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Cláudio Humberto

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Cláudio HumbertoCláudio Humberto Rosa e Silva é um jornalista brasileiro, colunista e editor-chefe do Diário do Poder, responsável pela ascensão de Fernando Collor de Mello no cenário político nacional. Sua coluna é reproduzida em jornais de todo o Brasil.

13/11/2020 04h00
Por: Redação
Legenda: Baba sanção
Legenda: Baba sanção

Os tempos mudaram e isso é positivo, aliás, muito positivo! Até há pouco, creio que no início da década de 70, Dona Canô, mãe de vários filhos, os mais famosos Caetano e Bethânia, anunciava Gilberto Gil, quando ele aparecia na TV, como “aquele preto que você gosta”, expressão que virou música.

Esse é um exemplo de como está incrustrado, no Brasil, o racismo estrutural. Muitos vão dizer que o tratamento é demonstração efetiva de carinho e afeição, eu divirjo! Pode ser que Dona Canô jamais tenha desafeiçoado de Gil, todavia, não é distinguindo as pessoas pela raça ou cor que se aquecem corações.

Na Bahia, verdadeira Roma Negra nos versos do próprio Caetano, acredita-se que aportaram, no ano de 1530, os primeiros cativos africanos, iniciando o tráfico de escravizados daquele continente para o nosso país, e, em tempos atuais, 82% da população da capital do estado se declara negra ou parda.

Por outro lado, nessa mesma seara, querem censurar e revisar os escritos de Monteiro Lobato – obra clássica que representa um marco na literatura brasileira – e, óbvio, retrato fiel e insofismável de uma época. O racismo e o desdém racial são uma das marcas do escritor e, por certo, devem ser combatidos, todavia, não com censura, ou revisando os textos.

Desta sorte, tanto importa a expressão de descuidado afeto de Dona Canô, quanto o questionável tratamento dispensado por Monteiro, um ícone progressista da cultura nacional, aos negros, em sua obra, especialmente à personagem Tia Nastácia, homenageada por Dorival Caymmi e residente agradável nos corações dos leitores.

Ainda que a crueza e o tratamento racista, evidências do autor e da cultura brasileira – perpetuadora dos ranços do império escravocrata até os dias atuais – dissimulem o racismo em uma cordialidade covarde e mesquinha, longe estamos de sermos diferentes daquele tempo.

Não, o racismo não esmoreceu, nem muito menos deixou de existir e de segregar os pretos descendentes de escravizados africanos. Ao contrário, ele é evidente, nestes tempos, em ações institucionais, a começar pela violência policial, até a oferta de empregos, remuneração e acesso à educação e oportunidades.

O que realça a evolução é a conduta de alguns pretos e uma minoria branca militante, vez que, no Brasil, os brancos ainda tratam negros por “eles” – que reagem, questionam e propõem políticas públicas.

O racismo é latente, consistente e arraigado na sociedade e manter a obra de Lobato sem ajustes da ordem do politicamente correto é necessário: um exemplo de como compreendemos a escravidão, o crime contra a humanidade que ela representou e a falta de ação institucional para repará-la.

Racismo institucionalizado, seja ele externado violentamente, em verso, prosa, ou de maneira elegante e simpática, deve ser combatido com ações, em defesa não de pretos, mas da sociedade da qual fazemos parte.

A dor do preto, ao se reconhecer na personagem (ou personagens) do escritor, deve ser a força motriz para que o Brasil faça um reencontro honesto com a história!

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