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Juba Maria

Juba Maria

Juba MariaJornalista formada pela UFRJ, mãe e poeta, trabalha como Assessora de Comunicação da Infraero. É uma das coordenadoras do projeto AMAi e dá palestras sobre Comunicação Não-Violenta.

22/09/2019 06h00Atualizado há 6 meses
Por: Redação

Dentes nos olhos

Acordei de madrugada, depois de um pesadelo, desejando um gole de vinho. E imaginei alguém para brindar. Era uma solidão lúcida e intensa. Talvez seja culpa dessa minha indolência feminista: não me permito aceitar menos que o merecido. Escrever publicamente é dar a cara a tapa.

Há um escritor, psicoterapeuta francês, que andei relendo. Émile Coué (1857-1926) dizia que só se pode pensar em uma coisa de cada vez. Segundo ele, todo pensamento que preocupa inteiramente o nosso espírito torna-se verdadeiro para nós. A auto-sugestão seria então a influência da imaginação, que supera a vontade e domina nosso inconsciente.

Sendo assim, logo estarei brindando, por ser essa uma tarefa perfeitamente plausível. O que dizer porém de quem atravessa uma depressão? De uma mãe amargurada diante dos passos criminosos do filho? De uma criança em situação de abuso? De uma mulher agredida pelo companheiro? De um homem enfrentando um câncer? Ou mesmo de um idoso acamado no hospital há poucos dias do passamento?

Acordei de madrugada, depois de um pesadelo, desejando paz aos meus. Imaginei minha casa tal como deveria estar. Era um desejo egoísta, mas honesto. Acho que a velha vontade de ser ao mesmo tempo amada e livre nunca me abandonou. Toda mulher tem o direito de se encontrar. O amor não há de preencher vazios. Nem justificar relações baseadas em posse, propriedade.

Sei que há quem me atribua a alcunha de comunista. Outros de liberal. Até já me chamaram perigosa, exótica, insana. A vontade de paz foi o que me salvou. Outros, porém, me atribuem inocência, pureza de alma que não tenho. O que é pureza? Só de uma coisa tenho a certeza: não é a violência que cria a cultura, mas a cultura que define o que é violência.

Acordei de madrugada algo ressabiada. Os pés dormentes. O calor. O filho dormindo no quarto ao lado. A louça por lavar. Em vez de uma taça de vinho, fiz café. Sentei-me para escrever enquanto ouvia Bach. Revisei um texto sobre feminicídio, um conteúdo sobre open banking e conferi os dados sobre violência contra a mulher no trabalho.

Se tem algo que a nossa imaginação não pode jamais conter é a violência que as pessoas podem nos causar. As instituições também podem ferir com suas regras-de-fazer-girar. As pequenas violências nos matam aos poucos. 

Quer saber? Ok que o agressor seja obrigado a ressarcir o INSS pelo tratamento de saúde decorrente de violência contra a mulher. Mas apontar isso como solução é outra violência. Traz consigo o pressuposto de que nós, mulheres, somos um peso para o Estado. Fora que a grande maioria dos agressores sequer tem renda. Os que têm, tratam de esconder o patrimônio. Dar soluções ineficazes é mais um jeito de calar. E de matar lentamente.

Acordei de madrugada com um pensamento: o combate à violência contra crianças, negros, mulheres e idosos deveria interessar-nos mais que comover. Se isso não ocorre, há algo errado. Talvez porque não tomamos as coisas como realmente são, mas como nos parece. E assim nos abstemos. Triste é o homem que não entende e louva a necessidade do feminismo.

Em Uberaba, a violência contra a mulher no trabalho é subnotificada. Conversei com especialistas em saúde do trabalhador que confirmam os inúmeros casos, por exemplo, de trabalhadoras domésticas que sofrem assédio moral e sexual no trabalho por aqui. 

E cada vez mais são registrados casos de violência do chefe para subordinado, entre colegas e mesmo envolvendo uma relação de serviço ou atendimento. As mulheres são a maioria das vítimas desse tipo de violência em Uberaba.

Segundo dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação, de janeiro a julho deste ano, foram registradas 12 notificações de violência no trabalho das quais duas cometidas por homens contra mulheres. No mesmo período do ano passado foram seis episódios. Outros inúmeros casos sequer são notificados.

Só para citar um exemplo, mais de uma servidora do INSS relatou ter sido agredida durante o trabalho em Uberaba. Elas sofreram ameaças, xingamentos, ofensas e intimidações. Todas violências praticadas por homens. Uma das mulheres com quem conversei, recepcionista de uma empresa, ficou apavorada depois que um homem fechou os punhos e chutou a mesa da recepção simplesmente por desejar ser atendido logo.

Procurada para esclarecer os casos ocorridos em Uberaba, a assessoria de imprensa do INSS informou que “não tem conhecimento de agressão física contra servidoras públicas desta Autarquia” e “em caso de agressão, os servidores ou servidoras são orientados a registrar Boletim de Ocorrência na Delegacia de Polícia”

Atenção: agora os profissionais da rede pública e privada de saúde tem 24 horas para notificar a polícia em casos de violência contra a mulher ou até indícios deste tipo de crime. Antes, as redes de saúde já eram obrigadas a notificar casos, mas não havia prazo para essa comunicação. A proposta foi sancionada e tem a intenção de evitar que casos de violência contra a mulher sejam subnotificados.

Em “Vida e Sexo”, psicografado por Chico Xavier, o espírito Emmanuel faz uma breve porém importante observação que abarca os anseios da luta feminista ao partir do pressuposto de que “na balança do progresso e da vida”, os direitos do homem e da mulher irão “se harmonizar pelo mesmo peso”.

Acordei de madrugada e lembrei-me de um trecho de “A chama dupla”, quando Octavio Paz escreve que o amor é uma aposta, insensata, pela liberdade. “Não a minha, a alheia”. Convido os leitores a apostar nessa liberdade e na luta pelo progresso de que falamos, eu, Octavio Paz e Emmanuel, para que o contexto do trecho do poema abaixo um dia se transforme em mera ficção.  

 

Na violência, a genuína violência

Na apavorante obediência do acossado

Depois de golpes no rosto

quais mulheres não choram

como se as lágrimas fossem dentes

enraizadas nos olhos?