Artigo

CHATÔ, O ZEBU E A TV

André Borges Lopes

Binóculo Reverso

Binóculo ReversoEscrito por André Borges Lopes

10/11/2019 06h00Atualizado há 1 dia
Por: Redação

Na longa história da civilização, as guerras são fonte de miséria, dor e morte para muitos, mas também de riqueza e glória para alguns. Não foi diferente a Segunda Guerra Mundial, o mais sangrento dos conflitos. Enquanto milhões de jovens – inclusive um punhado de bravos brasileiros – se matavam nos campos da Europa e do Oriente, fortunas eram construídas por aqueles que abasteciam a máquina da guerra. Aqui mesmo na então pequena Uberaba, tão distante do conflito, viveu-se entre 1942 e 1945 a chamada “febre do zebu”. 

As nações em guerra compravam a bom preço no mercado internacional toda a carne que pudesse lhes ser fornecida para abastecer os exércitos e as populações das áreas devastadas. Para estimular a produção, os bancos oficiais brasileiros passaram a oferecer dinheiro farto a juros baixos, aceitando como garantia o próprio rebanho financiado. Ser dono de um plantel de gado tornou-se quase uma mina de ouro. Milhares de pessoas, algumas sem nenhuma experiência na área, deixaram de lado suas atividades para investir na pecuária. No Triângulo Mineiro, já famoso pelo trabalho de seleção de gado indiano, o preço dos reprodutores zebu disparou.

Ainda não se usava o termo “bolha especulativa” para definir esses fenômenos. Mas os brasileiros acompanharam estupefatos a escalada dos preços dos touros e matrizes das raças Gir, Guzerá e Indubrasil, as preferidas na época. Contava-se que o criador uberabense Mario de Almeida Franco havia recusado ofertas de 2,5 milhões de cruzeiros pelos reprodutores Nero e Mundial. Outra pecuarista famosa, Dona Ibrantina Penna, rejeitara proposta equivalente pelo touro Turbante. Como comparação, o orçamento anual da Prefeitura de Uberaba, então com 40 mil habitantes, mal chegava aos 4 milhões. 

Histórias reais eram exageradas e inventavam-se lendas. Num tempo em que não havia inseminação artificial, boatos diziam que o aluguel de um desses consagrados touros zebu para cobertura de um rebanho de fêmeas podia custar 500 mil cruzeiros, dinheiro suficiente para comprar um apartamento de três quartos defronte ao mar no Rio de Janeiro. Alguns “zebuzeiros” alimentavam o folclore promovendo festas suntuosas nas grandes capitais. Corriam histórias fantásticas de que os touros viviam em currais com ar refrigerado, que viajavam de avião para cobrir as vacas, que tomavam banho de champanhe importada.

Um dos grandes responsáveis pela “febre do zebu” foi o jornalista Assis Chateubriand, o famoso “Chatô”, dono do que era então o maior império de comunicação no país: a rede de jornais e revistas Diários Associados. Durante anos, Chatô colocou seus melhores repórteres e fotógrafos para cobrir as exposições e fazer matérias ufanistas sobre as vantagens do gado indiano e os prodigiosos lucros obtidos pela sua criação. Um desses jornalistas era David Nasser que, anos mais tarde, tornou-se sócio do antigo chefe. Num artigo escrito em 1964 para a revista Intervalo, ele conta a razão desse interesse.

Além de dono de jornais, Chatô também era criador de gado e sócio de grandes pecuaristas. No início de 1944, estava encantado com uma novidade que começava a surgir nos Estados Unidos: a televisão. E queria trazê-la para o nosso país. “Preciso que vocês façam uma reportagem sobre o zebu, a valorização do zebu, a febre do zebu. Com o dinheiro do zebu vou montar a televisão no Brasil”, disse ele a Nasser e ao fotógrafo Jean Mazon. Cedeu aos repórteres seu avião particular “Raposo Tavares” e o piloto Antônio Natividade para que fossem atrás da história. A matéria, de várias páginas, foi publicada na revista “O Cruzeiro”, em abril de 1944. Muitas outras se seguiram.

A estratégia não deu certo. Com a guerra chegando ao fim, o Banco do Brasil passou a cortar as linhas de crédito e a “bolha” explodiu. O preço do zebu despencou, rebanhos foram confiscados pelos bancos e inúmeros pecuaristas ficaram com dívidas milionárias. A “crise da moratória” se estendeu por quase uma década. E a chegada da TV teve de esperar.

Finalmente, em 18 de setembro de 1950, Chatô realizou seu sonho ao inaugurar a TV Tupi de São Paulo – primeira estação brasileira de televisão. Um quarto de século depois, a então Rede Tupi de Televisão foi responsável por montar a primeira emissora uberabense. Coincidência ou não, a antiga TV Uberaba tinha como símbolo um zebuzinho.

Nenhumcomentário
500 caracteres restantes.
Seu nome
Cidade e estado
E-mail
Comentar
* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou com palavras ofensivas.
Mostrar mais comentários
Ele1 - Criar site de notícias