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Prof. Décio Bragança

Prof. Décio Bragança

Prof. Décio BragançaGraduado em Letras pelas Faculdades Integradas Santo Tomás de Aquino (Uberaba, 1972). Especialista em Metodologia do Ensino Superior pela Universidade Federal de Santa Catarina (Uberaba, 1982. Especialista em Língua Portuguesa pelas Faculdades Integradas de Uberaba em convênio com a UNICAMP (Uberaba, 1987). Cronista de Rádio às quartas feiras e de Jornal quintas feiras, na cidade de Uberaba.

17/11/2019 06h00Atualizado há 2 meses
Por: Redação

Agir como se fosse impossível fracassar - Ninguém duvida de que estamos vivendo numa desigual e injusta sociedade em busca de libertação e tranquilidade. A paz é produto da justiça que se coloca a serviço da vida e da esperança. Porque somos diferentes, de dife-rentes raças e etnias, comportamentos e culturas, religiões e crenças, não significa que devamos ser cuidados, tratados, respeitados desigualmente. A multiplicidade e hetero-geneidade são enriquecedoras para qualquer organização política e social. O fato é que as condições de vida das pessoas são propositalmente imorais e injustas, porque pre-senciamos e somos vítimas, por exemplo, de uma escandalosa concentração de renda e riquezas, de terras e bens, de poder e domínio, perpetuando os privilégios para alguns poucos e desgraça para muitos. Essa manutenção do status quo, sem praticamente ne-nhuma oposição e resistência, avilta as relações e os salários, apodrece as conversas e as convenções sindicais, mata as pessoas que lutam pelo bem-estar e bem-ser de todos e de cada um. 

As palavras podem curar a alma que sofre - As distâncias entre as pessoas vão sendo aumentadas na medida em que crescem as possibilidades de consumo, a ganância de sempre ter-mais. Os horizontes de uma esperança de uma vida saudável para todos fi-cam cada vez mais distantes. Os caminhos da fraternidade e igualdade parecem cada vez mais perigosos e tortuosos. Os líderes e os utópicos desapareceram. Em poucos anos, os nossos comportamentos e atitudes se modificaram rapidamente. A título de exempli-ficação: não mais de cinquenta anos, todos nós nascíamos em casa ao lado do pai, dos avós, dos filhos, dos amigos, sob a supervisão de uma parteira; não mais de cinquenta anos morríamos em casa ao lado dos filhos, dos netos, dos amigos, normalmente com orações e cantos. Bastaram cinquenta anos para se nascer na solidão de uma sala de ci-rurgia e morrer numa sala de UTI em solidão. No fundo, houve uma modificação do jei-to de nascer e de morrer. 

Os anos enrugam a pele, mas não a alma - Isso para dizer que a solidão – estar sem – passou a ser a marca registrada desses tempos modernos, apesar dos avanços dos com-putadores e das redes sociais. Solidão aqui significa individualismo – cada um por si. Não existe sociedade, coletividade, bem-comum no individualismo. Foi esse individua-lismo que fez nascer o capitalismo, o mercado – tudo e todos têm um preço. Tudo virou mercadoria. Fala-se muito hoje em resgatar a dignidade humana e a ética. Será isso pos-sível? Infelizmente, para alguns é melhor a vida do que a solidão, uma vida sem sentido, um sofrimento sem perspectiva. Daí o crescente número de suicídio. Estamos, sim, vi-vendo uma crise de valores, uma crise de humanismo, já que todos nos sentimos coisifi-cados, enquanto, por exemplo, a riqueza é sacralizada. Numa sociedade desigual como a nossa, poucos têm muito e muitos têm pouco. A perversidade do mercado reside exata-mente nisto: como ser quando se valoriza tanto o ter? 

A gula começa quando deixamos de ter fome - Nesse sentido, o amor se confunde como sexo, a educação com diplomas, a fé com religião, justiça com leis, trabalho com empre-go, sabedoria com escolas, transcendência com ritos e rituais. O amor, a educação, a fé, a justiça, o trabalho, a sabedoria e a transcendência criam a paz tão desejada. Infeliz-mente, lutamos por sucesso e a fama, por bens e riquezas, por poder e domínio. Ser pessoas é ter a possibilidade de relacionar bem consigo mesmo, com os outros homens, com todos os outros seres vivos e não vivos, com Deus, simultaneamente. Queiramos ou não, o ser humano é um ser de relações, por isso único, intransferível, inédito, intei-ro, dependente, independente, codependente, interdependente, intersubjetivo, protago-nista. A solidariedade consciente e consentida gera saúde e vida. Há ainda muitos ho-mens que sofrem no corpo e na alma. 

Dificuldades são oportunidades - Vivemos meio que anestesiados, fascinados com as luzes e cores e sons do consumo, esquecendo-nos dos outros. Empatia – sofrer com os outros como se fosse consigo mesmo – nem pensar. Que cada um carregue a sua cruz! Que cada se dane!  As lágrimas e as dores dos outros, por exemplo, via meios de comu-nicação e informação, muitas vezes viram espetáculo para os nossos olhos e coração. Quem nunca riu de um tombo de um idoso ou de uma criança? A desgraça dos outros é motivo de felicidade e alegria. Observe as videocassetadas! A desgraça dos outros nos consolam. Há muitos sofrimentos físicos, psíquicos, sociais, espirituais no nosso meio. Pensamos que o nosso sofrimento e dor e perda são maiores do que os sofrimentos e dores e perdas dos outros. 

Um amigo nunca tem pena de você - Conheço um juiz de família que sempre, ao fazer um divórcio, litigioso ou não, pede um compromisso aos envolvidos de nunca, para ninguém, falarem os motivos da separação, porque haverá sempre alguém que diz: “só por isso? – Minha mulher faz muito mais coisas que a sua – Meu marido é muito mais safado do que o seu”. Ninguém tem compaixão, empatia, piedade, misericórdia nem está disposto a perdoar, a tolerar o outro. Percebemos e sentimos o outro como adversário, rival, inimigo que tem de ser eliminado e não como parte integrante, como possibilidade de construir com o outro uma humanidade amiga e fraterna. Sou para mim e sou para os outros – nos ensinam os grandes filósofos e sábios da alteridade, principalmente por causa de nossa sobrevivência, sinergia, cumplicidade, fragilidade, mortalidade. 

Problemas que se resolvem com violência nunca ficam resolvidos - Viver é, em síntese, deixar-se por inteiro nos outros, para os outros, para o bem dos outros. Nesse sentido, viver é esvaziar-se de si mesmo. Não por acaso as pessoas sábias não se cansam de afirmar que viver é ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore – preservar a vida e os valores da vida, preservar a arte e a cultura, preservar a natureza. Vez e outra brinco com os meus muitos amigos espíritas, reencarnacionistas, que ninguém volta ao mundo num outro ser ou pessoa já que ninguém sai do mundo, porque as pessoas se deixam nos filhos, nas árvores, nos livros – essa é a nossa herança, nossa prova de amor, de gratuidade da vida. A vida é uma corrida de revezamento. Viver é conviver. Mesmo sabendo termos nascido na solidão de uma sala de hospital e vamos morrer na solidão de uma UTI, nascemos para viver com os outros, pelos outros – presença dialo-gante.

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