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Prof. Décio Bragança

Prof. Décio Bragança

Prof. Décio BragançaGraduado em Letras pelas Faculdades Integradas Santo Tomás de Aquino (Uberaba, 1972). Especialista em Metodologia do Ensino Superior pela Universidade Federal de Santa Catarina (Uberaba, 1982. Especialista em Língua Portuguesa pelas Faculdades Integradas de Uberaba em convênio com a UNICAMP (Uberaba, 1987). Cronista de Rádio às quartas feiras e de Jornal quintas feiras, na cidade de Uberaba.

10/11/2019 06h00
Por: Redação

Deixe as crianças cantarem, levante sua voz - Desde muito pequeno, ouvia falar que o Brasil seria o maior do mundo e que as crianças e os jovens são o futuro do país, quase que nos obrigando a ser estudiosos, responsáveis, trabalhadores, respeitosos, obedien-tes. 

 

Deixe o mundo ouvir - Esse futuro, setenta anos depois, não chegou e o Brasil não é o maior e melhor país do mundo. O que aconteceu? Onde foi que erramos? São muitas mortes de jovens e adolescentes e crianças, ora porque são traficantes – mulas do tráfi-co, ora porque são usuários de drogas, ora porque são pobres e negros, ora porque re-ceberam uma bala perdida. 

 

Deixe-os unir suas vozes e alcançar o sol - O fato é que a infância e juventude estão abandonadas e perdidas, sofrendo todas as formas de discriminação e violência. Fize-mos uma Constituição Cidadã invejada por muitos países, construímos tantos códigos e estatutos: da criança e do adolescente, dos idosos, do consumidor, do desarmamento. 

 

Nelas está a verdade - Criamos tantas medidas protetivas para, principalmente, as mu-lheres; inventamos políticas públicas e nada disso funciona, porque também estamos cada vez mais individualistas, moralistas, consumistas, indiferentes, intolerantes, ateus, agressivos, utilitaristas, coisificados, imediatistas, hedonistas, fetichistas, narcisistas, preconceituosos e tantos outros adjetivos indesejáveis. 

 

Que as crianças que vivem em paz cantem - E tudo isso acontece à luz do dia, na cara de todos e dos políticos que poderiam nos representar melhor, tendo o mínimo de consci-ência social. Perder a esperança jamais! Essa esperança é que nos impele a buscar solu-ções e caminhos, alternativas e propósitos. 

 

E aqueles que sofrem dor - Com bases em pesquisas, muitos políticos querem até crimi-nalizar ainda mais jovens, propondo a idade penal de 16 anos, contrariando inclusive o que reza o ECA. 

 

Cantem para quem não canta - O interessante é que não há nenhuma proposta para ta-xar as grandes fortunas e a herança, para cobrar dívidas absurdas das grandes corpora-ções e empresas, além de muita sonegação e lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Por que penalizar a infância, a adolescência e a juventude? 

 

Porque eles desligaram a voz - Com certeza, o universo dos adultos é milhões de vezes mais criminoso, pecaminoso, ganancioso. Daí a concentração de renda, de bens, de ri-quezas, aumentando as desigualdades sempre marginalizando e penalizando a maioria da população. Quem paga a conta do banquete fausto e nefasto foi, é e será sempre o povo, cada um de nós. 

 

Eu canto para me deixar viver - Todos querem a fama, o sucesso, a riqueza e o poder – marcas e valores atuais do culto ao ter – via lavagem cerebral feita pelos meios de co-municação e informação. Infelizmente, muitas crianças e jovens ainda têm de abandonar os estudos para trabalhar, trazendo a reponsabilidade de um adulto. 

 

Eu canto para fazer a mãe sorrir - Há ainda muito trabalho infantil e trabalho escravo, mas isso ninguém se esforça para modificar o quadro. Sem oportunidades e chances e perspectivas, muitos se deixam ou tornam-se excluídos. Excluir é marginalizar. 

 

Eu canto porque é o céu azul - Nesse cenário, a escola passa a ser essencial para a cons-trução da cidadania. Lembro-me sempre do professor Darcy Ribeiro (1922 – 1997) que nos ensinou que a escola, por pior que seja, será sempre melhor do que a rua. Rua não é lugar de crianças e jovens. 

 

E eu para que o mar não me faça sujo - A educação, principalmente a básica, não é le-vada a sério. Daí a multidão dos chamados analfabetos funcionais – fala-se em 65 mi-lhões de brasileiros.  Analfabetos funcionais são as pessoas que reconhecem letras e números, mas são incapazes de entender um texto simples ou realizar uma operação ma-temática um pouco mais elaborada. 

 

Eu canto para quem não tem pão - Não por acaso que há mais livrarias e editoras em Buenos Aires do que no Brasil inteiro. 50% dos alfabetizados, no Brasil, não tem um livro sequer nem nunca leram um livro, segundo o Instituto Paulo Montenegro, que con-sidera analfabetos funcionais os analfabetos e alfabetizados em nível rudimentar e con-sidera alfabetizados funcionais os alfabetizados em nível básico e em pleno nível. 

 

Eu canto para respeitar a flor - O problema do letramento – também em cursos superio-res – é uma questão que tem de ser levada a sério pelas prefeituras, pelos governos esta-duais e federal. Não se trata de desenvolvimento da criatividade e criticidade de nossos alunos, mas de prepará-los para viver e experimentar as diversas situações do dia-a-dia. 

 

Eu canto porque o mundo é feliz - A visão de mundo e das pessoas e das coisas se alte-ra dependendo do nível da educação. Conta-se que num dia qualquer o mestre se encon-trou com três quebradores de pedra. Aproximou-se do primeiro, analfabeto, sobreviven-te, e lhe perguntou o que fazia. Respondeu simplesmente que era um quebrador de pe-dra. 

 

Eu canto para não ouvir o canhão - Aproximou-se do segundo, com curso técnico de quebrar pedras, e fez a mesma pergunta. Respondeu ao mestre que era o melhor quebra-dor de pedras. 

 

Deixe as crianças cantarem, levante sua voz - Aproximou-se do terceiro, com curso su-perior, e fez a mesma pergunta. Respondeu ao mestre que construía escolas, igrejas, es-tradas, moradias. A mesma pergunta com três respostas totalmente diferentes: quebra-dor de pedras, o melhor quebrador de pedras, construtor de cidades.

 

Deixe o mundo ouvir - O que mudou? Mudou a visão de mundo e das coisas e das pes-soas – essa é a função primeira da educação. Sabemos que chega a ser um privilégio ir além do Ensino Médio, entrar numa universidade. 

 

Deixe-os unir suas vozes e alcançar o sol - Ser universitário é construir estradas, igrejas, escolas, cidadania, alteridade – respeito ao outro, empatia – experimentar-se no outro. Sou para mim e sou para os outros – isso não é ideologia como entendem os nossos muitos governantes, mas a criação e formulação de uma consciência social da profissão. 

 

Nelas está a verdade - A educação é o único caminho para a prosperidade e desenvolvi-mento integral do ser humano e, por extensão, da sociedade. Nesse sentido, educação não é gasto, é investimento. Quando é preciso fazer cortes no orçamento dos governos, o primeiro corte acontece nas áreas educacionais e culturais. 

 

Que as crianças que vivem em paz cantem - A lógica dos economistas – lucro e cresci-mento de empresas – está acima da educação, da saúde, da cultura. É possível virar o jogo? Claro, perder a esperança jamais. Investir em educação é uma questão de sobrevi-vência. Há um termo muito importante que define bem essa situação: sinergia. 

 

Eu canto para o jardim ser verde - E eu para que o sol não me desligue - Eu canto para quem não sabe escrever - E eu por quem ele escreve versos de amor - Eu canto para mi-nha voz ser ouvida - E eu para ver se eu os faço pensar - Eu canto porque quero um mundo feliz - As células de nosso corpo abrem mão do que nasceram para fazer para, por exemplo, promover a cura de um órgão, de um membro, de um tecido. Não significa que as células sejam boazinhas, mas é uma questão de sobrevivência. A isso se dá o no-me de sinergia. Sem essa sinergia, a exclusão e junto dela a violência descontrolada a que está sujeita a maioria dos jovens. Nada cai do céu, tudo tem de ser construído soci-almente.

 

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