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Guido Bilharinho

Guido Bilharinho

Guido BilharinhoAdvogado em Uberaba e autor de livros de literatura, cinema, estudos brasileiros, História do Brasil e regional.

24/06/2020 05h00
Por: Redação

90 ANOS DE CLINT EASTWOOD (II):

OS PRIMEIROS WESTERNS

 

O CAVALEIRO SOLITÁRIO

 

O western estadunidense, como outros expressivos e notáveis gêneros cinematográficos daquele país, a exemplo do musical e do filme noir, tem seu apogeu antes dos anos 60.

Embora não deixe de ser cultivado nas décadas seguintes, o fato é que essa categoria fílmica entra em declínio e, no seu lugar, surge o malfadado western-spaghetti, com artificiais e essencialmente comerciais faroestes produzidos na Itália e geralmente filmados na Espanha, cuja paisagem semidesértica de certas áreas é propícia a esse fim.

Todavia, de dentro mesmo desse western espúrio desponta veio positivo nos filmes de Sérgio Leone, que, na década de 60 e na sua famosa trilogia, projetam, como ator-tipo, Clint Eastwood.

Não é, pois, por mera coincidência que esse mesmo ator, anos depois, transformado em diretor, surja como praticante positivo do gênero (mas não só dele), tanto à frente como atrás das câmeras.

Depois de ter dirigido O Estranho Sem Nome (High Plains Drifter, 1972), e incursionado por outros tipos de filmes, Eastwood realiza, em meados da década de 80, O Cavaleiro Solitário (Pale Rider, 1985), quando o faroeste já declinara.

Não representa, contudo, seu ressurgimento conforme executado antes, mas, como acontece também no musical e no noir, configura espécime autêntico e esporádico, que surge de quando em vez, em qualquer categoria de filme, e, acredita-se não deixará de aparecer, como, até aqui, a experiência tem demonstrado. A permanência dessa, como das demais classes de filmes citadas e, ainda, da ópera, do teatro, da pantomima e de outras artes é inevitável, porque, antes que expressão, constituem forma do ser humano, como lembrado por Fiedler, na citação de Valdemar Cordeiro (“O Objeto”, in revista Arquitetura e Decoração, São Paulo, dezembro 1956).

O Cavaleiro Solitário é genuíno e belo western, dirigido com vigor (e rigor), dentro dos usuais parâmetros que singularizam a espécie: ênfase na ação, belíssima paisagem, tema consentâneo e apropriado, luta do bom (bem) contra o mau (mal), heroísmo, coragem, a conduta individual como elemento catalisador de luta, eficácia da habilidade pessoal elevada ao máximo grau, etc.

Contudo, não só isso, pelo menos no filme comentado. Por trás do conflito de interesses e direitos retrata-se situação generalizada, que se erige em verdadeiro símbolo do progresso da sociedade e da permanente luta do ser humano pela sobrevivência e da ambição de muitos de seus membros pelo acúmulo de riquezas e do poder daí decorrente.

É claro, no esquema do filme, que de um lado estão os que mourejam e, de outro - tentando mais do que dominá-los, mas, no caso, até impedir seu desenvolvimento - a monopolização econômica de riqueza natural que, na realidade, é de todos, não podendo ser apenas de alguns, que, inclusive, para obtê-la, agridem furiosamente a natureza, que, como sói acontecer nesses casos, não é respeitada nem preservada.

Não para por aí, no entanto, a rica significação fílmica. Há mais e também importante. Se enfatiza e glorifica a ação individual, não deixa de mostrar (e até ressaltar) que essa ação é inócua se o corpo social não assumir suas prerrogativas, em discussão e deliberação coletiva e consciente.

Com isso, ergue-se o belo tripé do filme: paisagem exuberante, coragem e eficácia da participação individual como desencadeadora de ação, conscientização e deliberação da sociedade, como última e única possibilidade de resguardar direitos e impor justiça.

Essa, como tantas outras obras de arte, não pode (e não deve) ser vista apenas nos limites de sua trama conflitiva, mas, na essência de seu significado. A obra de arte ficcional baseia-se, de modo geral, numa estória, mas, deve fazê-lo, também e principalmente, em sua verdade e sentido.

Se, nesse aspecto, O Cavaleiro Solitário parece contrariar os arquétipos do gênero - e, de certo modo, os contraria - por outro lado, como sinal dos tempos, os amplia e aprofunda, como a linha psicológica o enriquece desde No Tempo das Diligências (Stagecoach, 1939), de John Ford, reiterada, daí em diante, em algumas das mais expressivas realizações dessa categoria de filmes.

O western revela, assim, que se perde seu período áureo, como, aliás, acontece com quase tudo, não deixa de existir e de incorporar, com passar do tempo, novos elementos, tanto estéticos quanto humanos, sempre, porém, mantendo sua especificidade.

Além disso, além de seguir e dilatar as características do gênero, o filme de Eastwood incorpora, também, até mesmo os mais positivos elementos do western-spaghetti tal qual praticado por Sérgio Leone e corporificado pelo próprio Eastwood como ator da citada trilogia na década de sessenta: a personagem de origem desconhecida, surgida de repente nas horas mais cruciais, de ação fulminante e fulgurante voltada a corrigir injustiças e a restabelecer a rotina e a normalidade existencial e social da comunidade. A modo de anjo vingador, solitário, eficaz e invencível, que o ser humano, no evolver dos tempos e do fundo do desamparo gerado pelo desequilíbrio social e pela ambição espúria de muitos de seus semelhantes, almeja, pleiteia e espera nas ocasiões aflitivas e desesperadoras.

Se, em linhas gerais, é essa a personagem arquetípica de grande parte do western e, também, do western-spaghetti, o que ainda distingue a performance de Clint como ator, tanto na citada trilogia, como nesse filme, é a atuação adequada ao papel, evidenciada não só pela economia de gestos e palavras, mas, principalmente, por sua essencialização, no sentido de só praticar uns e articular outras quando efetivamente importantes, necessárias e indispensáveis.

Ademais disso, do ponto de vista da criação de personagens, a virtualidade do filme não é menor, como também não o é sua consistência humana e psicológica, embora não haja sutileza nos laços que se estabelecem entre o protagonista e a dona da casa e a filha desta, como ocorre em Rastros de Ódio (The Searches, 1956), de John Ford, e em Os Brutos Também Amam (Shane, 1953), de George Stevens. Mas, é perfeita a caracterização do bigshot prepotente, inescrupuloso até o assassínio; de seu filho, que lhe herda os caracteres e a arrogância; do velho minerador, que, rico de repente e embebedado, extravasa seus recalques e ressentimentos de maneira estapafúrdia e temerária; de seus filhos obedientes e conformados; e da garota de quinze anos mergulhada na problemática peculiar à idade.

Além de tudo isso, é de se ressaltar, no filme, a excelente angulação nas tomadas de cenas, na pertinência da seleção de eventos a serem filmados, na adequação e articulação dos fatos, amparadas, nas cenas iniciais, por exemplo, em eficaz montagem paralela, mostrando, alternadamente, a esplêndida cavalgada dos facínoras e os atos prosaicos da vida na comunidade mineradora. A ponto de se ter, nesse contexto, algumas das mais belas e vigorosas cenas do western na desabalada carreira desses cavaleiros emoldurados pela belíssima paisagem outonal do oeste. Só um artista poderia criá-las.

 

Guido Bilharinho é advogado em Uberaba e autor de livros de literatura, cinema, fotografia, estudos brasileiros, História do Brasil e regional editados em papel e, desde setembro/2017, um livro por mês no blog https://guidobilharinho.blogspot.com.br/

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