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Artigo

NOSSAS VIDAS NO AMANHÃ

Gaudêncio Torquato

Reflexões

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15/09/2020 04h00
Por: Redação

Um exercício de paciência. Missão de persistência. Uma vida de mais
renúncias. Essas três frases servem para circunscrever nossas vidas no
amanhã. O biólogo e pesquisador Átila Iamarino dá a dica: _"não tem
volta mágica para 2019 sem vírus. É uma adaptação pragmática para
2021 com ele."_ Portanto, devemos já começar a gigantesca tarefa de
fazer as mudanças que se fizerem necessárias para convivermos com os
dias futuros. Urge termos consciência dessa necessidade. Não se espere
pela volta pura e simples aos dias de ontem, com a manutenção de
velhas regras, padrões de comportamento, atitudes e gostos.

A reforma na área dos costumes é uma das mais árduas. Afinal, costume
faz parte da tradição, carrega o _dna _de todo um processo
civilizatório. Mas há de se compreender que a vida segue seu curso e
avança na esteira das descobertas e inovações resultantes das
pesquisas nas áreas da biologia, biomedicina, inteligência artificial
etc. Portanto, qualquer arranjo no sentido de salvaguardar a integridade
da vida é e será bem-vinda, principalmente se olharmos um pano de
fundo cheio de ameaças.

Como lembram os cientistas, o nosso foco será sempre o dos impulsos
inatos aos seres vivos. Analisando as reações do comportamento, Pavlov
se vale do exemplo da ameba para explicar os reflexos do ser humano. A
ameba foge do perigo, absorve alimentos, multiplica-se, forma quistos
dentro dos quais se multiplica em um enxame de pequenas amebas. Por aí,
podemos ter a primeira resposta para a questão da metáfora de guerra,
tão do gosto dos indivíduos. As pessoas, como as amebas, procuram
evitar o perigo e preservar sua espécie. Se um vírus, um Covid
qualquer, aparece de repente ameaçando o fluxo vital, o ser vivo tenta
dele se afastar, matando-o ou tomando as precauções para que ele
desapareça.

A natureza procura conservar a vida, de acordo com dois grandes
princípios: o do soma e o do gérmen. O primeiro, o indivíduo, conduz
o segundo, a espécie; o primeiro é mortal, descontínuo, e o segundo
é imortal, contínuo. Para preservar o indivíduo do aniquilamento,
antes que tenha cumprido a tarefa de transmitir o gérmen da espécie, a
natureza o dotou de dois mecanismos especiais; e da mesma forma, para a
preservação da espécie, proporcionou dois mecanismos. Os primeiros
são os impulsos combativo e nutritivo; os segundos, sexual e paternal.
Eis a base do argumento que sustenta a tese de que haveremos de adotar o
pragmatismo para prolongar nossa preservação. A adaptação à
realidade dos ciclos de vida é condição _sine qua non._

Dito isto, emergem as questões: que mudanças, que novos costumes
adotar, quais as esferas que deverão ser mais impactadas, a individual
ou a coletiva? Com perdão dos amigos da área biomédica, arrisco a
inferir que o rol de adaptações assumirá uma proporção circular,
sistêmica, abrangente, na medida em que os elos da cadeia da saúde de
um povo abrigam mudanças nos padrões e normas governamentais, atitudes
pessoais e comportamentos coletivos. Entidades e pessoas físicas
deverão entrar na composição, operando as políticas de saúde, com
maior controle de cuidados sanitários, programas intensivos de
prevenção, inserção de uma visão interdisciplinar, capaz de
contemplar o Todo e não apenas as partes.

É claro que uma eficaz revolução de costumes depende da chave da
porta do futuro: a educação. Por isso, o sistema educacional, a partir
do ensino de base até os níveis superiores, haverá de focar as
políticas de prevenção e mudança de hábitos, o que implicará
modelagem inovadora nas áreas dos divertimentos, conservação
ambiental, educação, mobilidade urbana, segurança pública,
manifestações coletivas, como eventos de massa. A grita será
barulhenta, prevendo-se, desde já, um discurso crítico aos
governantes, que estariam fazendo censura, opressão à liberdade de
manifestação etc. Mas não se faz reforma sem ponto e contraponto.

Como fortaleza de defesa de uma nova ordem mundial no campo sanitário,
será necessária a chegada ao poder de um núcleo com novas visões,
olhar de estadista, empreendedorismo e coragem para enfrentar os
infortúnios. Só assim a Humanidade será capaz de implantar um
regramento que garanta a sobrevivência da espécie, com destaque para a
vida saudável do planeta, o que exigirá forte intervenção nas
políticas preservacionistas e de melhor distribuição de renda. A
continuar a imensa disparidade de classes, os grupos mais poderosos
haverão de dar o tom maior e, nesse caso, a orquestra mundial ameaça
continuar bastante desafinada.

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