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Guido Bilharinho

Guido Bilharinho

Guido BilharinhoAdvogado em Uberaba e autor de livros de literatura, cinema, estudos brasileiros, História do Brasil e regional.

01/07/2020 05h00
Por: Redação

90 ANOS DE CLINT EASTWOOD

(III, Conclusão): WESTERN E DRAMA

 

OS IMPERDOÁVEIS

 

É plausível, por facilmente constatável, que Os Imperdoáveis (Unforgiven, 1992), de Clint Eastwood, foi realizado sob peso e medida para o estrelato de seu diretor no papel do protagonista.

Já entrado em anos, ao ator não caberia interpretar jovem e audacioso pistoleiro como em seus westerns anteriores. Formulou-se esse filme, conformando sua idade com a do protagonista e a do próprio gênero, todos, no caso, crepusculares.

Alguém já disse (ou deve ter dito), que esse (e/ou diversos outros faroestes), nos quais ocorrem vicissitudes pessoais assemelhadas, refletem o entardecer do western. Se não se disse, perdeu-se a oportunidade, que se não deixa passar aqui, já que, efetivamente, o filme é banhado por pátina melancólica, mesmo que o protagonista critique-se várias vezes por suas crueldades passadas, enaltecendo a memória de sua finada esposa, que o resgatou dessa prática e de outras, como a bebida.

Não se deve palmilhar o desenvolvimento da ação nesse filme, sob pena de narrar seu enredo, sem nenhuma complexidade.

De fato, a trama é simples e esquematizada nos parâmetros do gênero. Nela, porém, Eastwood não se limita a narrar uma estória, mas, ao fazê-lo, expõe a posição do poder econômico e o significado de seu papel e influência na sociedade. Assim, dois atributos destacam-se para além de sua enganosa aparência.

Desde o início, o cineasta atém-se à verdade humana, não extrapolando suas circunstâncias condicionadoras. Os mínimos gestos do protagonista bem como os pormenores de sua atuação, até antes do clímax final, traduzem a condição de um espírito ardente domado e sufocado sob o manto dos preceitos de abnegação e desprendimento que lhe foram repassados. O que resta é a sujeição forçada ou inadaptação de temperamento vulcânico às agruras tediosas de cotidiano medíocre. Nada representaria melhor, como metáfora da situação, do que a abstrusa lida com porcos em chiqueiro barrento, emblematizando perfeitamente a disparidade e o antagonismo visceral entre posição e prática pretéritas e presentes.

A criação e desempenho da personagem (e de sua interpretação) marcam um dos melhores momentos do western crítico e, principalmente, auto analítico, de evidenciada autenticidade, propriedade e verossimilhança.

Por sua vez, a linearidade do desenvolvimento narrativo não compromete a assaz adequada perspectiva contestadora da estrutura e não apenas da conjuntura, ressaltando nitidamente a estratificada engrenagem social dominante, em que a pessoa e sua vida nada valem frente aos interesses materiais representados na organização estatal, personificada, no caso, pelo xerife, que nada mais é e nada mais faz do que impor pela força da “ordem” sua prevalência sobre os valores humanos. O que deve ser penalizado, pago e ressarcido é o prejuízo do proprietário do bordel, não a violência e a crueldade praticadas contra uma de suas moradoras.

O filme, além da saga do antigo pistoleiro, do desempenho exacerbado e atrabiliário do xerife, é ainda, e não em menor intensidade e pertinência, a luta da dignidade humana contra a atitude da organização social que acata e se submete ao poder econômico que a vilipendia, resgatando, ainda, o legendário papel vingador do cowboy, que, no caso, ao exercer a atribuição que seria (deveria ser) de órgão público, só teórica e pretensamente isento e neutro, age (mais ou também) movido pelo interesse (e necessidade) financeira.

A partir, no entanto, de determinado momento, transmuda-se a atitude desanimada, semi-burocrática e meio precária, conquanto eficaz, em fulminante ação do anjo vingador audaz e implacável, em motivação consentânea com as mais lídimas tradições da legenda do faroeste clássico.

Já no que tange a alguns dos aspectos relevantes do filme, devem ser lembrados a digna focalização das prostitutas, o enfoque da violência não como instrumento mercadológico, mas, como componente ínsito da des(ordem) estabelecida, além das apropriadas direção e interpretação dos atores, congruência e eficiência dos décors e locações exteriores, tanto urbanas como paisagísticas, à exceção dos entardeceres na pequena fazenda do protagonista com o mau-gosto do clichê de crepúsculos de horizontes avermelhados, assaz utilizados em filmes de gênero e de visualização de cartão-postal.

 

BIRD

 

O cinema dos Estados Unidos apresenta, entre outras fortes tradições, os filmes musicais, dramáticos e as cinebiografias. Na convergência dessas linhas fílmicas, Clint Eastwood (1930-) erige Bird (Idem, EE.UU., 1988), cinebiografia do compositor e instrumentista Charles Parker, que reúne, na mesma realização, seu drama e sua música.

Como em qualquer gênero, o cineasta tinha, antes de fazê-la, sem número de possibilidades e variáveis, entre as quais, a mais comum e fácil, de convencional e linearmente contar a vida de Parker, ou seja, narrar seus fatos e feitos de maneira superficial, explorando-lhes apenas sua exteriorização com incidência no emocionalismo e no pieguismo, mediante estrutura ficcional e linguagem cinematográfica destituídas de elaboração e criatividade.

Isso é o que os grandes estúdios despejam no circuito exibidor para deleite dos desavisados cultural e artisticamente, que, por isso, comprazem-se com mera diversão de baixo ou nenhum teor intelectual, porém, de efeitos diretos e colaterais destinados a agradá-los e mantê-los condicionados e conformados.

Mas, Eastwood, nesse filme, pretendeu, procurou e conseguiu elaborar obra autoral, na qual expressou visão pessoal do mundo por intermédio da captação de sua verdade configurada em construção esteticamente válida.

Em Bird, o drama de Parker é revelado na angustiada consciência de intrínseca autodestrutividade, palmilhando os caminhos agônicos da íntima fraqueza que destrói a vontade, mina e debilita o organismo até a definitiva aniquilação.

A tragédia de Parker, mais do que simples drama, é a convivência de vigorosa intelectualidade e desenvolvida sensibilidade com debilidade emocional, abulia da vontade e falta de autodomínio. Num indivíduo destituído daqueles atributos, as fraquezas que o assaltam não provocam mais estragos do que os orgânicos. Porém, em consciência viva e complexa, como é o caso, o que é dramático assume-se trágico, duplamente doloroso e corrosivo. A despeito disso, Parker persiste na trajetória musical, já que, por vocação ou aptidão e sobrevivência, não tem alternativa ou opção viáveis.

Nos vértice e vórtice de problemas domésticos e familiares e a atividade profissional, o desgaste vai-se processando, visto carecer de força suficiente para vencer suas causas, estancando-as e revertendo-as. Esse o eixo nodal do filme, reconstituído e recriado com o mesmo vigor que faz o protagonista sobreviver e produzir no turbilhão das intempéries de existência borrascosa. Eastwood ergue, sobre os cacos desse caos existencial, monumental cinematográfico que celebra e dignifica a personagem, expondo sugestivamente, mais do que simplesmente mostrando, as vias e transvias de labiríntico itinerário existencial.

Bird é, pois, síntese da admiração filtrada pela razão e sensibilidade do cineasta com a tormentosa, porém, produtiva vida de Parker, expressando com objetividade, não isenta de empatia e compaixão, a verdade da personagem.

A narrativa, essencializada, não transcorre simples nem linear, mas, sincopadamente, contrapondo atos a fatos, intenções a práticas, meios e modos a resultados, além de amalgamar revelação de ocorrências com transmissão de impressões. Em consequência, complexamente propõe mais do que mostra e indica mais do que exibe.

Bird, se não for a mais atilada, vigorosa e consistente cinebiografia até hoje realizada, insere-se, tranquilamente, entre as poucas realmente significativas.

Nela, como nele, a par do mergulho vertical na substância vivencial do biografado, expondo o íntimo de sua argamassa humana, convive-se simultaneamente com refinado prazer estético. Ambas as circunstâncias assomam-se ao primeiro plano da realização e de sua decorrente fruição. Sai-se delas com a dupla sensação de se participar e conhecer a verdade interior do protagonista ao mesmo tempo que se usufrui, absorvendo-a, de compacta e elaborada obra artística.

A parte musical, extensa e qualificada, traduzindo o tensionamento vivencial, atinge o ponto onde coordenadas se encontram e se mesclam.

Parker, conforme mostrado no filme, não se autoglorificava como tantos falsos e até verdadeiros artistas o fazem. Sua desgraça o mantém atado à vida e seus limites. Não era também um torturado intelectual como foi o romancista brasileiro Lima Barreto, ansioso por reconhecimento em meio às agruras provocadas pelo alcoolismo que o dilacerava. Para Parker, a só desgraça do vício lhe bastava para desarvorá-lo, dobrando-o às vicissitudes e cataclismos desencadeados pela fraqueza humana, mesmo porque sua arte era aplaudida até ao delírio, como comprova a apoteótica exibição que fez em Paris com a chuva de flores com que a plateia o brindou. Todo possível e natural envaidecimento do artista esbarrava e era amordaçado pela desgraça do indivíduo.

Em suma, poucas vezes se tem, num filme, visão tão sutil quão nítida e compacta de um ser humano como em Bird, na confluência da grandeza da arte com a glória e a fraqueza da vida.

 

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Guido Bilharinho é advogado em Uberaba e autor de livros de literatura, cinema, fotografia, estudos brasileiros, História do Brasil e regional editados em papel e, desde setembro/2017, um livro por mês no blog https://guidobilharinho.blogspot.com.br/

 

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