Esporte

50 anos do tri: A consagração de uma nação

O futebol chega ao Brasil no final do século XIX como esporte de elite

23/06/2020 05h00
Por: Redação

 

Giulia Simões

Especial para o JU

É o rei quem encontra o capitão na ponta da grande área pronto para, em um chute certeiro de peito de pé, levar a Jules Rimet para casa. Isso mesmo. O adversário era a Itália, o rei ainda é Pelé e o capitão, o de braçadeira, era Carlos Alberto Torres. Foi pelos pés do lateral-direito que no dia 21 de junho de 1970, o Brasil fez seu quarto gol contra a seleção da Itália, na vitória por 4 a 1, e se consagrou tricampeão mundial no México. Mas é em meio a outras patentes, a “apolíticos” e “subversivos”, que bem antes das redes balançarem no Estádio Azteca, começávamos a traçar os 50 anos que estariam por vir. 

O futebol chega ao Brasil no final do século XIX como esporte de elite. Vindo da Inglaterra poderia ter sido um grande aliado do imperialismo para a dominação inglesa, mas ao contrário disso é apropriado por países dos quatro cantos do mundo. A “football association”, associação inglesa até então hegemônica no ramo, vê o futebol sendo alvo de disputa fora de campo. Sua concorrente? A Fifa. Criada em 1904 e localizada na Suíça, é hoje a principal instituição responsável pelo futebol moderno. Aparelhado e mercadológico, mas que ainda se mantém como um dos esportes mais praticados no mundo.

Pois bem! Não nos adiantemos. Uma vez aportado no Brasil, o futebol que é coletivo por essência, toma espaço no cenário nacional como não visto em nenhum outro lugar do mundo. Passávamos por um intenso processo de imigração e industrialização. Começavam a chegar as notícias da Bella Époque francesa, de uma elite que ditava moda, de cidades de ruas largas e iluminadas. A modernidade conservadora batia à porta do ainda jovem país intitulado republicano. Passou a ser praticado no Rio de Janeiro, em Porto Alegre e também foi apropriado pelos trabalhadores de chão de fábrica da capital paulista, o futebol continuava em enorme crescente nas várzeas e também nas regatas. Os clubes que foram formados logo nas primeiras décadas do século XX, já não tinham mais condições de limitar a prática do esporte por distinção social ou racial. Afinal, reunir 22 jogadores em campo não era lance de elite. Quanto maior era a tentativa de tornar o futebol excludente, mais seu caráter popular era exposto. Bangu, Vasco da Gama e Corinthians são alguns exemplos da sua abertura ao povo. Aqui nota-se as contradições e a luta entre as classes. O futebol ultrapassa as quatro linhas.

O futebol passa a estabelecer infindáveis relações dentro e fora de campo. Os negros que há pouco e na teoria haviam sido libertados, passam a ocupar os papéis principais nos jogos. Friedenreich, Leônidas, Zé Maria, Jairzinho, Pelé... Dava-se através do futebol a participação do povo na vida social do país. Nos construíamos republicanos de fato. Quando identificado o papel singular ocupado pelo esporte na realidade do Brasil, vários governos ao longo da história utilizaram o futebol como artifício político. A exemplo disso temos o governo de Getúlio Vargas em todas as suas fases. Com destaque para o ano de 1933, onde percebendo a importância do esporte tanto para a dominação do poder político quanto do cultural, o torna de vez profissão. Futebol e política se alinhavam novamente.

Chegamos ao período comemorado. Em primazia, Juscelino Kubitschek ganha com a conquista do primeiro mundial, Jango (em forma de respiro) com o bicampeonato e a Ditadura Militar com a taça no México. Vejam bem, em 1964 os militares destituíam João Goulart e tomavam o poder sobre a premissa de reestabelecer a ordem e trazer o progresso, depois disso feito devolveriam o posto aos civis. Sem grandes estranhezas, isso não aconteceu. Já em seus primeiros atos, os militares instauram o caos. Repressão, censura, tortura e mortes permearam os 21 anos de ditadura. No futebol, a relação com o povo brasileiro continuava intensa mesmo após a campanha vexatória da seleção em 1966, com os jogadores, principalmente Pelé, caçados em campo.

Aposta-se então no poder do futebol. Para surpresa geral, o escalado para reerguer o time foi João Saldanha, jornalista e militante declarado do Partido Comunista Brasileiro (PCB). O até então técnico da seleção e sua equipe deram vida as “Feras do Saldanha”, mas ele não permaneceu por muito tempo no seu comando. Menos de 3 meses para o início do mundial, João Sem Medo, como era conhecido, entra em atrito com o presidente General Médici e é substituído por Zagallo. Ainda assim a seleção faz uma campanha memorável, seis jogos e seis espetáculos. Consagramos heróis, gols feitos e perdidos entram para a história. Quem é que não se lembra do chutaço que Pelé deu do meio de campo e não entrou? É com um time de excelência técnica e uma ditadura no poder, que se estabelece uma nova era no futebol brasileiro.

A relação entre futebol e política seguiu estreita. Desde a reconstrução da seleção brasileira, passando pelos inúmeros slogans e músicas usados como propaganda do governo (“Pra frente, Brasil/ Salve a seleção”), até os famosos fuscas, jantares presidenciais e uma “Mini-Copa” em comemoração ao título, a ditadura cumpria seu projeto de instaurar a ideia de unidade nacional alinhando conceitos. Uma instituição em especial ganha destaque nesse momento. A CBD (Confederação Brasileira de Desportos), atual CBF, que antes mesmo do golpe de 1964 já mostrava sua propensão a incorporar-se à seleção. Em 1970 tem Havelange na presidência e os militares por titereiros. Qualquer semelhança ao papel ocupado pela CBF hoje não é mera coincidência.

O que a ditadura não esperava é que assim como na política, as relações de disputa e interações sociais acontecem na sociedade civil. Surgem em todo o país organizações populares ou não (torcidas, clubes), que passam a dividir o apito com os donos do poder na organização da dinâmica social através do futebol. O futebol brasileiro chega a seu ápice e se perpetua popular através da memória. Se um dia duvidamos sermos “Pátria de chuteiras”, nas palavras de Nelson Rodrigues, hoje só nos vemos enquanto brasileiros se antes formos torcedores. E que não nos deixemos esquecer, o Tri é nosso e a amarelinha também!

 

Giulia Simões – Historiadora formada na Universidade Federal do Triângulo Mineiro – UFTM

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