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O piano erudito de Dinorah

André Borges Lopes

Binóculo Reverso

Binóculo ReversoEscrito por André Borges Lopes

29/09/2019 06h00Atualizado há 3 meses
Por: Redação

Corria o mês de julho de 1934 e Uberaba estava em festa. Inaugurada no mês anterior, a Exposição Feira Agropecuária espalhava-se pelo amplo terreno da Santa Casa oferecendo atrações inéditas à população: cassino, shows musicais, circo, restaurante e parque de diversões. Nunca antes a pacata cidade havia visto um evento dessa dimensão. Aberta ao público por mais de 30 dias, o enorme sucesso da Feira animou os pecuaristas uberabenses a fundar a Sociedade Rural do Triângulo Mineiro (antecessora da ABCZ) que desde então passou a realizar as exposições anuais de gado zebu.

Mas a agitação não se limitava ao recinto da Feira. Na noite de 11 de julho, a Prefeitura aproveitou a ocasião para receber com pompa uma consagrada artista uberabense. No salão nobre do Paço Municipal da praça Rui Barbosa, apresentou-se a pianista e compositora Dinorah de Carvalho. Nascida em Uberaba em 1º de junho de 1895, Dinorah havia deixado a cidade ainda criança, quando a família mudou-se para a capital paulista. Incentivada pelo pai, músico amador, matriculou-se aos 10 anos de idade no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, onde fez amizade com os colegas Mário de Andrade e Francisco Mignone. Diplomada em 1916, seu enorme talento como pianista não tardou a ser notado.

No final de 1920, o Congresso Legislativo de Minas Gerais lhe concedeu uma bolsa de 20 contos de reis para um aperfeiçoamento na Europa. No ano seguinte, Dinorah já vivia em Paris, tendo aulas com o pianista e compositor húngaro Isidor Philipp. A temporada na França impediu que participasse da Semana de Arte Moderna em São Paulo. Mas, em troca, sua música ganhou os ares do Velho Mundo: em dezembro de 1922, Dinorah e a também pianista e cantora fluminense Sigrid Nepomuceno interpretaram Villa-Lobos e outros autores brasileiros em um concerto que foi transmitido ao vivo pelo recém inaugurado serviço de rádio telefonia da Torre Eiffel.

De volta ao Brasil em 1924, Dinorah foi apresentada por Mário de Andrade ao maestro italiano Lamberto Baldi e incentivada a se dedicar à composição erudita – um território quase exclusivamente masculino na época. Nas décadas seguintes, Dinorah escreveu mais de 60 obras para instrumentos solistas, corais, coral e orquestra, conjuntos de câmara, piano e orquestra, orquestra sinfônica, além de música para teatro e canções. Musicou peças folclóricas e textos de poetas como Menotti del Picchia, Cassiano Ricardo, Carlos Drummond de Andrade e Cecília Meireles. Seu pioneirismo abriu as portas para que outras mulheres se dedicassem ao ofício de compor.

Ao mesmo tempo, consagrou-se também como intérprete, regente e professora. Nos anos 1930, criou a Orquestra Feminina São Paulo, sendo a primeira mulher a dirigir uma orquestra no Brasil. Em dezembro de 1936, compôs as músicas e regeu, no Teatro Municipal paulistano, a produção “Noite de São Paulo” – uma fantasia em três atos com versos de Guilherme de Almeida e textos de Alfredo Mesquita e Mário de Andrade. Na década seguinte, tornou-se a primeira mulher a integrar a Academia Brasileira de Música. Em 1954 recebeu a medalha de ouro do IV Centenário da Fundação de São Paulo por seu trabalho de formação musical das crianças paulistas.

Em 1960 voltou à Europa, dessa vez como convidada do Ministério da Educação e Cultura para uma Missão Cultural, onde apresentou suas obras e as de outros compositores brasileiros. Atuou ainda como crítica musical em jornais paulistas – dentre os quais a Folha de São Paulo – e foi integrante da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte). Faleceu em 1980, muito lúcida e ativa aos 84 anos de idade, vitimada por um enfarte.

Após décadas de relativo esquecimento, nos últimos anos suas composições estão sendo recuperadas por pesquisadores acadêmicos. Não encontrei registro de que ela tenha se apresentado novamente em Uberaba. Mas o programa daquela noite de julho de 1934 reserva uma curiosidade. Dividido em três partes, na primeira e na última Dinorah interpretou peças clássicas de Brahms, Beethoven e Chopin. Na segunda, mostrou composições próprias e, dentre essas, fez a primeira apresentação de um curioso “Estudo só para a mão esquerda”. Infelizmente, a partitura manuscrita dessa peça perdeu-se no tempo.

Quem tiver interesse em conhecer o repertório da virtuose e compositora erudita uberabense pode encontrar algumas de suas músicas no YouTube, buscando pela grafia atualizada do nome: Dinorá de Carvalho.

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