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Artigo

A POLÍTICA NO RESPIRADOR ARTIFICIAL

Percival Puggina

Reflexões

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17/09/2020 04h00
Por: Redação

   Tendo recebido aviso de que estava aberta no site e-Cidadania
do Senado Federal enquete sobre a PEC 33, fui imediatamente dar meu voto
contra. Essa proposta de emenda à Constituição tem por objetivo
atender os anseios de uma banda não muito perfumada do nosso Congresso.
Encaminhada por uma senadora, a medida pretende instituir a
possibilidade de reeleição das mesas do Senado (Davi Alcolumbre) e da
Câmara (Rodrigo Maia). Ou seja, é uma emenda casuísta que só irá
estimular, no comando dos poderes, o clientelismo que os constituintes
quiseram evitar. A informação que recebi dava conta de a rejeição
estar em 99%.

          Coincidentemente, no exato momento em que uma enquete que visa
a informar sobre a adesão ou rejeição popular a proposições
legislativas batia todos os recordes de reprovação, deparei-me com o
aviso de que "A ferramenta de Consulta Pública está em manutenção
para correção da exibição da ementa e autoria das proposições".
Existem coincidências que derrubam todas as probabilidades e mandam o
desvio padrão para outra galáxia.

          Não sei se, como, ou quando a enquete retornará. Tenho aí,
porém, mais uma evidência dos inestimáveis serviços que a pandemia
vem prestando aos abusados e aos abusadores da República. Com a falta
de plenário, com sessões virtuais, com os canais da Câmara, do Senado
e do STF dedicados a morféticos _déjà vus,_ a política foi para o
_home office_.

          Na falta do contraditório, do debate, do aparte, a atividade
política sai das mãos de quem recebeu apoio popular nos entrechoques
eleitorais e vai para os meios de comunicação, que fazem a "política"
deles mesmos, organizando programas em conformidade com suas
conveniências. Assim tem sido ao longo deste quase inteiro ano de 2020,
ano em que a política foi para o respirador artificial.

          O que mais se vê, nestes muitos meses, no Congresso e no STF,
são irreais sessões virtuais transmitidas em quadrinhos. Nelas, os
intervenientes falam desde o aconchego de seus lares em ambientes
blindados à reação alheia. Maia e Alcolumbre não contavam com
ambiente tão propício! Em quase impotente contraposição, políticos,
movimentos, cidadãos, organizam _Lives_ para fornecer algum oxigênio
aos pulmões da política, promovendo um mínimo de contraditório sem o
qual tudo fica com jeito cubano.

          O silêncio tem sido o som da política nas ruas, nos
plenários. Silêncio do povo e seus representantes. Para sua reflexão,
estimado leitor: dentre os poderes constitucionais - legislativo,
executivo e judiciário - quais os que se estão beneficiando desse
silêncio de UTI para visíveis exercícios de autoritarismo e
manipulação?

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