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Em questão

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Prof. Décio Bragança

Prof. Décio Bragança

Prof. Décio BragançaGraduado em Letras pelas Faculdades Integradas Santo Tomás de Aquino (Uberaba, 1972). Especialista em Metodologia do Ensino Superior pela Universidade Federal de Santa Catarina (Uberaba, 1982. Especialista em Língua Portuguesa pelas Faculdades Integradas de Uberaba em convênio com a UNICAMP (Uberaba, 1987). Cronista de Rádio às quartas feiras e de Jornal quintas feiras, na cidade de Uberaba.

25/08/2019 06h00
Por: Redação

Quem tem bastante no seu interior, pouco precisa de fora - Muitos pedem socorro! Mui-tos pedem ajuda! Muitos estão jogados à própria sorte, abandonados por familiares, pelas pessoas e pelo governo. Governo existe exatamente para as horas de maior aban-dono e solidão. Quando alguém não tem a quem pedir socorro ou ajuda, aí entra o go-verno com suas políticas públicas. Se todos nós respeitássemos os idosos, não seria preciso o Estatuto dos Idosos; se todos nós levássemos a sério as crianças e os adoles-centes, não seria preciso o Estatuto de Criança e do Adolescente; se todos nós obedecês-semos às normas de boa convivência, não seria preciso o Código de Trânsito e assim todas as regras, e leis, e estatutos, e regulamentos. O governo existe para regulamentar as relações entre as pessoas, já que fomos acostumados e aculturados para levar vanta-gem em tudo, tirar proveito de tudo, viver como se tudo e todas as pessoas girassem em torno dele. As coisas e as pessoas não têm dono, nem existem para ser acumuladas. 

 

As mais belas frases de amor são ditas no silêncio de um olhar - Desgraçadamente, en-tendemos que comprar é ser dono, é possuir, é acumular. Para mim, comprar simples-mente significa ter o direito de usar para o meu bem e para o bem de todos. “Sou para mim e sou para os outros” – máxima para ser, para ser mais, para ser melhor. Para que cinco casas e apartamentos? Para que cinco automóveis na garagem? Para que milhares de hectares de terras sem uso? Se alguém tem em excesso é porque há muitos vivem com pouco, ou quase nada. Nesse sentido, a morte sob o ponto de vista filosófico é o melhor mestre: daqui não se leva nada. A fidelidade a si e aos outros desapareceu por inteiro, por causa dos enganos e mentiras, da ganância e ambição, da luxúria e desejo de rique-zas e de bens, do poder e desejos de fama e sucesso. O amor a si e aos outros virou mer-cadoria, como o resto de todas as atividades humanas: saúde, educação, segurança. A arrogância e a prepotência, a intolerância e o desprezo, a discriminação e desdém são marcas registradas de nossos tempos. A corrupção, a propina, o suborno, o caixa-dois, a sonegação de impostos, a evasão de divisas, a lavagem de dinheiro, os privilégios per-petuados, os interesses e as segundas intenções são exaltados por todos nós, porque acreditamos que o mundo é dos espertos. Há explicitamente um discurso de fracasso e de derrota, de sofrimento e de dor para quem não aceita nem adota essa esperteza satâ-nica, demoníaca, diabólica, infernal. 

 

A palavra é meu domínio sobre o mundo - Num clima desse quadro, só tem vez a vio-lência e a agressão, a injustiça e radicalismos, porque nos tornamos inimigos uns dos outros. “Outro mundo é possível” – “outra humanidade é possível” – alternativas de vi-vência, convivência e sobrevivência. O que há por trás dessas estruturas sociais e insti-tuições políticas e econômicas? O fato é que solidariedade, companheirismo sumiram da face da terra, privilegiando a força das armas e do ouro -  energia e habilidade da malda-de e de seus adeptos. Quem ama, fica pobre. Quem odeia, fica rico. Amar é dividir tudo com os outros, ao passo que ficar rico é não dividir, guardar para si mesmo, acumular. Dizem que os ideais da Revolução Francesa: Fraternidade, Igualdade e Liberdade muda-ram os rumos da história da humanidade. Que fraternidade estamos vivendo? Que igualdade estamos convivendo? Que liberdade ainda sobrevive? Foi-nos ensinado que foram esses ideais que trouxeram a democracia – oportunidades e chances iguais para todos, deveres e direitos iguais para todos, respeito a todas as diferenças e diversidades. 

 

É o sofrimento, e só o sofrimento, que abre no homem a compreensão interior - Vive-mos momentos de muita insensatez e incertezas, estimuladas pelo próprio governo e seus asseclas, acobertadas pelos meios de comunicação e informação, produzidas por um discurso publicitários e massificador, polêmico e enganador. Vivemos momentos de muita inconsequência e mediocridade, estimuladas pelos políticos e economistas, acober-tadas pela ilusão de que um dia o bolo será dividido para todos, produzidas pela sensa-ção impunidade e injustiça. Vivemos momentos de doutrinação e dominação, estimula-das pelas técnicas de persuasão e condicionamentos, acobertadas pelas luzes e cores e imagens dos capitalistas bem-sucedidos, produzidas pelo desejo secreto e latente de ter, de ter mais. Em nome de reformas possíveis para o bem da maioria da população, esta-belece-se a relação perversa de humilhação e exploração. Os donos das coisas e das pes-soas, porque é assim que se consideram, perderam o senso do cinismo, do ridículo, do sadismo, porque doentes, muito doentes. 

 

Para que levar a vida tão a sério, se a vida é uma alucinante aventura da qual jamais sairemos vivos - Há muitos gemidos nos cantos, nos recantos e nos encantos deste país. Os gemidos nunca são ouvidos, da mesma maneira como não é visto nada que há debai-xo dos viadutos e pontes ou debaixo dos tapetes e dos tronos. Por que a sujeira, tradu-zida em corrupção e injustiças, é tão comum em nossa sociedade? Uma questão de difícil resposta, mas que, em princípio, podemos entender como uma crise moral, uma falta de valores, um desvio moral dos ocupantes de cargos que poderiam resolver os nossos muitos problemas. Nesse sentido, a primeira reforma deveria ser uma reforma moral. Reforma da Previdência, Reforma Trabalhista, Reforma Tributária, Reforma dos muitos Códigos não resolvem nenhum dos nossos problemas sem uma reforma moral dos ocu-pantes dos cargos públicos. O interessante é que há muita gente séria, trabalhando ética e arduamente nos postos públicos, mas obedece a seus chefes que nem sempre têm a mesma seriedade e ética. E por que essas pessoas sérias não denunciam os desmandos de seus chefes? 

 

Já que se há de escrever... que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas - A nossa estruturação organizacional não permite que subordinados desobedeçam, de-nunciem seus chefes. Um sargento para denunciar um tenente tem de pedir licença para denunciá-lo. Trabalhadores para fazerem greve têm de avisar o patrão, caso contrário seria considerada ilegal. O fato é que a corda arrebenta do lado mais fraco. Além disso, vivemos momentos de muitos medos e temos medo do desemprego. Aí, inventa-se uma nova crise: a crise de autoridade. Para que tudo continue como antes e nada mude, as autoridades justificam suas decisões ditatoriais em nome de uma possível desordem so-cial, de uma possível mobilização social, de uma possível reação da população e até de uma possível troca de comando. Claro, as coisas não são assim tão simples, porque vi-vemos numa sociedade complexa, porque plural. Fomos aculturados para viver numa estrutura social paternalista que cria a ideologia da benevolência, ou ideologia da lealda-de: o governo é bonzinho porque liberou o saque do Fundo de Garantia, o prefeito é bonzinho porque construiu um posto de saúde, meu patrão é bonzinho porque paga o 13º salário, sendo que o ano só tem 12 meses, meu professor é bonzinho porque deixou que fizéssemos a prova em dupla, meu pai é bonzinho porque dá mesada, meu deus é bonzinho porque perdoa os pecados. É bom que saibamos que uma classe dirigente não é, nem deveria ser uma classe dominante.

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