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Guido Bilharinho

Guido Bilharinho

Guido BilharinhoAdvogado em Uberaba e autor de livros de literatura, cinema, estudos brasileiros, História do Brasil e regional.

17/06/2020 05h00
Por: Redação

90 ANOS DE CLINT EASTWOOD (I): OS PRIMEIROS WESTERNS

 

O ESTRANHO SEM NOME

 

Nunca é demais repetir que cada gênero ficcional possui características ou elementos peculiares, que não só o compõem como o singularizam e o distinguem.

O western não foge à regra e só o é justamente por conter aspectos bastante particulares. Entre eles a ação conflituosa por motivos definidos em determinados espaço e tempo.

Em consequência, para se realizar filme de faroeste há que se enquadrá-lo no âmbito e parâmetros exigíveis, sem prejuízo de diferenciações de caráter autoral e artístico.

O Estranho Sem Nome (High Plains Drifter, 1972), de Clint Eastwood (1930-), é realizado quando essa categoria fílmica está, pelo menos momentaneamente, debilitada.

O transe pelo qual passava o western estadunidense é visível no filme, que reflete fortemente a influência do western-spaguetti, que na década de 60 ocupa o vácuo deixado pelo hiato de sua prática cinematográfica.

Essa influência não se resume no modo de ser e atuar do protagonista ou à maneira pessoal de representar de Clint Eastwood, não por acaso o mais célebre ator ianque de spaguettis, bastando recordar uma atuação na famosa trilogia de Sérgio Leone: Por Um Punhado de Dólares (Per Un Pugno di Dollari, Itália/França/Espanha, 1964), Por Uns Dólares a Mais (Per Qualche Dollaro in Più, Itália, 1965) e Três Homens em Conflito (Il Buono, il Brutto, il Cattivo, Itália/Espanha, 1966).

Além desses fatores, configura-se, no filme, a referida ascendência principalmente pela maneira de articulação da trama, tipologia das personagens e crueldade dos foras-da-lei.

A intriga, conquanto bem urdida, não apresenta nuanças, sendo secamente talhada e bem distribuídos os papeis dos figurantes (posições na sociedade). O maniqueísmo peculiar à espécie é radicalizado ao extremo e nem olvidada a galeria intermediária de caracteres pusilânimes, oportunistas e interesseiros.

Contudo, Eastwood não se perde sob o peso dessa herança, conseguindo, até certo ponto, superá-lo ao promover a síntese entre o spaguetti realizado por diretores italianos em paisagens espanholas e o genuíno faroeste.

Assim, além da ação fulminante e atitudes drásticas e cortantes, subsiste, no filme, o substrato humano do western estadunidense que o artificialismo do spaguetti não comporta.

Em O Estranho Sem Nome, um dos mais belos títulos brasileiros de filmes estrangeiros, além de altamente pertinente, tem-se, pois, personagens substanciosas nos empresários da cidade de Lago, desde o bigshot ao barbeiro e ao barman, sem esquecer os dois trios de bandoleiros que infestam a localidade e o filme.

Já o protagonista (Clint) e a ambivalente e explosiva prostituta pecam pelo esquematismo e artificialismo de suas posições, atitudes e comportamentos. Constituem personagens impostas e talhadas conforme figurinos adredemente estabelecidos, o que não implica em invalidar as performances dos respectivos atores, adequadamente adaptadas a tais modelos. Não se pode confundir, no caso e em todos os casos, personagens e sua representação.

Conquanto o próprio recorte urbano da cidade e a aparência das construções, inclusive, sua pintura em vermelho berrante ao final, também reflitam protótipos do western italiano, no desenvolvimento da ação, principalmente nas cenas noturnas e de interiores, consegue-se atenuar essa origem e infundir-lhes atributos do autêntico faroeste.

As imagens e sua concatenação não fogem ao convencionalismo do gênero, mas revelam-se competentes, amplas, belas e límpidas, como necessário.

 

JOSEY WALES, O FORA DA LEI

 

Henrique Abílio, em sua legendária Crítica Pura (São Paulo, S. E. Panorama Ltda., sem indicação de data, em clamorosa falha editorial), forceja por fixar o que seria o valor de um artista diante da variação de qualidade de sua obra. Recorre até mesmo a fórmulas matemáticas, tentando equacionar o problema mediante critérios calcados na média e na proporcionalidade.

Esforço vão, no entanto. Para a crítica estética é de somenos importância a questão proposta, já que o que interessa, vale e deve ser examinado e avaliado é cada obra de per si e não o conjunto da produção de um autor.

No caso do cinema então, essa preocupação do crítico resta pulverizada diante do relativismo de qualquer filmografia, visto que inúmeros fatores (positivos e negativos) incidem sobre cada realização, com maior intensidade ora uns ora outros.

Assim, um filme deve ser analisado e julgado independentemente dos demais, sem prejuízo, é claro, da comparação entre eles. Essa diretriz não obsta também que se faça apanhado geral da obra de um cineasta e se tracem seus pontos relevantes ou não, suas identidades e disparidades e assim por diante.

Na realidade, ao contrário da preocupação de Abílio com a classificação de um autor de obras-primas, médias e fracas, deve-se considerá-lo pelas primeiras, já que elas é que são válidas, importantes e influentes. O valor de um artista mede-se pelo que de melhor produziu e não pelo que fez de médio ou de pior. O melhor constitui o estalão de sua capacidade. O médio e o pior, apenas resultados de contingências e vicissitudes várias.

É o caso, entre outros, de Clint Eastwood, cuja filmografia apresenta altos e baixos, que o tornam irreconhecível ora nuns ora noutros, duvidando-se até que seja o mesmo diretor de todos eles. Diz-se diretor propositadamente, já que são distintos valorativamente o autor e cineasta do simples profissional que dirige um filme.

Porém, em Josey Wales, O Fora da Lei (The Outlaw Josey Wales, 1976), incidem e subsistem duas orientações antagônicas, por contraditório e paradoxal que possa parecer, visto que irreconciliáveis e não misturáveis como água e óleo.

Mas, são justamente essas propriedades e possibilidades de convivência inassimiláveis que singularizam o filme em referência.

De um lado, é espetaculoso, maniqueísta e repleto de estereótipos e clichês, além de caracterizadamente naturalista ou mimético.

Ainda muito influenciado pelo western-spaghetti, do qual foi dos principais atores, Eastwood baseia-se numa estória (ou a simplifica), em que os atos criminosos mais nefandos estão desvinculados de qualquer causalidade ensejadora e impulsionadora, não se justificando, objetivamente, no filme, por sua inutilidade e desnecessidade, os dois bárbaros crimes que nele se cometem. Circunscrevem-se ou esgotam-se em si próprios, deixando certo travo de gratuidade, quando não de espetaculosidade e pretexto para composição da trama.

Característica da natureza mais intrínseca desse tipo de filme é exatamente a vacuidade dos gestos radicais.

Em seu esquemático encadeamento, uns atos geram ou provocam outros, montando-se, com isso, a sucessão fática que forma o núcleo da narrativa. Contudo, a questão fundamental não é esse sequenciamento, já lógico, dos fatos. Mas, a causalização dos atos iniciais. Postos arbitrariamente estes, fica fácil, à semelhança do dominó, empurrar uns sobre os outros até atingir o final almejado.

A destacar, porém, os perfis dos índios (o velho e a jovem) e até o da idosa mulher branca, que, mesmo atuando pouco, resta perfeitamente caracterizado, não se podendo deixar de notar o viés racista dos acasalamentos de índio com índia e branco com branca, quando o dado inicial do encontro da indígena com o protagonista propiciaria desenvolvimento diverso do adotado não fosse sua depreciação humana.

Contudo, onde o filme apresenta-se autoral no sentido de conter e promover linha diretiva comum a outros filmes de Clint é na construção da personagem solitária, vingadora e/ou justiceira, implacável e eficaz no seu propósito. O protagonista deste filme é gizado conforme os protótipos de O Estranho Sem Nome (High Plains Drifter, 1972), O Cavaleiro Solitário (Pale Rider, 1985) e Os Imperdoáveis (Unforgiven, 1992), herança direta, em muito dos predicados (maniqueísticamente, só os tem) dos heróis espetaculosos do western-spaguetti, mas que o cineasta aperfeiçoa e infunde dimensionamento humano.

Assim, convivem nesse filme, sem se misturar, elementos ostentatórios e substanciosos, com predominância quase absoluta dos primeiros, com o que se desequilibra o filme, comprometendo-o irremediavelmente e o colocando no patamar mais baixo na comparação com seus citados congêneres.

 

 

Guido Bilharinho - Advogado em Uberaba e autor de livros de literatura, cinema, fotografia, estudos brasileiros, História do Brasil e regional editados em papel e, desde setembro/2017, um livro por mês no blog https://guidobilharinho.blogspot.com.br/

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