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Juba Maria

Juba Maria

Juba MariaJornalista formada pela UFRJ, mãe e poeta, trabalha como Assessora de Comunicação da Infraero. É uma das coordenadoras do projeto AMAi e dá palestras sobre Comunicação Não-Violenta.

20/10/2019 06h00
Por: Redação

O milagre da sororidade

Parodiando Clarice Lispector, devo dizer: sim, já me aconteceram milagres. Inúmeros. Ora por força do destino, ora por privilégio de classe e cor. Ouso dizer que às vezes sinto a mão que guia. Mas dói ver quantas são as mulheres em cujo o peito ainda habita um buraco de extrema solidão, dor e culpa. Só em Uberaba, de janeiro a setembro de 2019 o número de mulheres atendidas pelo Centro Integrado da Mulher cresceu 10% em relação ao mesmo período de 2018.  Estarão elas sozinhas? Choram? Sofrem? Gritam? Por que não dançamos juntas até uma cura que nos sustente? A a maior parte de nós ainda estamos fragilizadas.... E para lutar no caminho do bem é preciso estar forte e em liberdade: “É uma pena quando vivemos na teimosia, amando quem não nos ama enquanto há tantas pessoas capazes de nos amar”, diz Rebeca, 28 anos. Ela é uma jovem de coração doce e muita vontade de potência.

Está inaugurando um espaço de cura no bairro Beija Flor, em Uberaba. Rebeca convidou Xumaya Xya, indígena da etnia Fulni-ô que mora em Pernambuco, para um ritual xamânico, e lotou o espaço. Rebeca é o retrato de um movimento que está se intensificando em Uberaba, à revelia do patriarcado: mulheres protagonistas estão fazendo uso do sagrado para o fortalecimento e a cura de outras mulheres. E às vezes de homens. Pregam, assim, um modo de vida solidário, participativo, igualitário, de atenção e respeito à diversidade, de defesa da equidade, de luta contra as injustiças no interior das relações sociais. Não se trata de um movimento político, religioso ou da sociedade civil organizada, mas uma experiência espontâneo de vivência da sororidade para fazer frente à incoerência, intolerância e o machismo que parecem vigorar nas ruas, nas escolas e nas residências da cidade das águas claras.

Como diz Xumaya Xya, “em vez de dizer ao nosso espírito que temos um problema, precisamos dizer ao problema que temos um espírito”: exatamente o que essas mulheres estão fazendo. 

Do outro lado da cidade, outra mulher, missionária evangélica, mãe de duas lindas crianças, igualmente sofrida, luta com as forças que tem para se ajudar e ajudar outras mulheres em situação de violência, também buscando doar amor a outras mulheres. Ela procura forças para seguir resiliente, capaz de recomeçar. Usa os recursos que conhece. Amor próprio e aceitação é o que busca tão lindamente, como um girassol atrás da luz. Quero crer que seja real esse desejo por uma ação política transformadora da realidade social de mulheres. Por duas vezes um cobertor de luz me aqueceu, fazendo-me crer que a Inteligência Suprema do Universo é mãe e pai. 

Quero acreditar também que na nova gestão do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher seja possível fazer diferença na vida das mulheres uberabenses que mais precisam. Depois de um tempo fechado, no próximo dia 30/10, às 9h, ocorre a reunião para a posse dos conselheiros. Que a floresta nos ensine a lutar com sabedoria, honrando nossas ancestrais que deram suas vidas para que pudéssemos ter a liberdade de agora. Enquanto isso, as linhas dançam, se cruzam e rabiscam em algum lugar no tempo e no espaço um lugar chamado “Casa do Amor”.

 

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