Artigo

As prensas francesas do dr. Edgard

André Borges Lopes

Binóculo Reverso

Binóculo ReversoEscrito por André Borges Lopes

13/10/2019 06h00Atualizado há 4 semanas
Por: Redação

Em maio de 1956, Uberaba celebrou seu primeiro centenário em grande estilo. Por meses, uma comissão nomeada pela Câmara Municipal encarregou-se de organizar as festas, bailes e eventos que – aproveitando o período da Expozebu – estenderam-se por todo o mês. Mas, por pouco, não deu errado: no dia 2, uma tempestade quase impediu a chegada de aviões com convidados e forçou um adiamento no desfile cívico, ponto alto da celebração. O Douglas DC-3 da FAB que trouxe o presidente Juscelino Kubitscheck só conseguiu pousar à noite, debaixo de chuva, na pista de terra do aeroporto.

Em meio à festa, um evento passou quase despercebido. Na manhã do dia 3, Juscelino e o governador Bias Fortes aproveitaram para conhecer uma planta industrial que estava prestes a ser inaugurada. Nos cafundós do alto da Boa Vista, ao lado da linha da Cia. Mogiana, engenheiros e operários completavam os testes na fábrica da Produtos Ceres SA. Na placa da obra, uma ideia da ambição de seu criador: ali seriam produzidos óleos vegetais de algodão, arroz, amendoim, babaçu e soja. Lance ousado para uma cidade interiorana onde a população cozinhava em fogões de lenha com banha de porco e manteiga de leite. E cuja economia dependia da agricultura familiar e dos humores do mercado de gado Zebu.

Por trás dessa ousadia estava Edgard Rodrigues da Cunha. Aos 45 anos de idade, esse uberabense conhecia a realidade local mas, desde cedo, sonhava alto. Nascido em uma fazenda, fora estudar Direito no Rio de Janeiro. Em 1937, voltou e deu início a uma bem sucedida carreira de advogado. Seu pai, Gustavo, havia sido um dos responsáveis por trazer a Uberaba o primeiro caminhão. No negócio de transporte conheceu o empreiteiro Santos Guido e tornou-se gerente da sua serraria. Há tempos, Gustavo planejava montar uma fábrica de rações animais e produtos derivados de milho e mandioca. Em 1941, ele, e os filhos Edgard e Aparício criavam a Produtos Ceres Ltda. Poucos anos depois o pai passou as cotas da empresa para os dois, assumindo a chefia da produção. O engenheiro Aparício continuou na sociedade, mas foi construir a siderúrgica de Volta Redonda. E o advogado Edgar ficou no comando.

No final dos anos 1940, a Produtos Ceres já era uma indústria de destaque na cidade. Havia comprado um grande terreno, onde erguera um moderno galpão projetado pelo engenheiro italiano Ernesto Gullo. Com máquinas importadas dos Estados Unidos, fabricava derivados de milho para uso culinário e uma linha de rações balanceadas para bovinos, suínos e aves. Mas Edgard não estava satisfeito. Alinhado com o espírito desenvolvimentista da época, queria montar uma grande indústria que alavancasse o potencial agrícola da região e oferecesse empregos de qualidade à população uberabense.

Desde meados do século XIX – quando fora inaugurada a fábrica de tecidos do Cassu – tentava-se incrementar a produção de algodão no Triângulo. O uso têxtil do algodão gerava como subproduto grande quantidade de caroços, que eram descartados. Norte-americanos desenvolveram um modo de extrair dessas sementes um óleo que, purificado e desodorizado, servia como alternativa alimentar à gordura animal. Outros grãos, como o amendoim e a soja, também começavam a ser usados com essa finalidade. Como os processos industriais eram caros e sofisticados, poucas empresas (em geral multinacionais) se arriscavam nesse setor. Mas Dr. Edgard não se intimidou e começou a mexer os pauzinhos.

O primeiro passo foi pesquisar. Em contato com fabricantes norte-americanos e europeus, buscou a melhor alternativa técnica e os custos mais atraentes. Acabou fechando negócio com uma empresa francesa, que forneceu as prensas, os equipamentos de purificação e a tecnologia para a produção de óleo. Para levantar o capital necessário, Edgard transformou a Ceres em sociedade anônima. Buscou investidores entre os pecuaristas, a quem oferecia a garantia do fornecimento de “tortas” para alimentação bovina, um subproduto da extração do óleo de algodão. Suas boas relações com JK facilitaram a liberação de linhas de crédito para a importação do maquinário.

Em outubro de 1955, cinco carretas trouxeram do Porto de Santos as novas máquinas. Com elas, vieram técnicos e engenheiros franceses, encarregados da montagem e de treinar o pessoal. No terreno da fábrica, novos prédios haviam sido erguidos sob medida, projetados pelo arquiteto Germano Gultzgoff. No final do ano seguinte,  os mercados do interior do Brasil começavam a receber as latas do óleo de algodão Banquete e do óleo de amendoim Bem Bom. As Indústrias Matarazzo e as multinacionais Swift e Anderson Clayton tinham um novo concorrente.

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