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Entrevista

“Temos de resgatar nossa democracia”, diz Nilmário Miranda

Maria das Graças Salvador

25/08/2019 06h00
Por: Redação
Ex-deputado estadual e federal e ex-ministro Nilmário Miranda
Ex-deputado estadual e federal e ex-ministro Nilmário Miranda

O ex-deputado estadual e federal e ex-ministro Nilmário Miranda esteve em Uberaba para noite de autógrafos do seu livro ‘Histórias que vivi na História. Em entrevista ao JU ele fala da sua trajetória política e diz que a democracia está em risco, porque é um projeto de Nação perdida. “A nossa Constituição trabalhava a ideia de um país soberano, para explorar as riquezas naturais. Agora, o pré-sal, que é nosso futuro está sendo vendido a preço de banana, para as sete irmãs. O Getúlio entrou para a história em definitivo porque criou a Petrobras. Os americanos falaram que não tinha petróleo no Brasil, e ele criou a Petrobras e o Brasil tornou-se não só auto suficiente como ia exportar petróleo. Todos defendendo um projeto de Nação de um país soberano e sofreram golpe. Juscelino, João Goulart, sempre associam a corrupção extraordinária para produziu efeito político e falavam que estavam em um mar de lama. A corrupção é intolerável, ninguém aceita a corrupção e a usa como espectro para não discutir o Brasil e às vezes para desmontar a própria democracia. Assim foi o golpe e agora a história se repete, mas desta vez com tragédia.

 

JORNAL DE UBERABA – Fala sobre o livro ‘Histórias que vivi na História. 

Nilmário Miranda – É meu quinto livro e todos eles têm foco da memória da verdade, a memória política. São 434 mortos e desaparecidos, muita gente que desapareceu e tudo tinha um fake e a ditadura nunca admitiu que fazia tortura. Cada morte eles faziam um fake, falando que quem matou foram os terroristas. Fomos desmontando um por um. Não é uma biografia no sentido tradicional. Como tenho 57 anos de militância de esquerda, vivi vários períodos históricos. E como estou pensando nas novas gerações, na história, ciências política, tem 9 momentos históricos nestes 57 anos. O que me levou à militância, o Conselho Vaticano II, de mudança da igreja que deixou a opção pelos ricos e poderosos e deu preferência pelos pobres; o Plebiscito de 1963, que instalou o governo João Goulart; como foi o impacto do golpe, depois passo para as resistência da ditadura a época revolucionária em 65. Coloco as prisões, o pior período da história contemporânea do Brasil, que foi AI-5, do dia 13 de dezembro de 1968, que institucionalizou a tortura e o desaparecimento. Foi a única vez da história do Brasil que cassou três ministros do STF, censura total na imprensa, rádio, TV, teatro, cinema, proibiu as atividades de sindicato, que viraram agência de saúde, coisas que não compete ao sindicato e é papel do estado. Passo pela primeira prisão em 68, a clandestinidade, a pessoa largar tudo para trás, trocar residência, deixar universidade, família, namorada, a vida normal e mergulhar na incerteza. As torturas, como eram as resistências dentro das prisões. Quando sai fundamos um jornal popular. A esquerda era toda pulverizada e resolvemos fazer uma grande aliança com todos os democratas pela democracia e pela anistia. A partir de 1976, a imprensa alternativa que rompeu todas as amarras, o fim do AI-5 em 78 e a Anistia em 79, como que 15 mil exilados voltam para o pais. Surgem os partidos, como os partidos foram corrompidos o fato da Constituição, que é o primeiro pacto da história do país. O país sempre foi o país da conciliação. A Independência em 1824 foi conciliação, a própria dinastia Bragantino, a antecipação da maioridade de dom Pedro II, conciliação. O modo como se deu a abolição foi conciliação, a República através de um golpe militar, o fim do Estado Novo, conciliação para impedir a posse de João Goulart, depois tem a reação de Brizola e do povo e teve a conciliação para o parlamentarismo casuístico. A conciliação sempre teve. Agora a Constituição foi um pacto, a esquerda aderiu à democracia, a direita desvinculou da ditadura e, através das Diretas JÁ, saiu a Constituição, esta sim democrática, mesmo com todas as falhas

 

JU – O senhor foi Constituinte?

Nilmário Miranda – Não, mas tive mobilização forte na Constituição, nas emendas populares, que eram milhões. Historicamente sou defensor dos direitos humanos e colocamos os 30 artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos na Constituição. Apesar das críticas que fazíamos por causa da completude, era um projeto de Nação, que agora está sendo jogada no chão.

 

JU – O senhor comentou do Lula...

Nilmário Miranda – O juiz que o condenou, depois que o impediu de disputar a eleição e aceita ser ministro da pessoa que se beneficiou de tirar o Lula da disputa, isso já é demonstração de que existe algo de podre no reino da Dinamarca. Depois do Vaza Jato a gente vê como foi estruturada a ordem jurídica no país, na democracia. Em uma democracia, no Direito Penal, ninguém está acima da lei. A polícia investiga, apresenta um relatório no Ministério Público, e o juiz, imparcial, julga. Pode dissolver ou condenar. Quando você vê um juiz que articula com a polícia e com o Ministério Público, corrompeu a estrutura de todo Direito Penal. Ai vira guerra política, o Direito Penal do inimigo, vira politivismo exacerbado. Você usar instrumentos de uma política na democracia contra o adversário político. O Lula tinha de estar solto há muito tempo, não tinha nem de ser condenado, mas já que foi condenado e cumpriu até aqui. O ministro da Vaza Jato é uma aberração política. Não é da esquerda ou direita, e da democracia. Gilmar Mendes que sempre foi um adversário vigoroso, disse que é a maior crise do Judiciário pós ditadura da história do Brasil que estamos vivendo, que é a credibilidade, a essencial do Judiciário que está em jogo neste momento. Não pela Lava Jato, eu era deputado e votei pela lei da lavagem de dinheiro e pela delação premiada. Mas não para ser usada como usou. É a convenção moderna da tortura psicológica para obter delações direcionadas. Eu votei para fazer força tarefa, mas não para fazer um juiz comandar uma delação. Mas tirar o Lula de onde está é fundamental para restaurar a democracia.

 

JU – O senhor acha que o Palocci é um traidor ou se rendeu?

Nilmário Miranda – Na ditadura, passei por vários sets de tortura, por vários presídios e convivi com dezenas de pessoas que passaram por tortura delatada e são vítimas.  

O Palocci está fazendo igual o chamado cachorro. Em Uberaba teve um, o Gilberto Prata, que foi cooptado sobre pressão intolerável, mudou de lado e se infiltrou na Ação Popular. A partir do seu trabalho, morreram José Carlos da Mata Machado, Gildo Macedo Lacerda, Fernando Augusto Santa Cruz, que é o pai do presidente da OAB, Alestino Guimarães que é um ícone em Brasília. A repressão tinha tanto desprezo por estas pessoas que a chamavam de cachorro. Abriam informações para o lado de lá, mas eram vítimas, diferente dos que mudam de lado e se infiltram. Acho que o Palocci faz o papel de cachorro, porque esses delatores condenam a penas elevadíssimas, proporcionais e oferecem que podem ficar com o dinheiro e continuar milionários, desde que delate o Lula. O Palocci resistiu por muito tempo. Sei que o Palocci oferece para delatar  empresas de comunicação e bancos que estavam envolvidos no processo de corrupção. Ele percebe que para ele ficar com uma parcela para ele ficar milionário para o resto da vida, porque ele desviou dinheiro, assim reduziram a pena dele. Ele é um cachorro, toda vez que aparece um conjunto de delações aparece o Palocci. Ele não serviu através da tortura, e, sim, fez uma negociação espúria que envolve benefícios pessoal e muito dinheiro. O caso dele é imperdoável, 

 

JU – O PT tem de se reinventar?

Nilmário Miranda – Acho que os partidos políticos, a política é uma atividade que é inerente. É uma projeção do futuro, pode não dar o que você projetou. Por isso a revisão periódica é fundamental. Acho que o PT errou, é óbvio. Eu falo no livro que a Dilma quando ela ganhou no debate político do Aécio, em 2014, e chama o Joaquim Levi para fazer um ajuste, não foi uma boa escolha. Exageramos nos subsídios no intuito de manter o nível de empregos. Os empresários pegavam o subsídio e usavam para especulação financeira. Isso ajudou a quebrar o Estado. O Lula também, meu companheiro e fui ministro dele. Quando chegamos no governo a primeira vez considerando PT, PCdoB, PSB, PDT dava 140 deputados, longe dos 357, que e a metade mais um. Lula chamou os partidos que eram adversários que nada tinham com nosso propósito. É o sistema político corrompido e corruptor, que é governar pelo capital, que impõe alianças. A emenda foi maior que o soneto. No segundo governo montamos com o PMDB que tinha sido nosso adversário em 2012. É o presidencialismo de coalisão. O Lula foi o cara mais investigado da história do país. Ninguém sofreu a devassa que o que ele sofreu e nunca acharam uma conta no exterior, patrimônio, bens qualquer eu não tenho sido apurado. Lula não se corrompeu. O erro nosso também não foi investir e fazer a reforma política, porque tinha partidos que eram contra e batemos na trave. Mas esse golpe atual, essa tomada de poder da forma que foi feita, contra nossa Constituição. O PT teve muitos acertos, porque nunca fizemos nada a não ser seguir a constituição, as políticas públicas que fizemos, os direitos civis, políticas econômicos, sociais e culturais, tudo estava na Constituição.

 

JU – E as políticas públicas estão acabando?

Nilmário – Estão indo por água abaixo, mas sou otimista e acho que é um pesadelo que estamos vivendo, fruto de entrar o ódio na política, o fake news, a negação e desmoralização das pessoas, a crise gravíssima que o Judiciário inseriu, alguma parte da mídia. Mas nós fizemos muito pelo Brasil, não só nós, mas tudo que veio pós constituinte. A Constituição são princípios gerais e foi um trabalho coletivo que eu e o Lula participou, transformando em política pública e colocar os princípios. E o modelo da construção da democracia para chegar aos mais humildes dos brasileiros e é um crime romper com isso. Agora temos o centro de direita da barbárie, isso não é bom para o Brasil, desfazer da Amazônia, entramos em chacota mundial. O presidente fala eu sou capitão motosserra. As próprias pessoas que o apoiaram estão sendo prejudicadas, o agronegócio agora está sentindo na carne a bobagem que fizeram. Acho que tem de reconhecer o erro e afastar essa pessoa nefasta que está desmoralizando o pais.

 

JU – O senhor acha que ele sai?

Nilmário – Ele não sai por renúncia, sempre falou isso. Mas ele não está traindo, porque sempre falou isso a vida inteira. Temos de ter a capacidade de esquecer erros e fazer uma grande unidade, como fizemos pela democracia. O que temos de melhor é a Constituição, e vamos mantê-la, regenerar o Judiciário, porque não tem democracia sem Judiciário imparcial, soberano e independente, vamos fazer uma reforma política para o Congresso desapegar do capital para um país real e verdadeiro, que em 2022 seja de fato uma alternância de poder, quem ganhar leva, mas com compromisso de regenerar a democracia brasileira, que é nosso bem mais precioso.

 

JU – O senhor acha que o PT volta?

Nilmário – Todos achavam que o PT ia ser destruído, mas ficou com a bancada razoável, manteve quatro governadores, a maior bancada da Câmara Federal. Em Minas tínhamos dez estaduais e mantemos e dez federais e tem oito. Não vai destruir. Está longe disso. Acredito que em 2020 vamos quadruplicar o número de prefeitos, porque na véspera das eleições de 2016 veio a delação do Palocci e utilizaram aquilo para demonizar o PT. Isso passou o raio não cai duas vezes no mesmo lugar. A onda vai e vem e está voltando ao mundo real. Espero que as eleições de 2020 as pessoas não venham dizer o PT é bandido e ladrão. A Dilma saiu e tudo está piorando, e falavam que se tirassem a Dilma tudo ia melhora. Tudo piorou, então vamos discutir quais os melhores vereadores para Uberaba. Vamos construir o melhor caminho e isolar esta direita da barbárie e da selvageria. E a saída do Lula da prisão, ele vai fazer de tudo para que este clima de ódio e destruição acabe. A pior coisa que o país nos deixou, vem da escravidão, do machismo, do racismo, do patriarcalismo, desse autoritarismo nojento. Queremos cada um com sua posição, ideologia, voltar a ter liberdade religiosa, acabar com a intolerância religiosa levada ao paradoxismo.

 

Lula tinha de estar solto há muito tempo, não tinha nem de ser condenado... O ministro da Vaza Jato é uma aberração política

 

JU – O senhor vai ser candidato?

Nilmário – Não, eu sou um educador político. Sou um prop, propagandista, e vou continuar a fazer educação política. Acho que é dever nosso buscar memória e verdade e transmitir para as geração os conhecimentos adquiridos.

 

JU – O que o senhor espera do Brasil?

Nilmário – A democracia está sob ameaça mas não tem volta. O Brasil ser soberano, não tem volta. Este golpe começou em 2014, mas vai passar. O importante é ter partidos, fundamental resgatar a luta pelo bem comum. Sem política não tem democracia, discutir projetos. Estamos experimentando uma experiência quase fascista, essa coisa de armar o povo e a coisa mais insana que já vi. O fascismo começou assim. É obvio que ele está querendo armar milícias políticas, mas acredito muito no papel das mulheres e elas já perceberam que essa pessoa não e só um conservador direitista. Ele é uma pessoa perversa e as próprias evangélicas, que o elegeram, sabem que se ele encher o pais de armas a primeira vítima será a mulher, a segunda, o filho da mulher e a terceira, a vizinha e o filho da vizinha. O Brasil é o país que mais mata mulheres e negros fora da África. As mulheres vão ter papel exponencial nesta próxima etapa.

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