultivo no Cerrado poderá mudar a

geopolítica de trigo no Brasil. “Hoje, se resolvermos a limitação

da brusone, o Cerrado pode atingir um milhão de hectares

rapidamente”, analisa Osvaldo Vieira, e complementa: “Avançamos

bastante na pesquisa, com cultivares mais tolerantes, avaliação de

fungicidas e estratégias de manejo mais eficientes, mais ainda não

chegamos à resistência genética ideal. Superada essa barreira, o

Cerrado é uma grande oportunidade para o trigo brasileiro, favorecido

pelo clima, logística e liquidez”, frisa Vieira.

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