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Política

Renasce o sonho da emancipação do Triângulo

A proposição é que seja um Estado Modelo, criado na era digital, com poucos órgãos e poucos deputados

17/11/2019 06h00
Por: Redação
Em nome de interesses pessoais, e de favores oferecidos pelo governo estadual, nossos políticos esquecem de lutar por um bem maior, traindo a causa triangulina, diz Bilharinho
Em nome de interesses pessoais, e de favores oferecidos pelo governo estadual, nossos políticos esquecem de lutar por um bem maior, traindo a causa triangulina, diz Bilharinho

 

Maria das Graças Salvador

Se engana quem imagina que o movimento de emancipação é uma coisa do passado, a ser tratado apenas em livros de história. Ele ainda está vivo, lutando em prol da construção de um estado que atenda aos anseios da grande maioria da população da região. Um antigo sonho que volta a ser ventilado por lideranças do Triângulo Mineiro, a separação da região em um novo Estado. Novamente, o povo do Triângulo, que sempre quis transformar a região em estado independente, volta a sonhar.

E este anseio ressurgiu durante a terceira reunião do Movimento Pacto Federativo – Oportunidades para o Triângulo, realizada no dia 9, em Uberaba. Este movimento surgiu no dia 7 de setembro deste ano. As duas primeiras reuniões foram realizadas em Uberlândia e Araguari e um quarto encontro está previsto para acontecer em Patos de Minas. Em dezembro está prevista a entrega de documento final ao vice-presidente da República, general Hamilton Mourão, durante audiência em Brasília. 

O movimento tem à frente prefeitos e lideranças da região do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, rumo à melhor eficiência na aplicação dos recursos públicos, dentre outras importantes reivindicações. Seu principal objetivo é descentralizar o poder para os estados e municípios decidirem seus próprios gastos. Defende, ainda, a criação do Estado do Triângulo.

O médico, ex-deputado federal constituinte e ex-vice-prefeito de Uberlândia, Francisco Humberto de Freitas Azevedo, o “Chico Humberto”, participou do encontro e fez um breve relato das dificuldades enfrentadas pela mobilização anterior em defesa do Estado do Triângulo. “Após 31 anos de atraso, agora, com a discussão do novo Pacto Federativo, o momento é oportuno, tanto para o surgimento do nosso Estado quanto para novos critérios de distribuição de recursos aos municípios”, diz.

Especificamente sobre o Estado do Triângulo, a proposição é que seja um Estado Modelo, criado na era digital, com poucos órgãos, poucos deputados, de baixo custo e com bons serviços. “Não podemos lutar para criar um estado ineficiente, apenas para ser mais uma estrela na bandeira nacional”, diz o texto elaborado – após a realização das duas primeiras reuniões – e que contém os pontos reivindicados pelo Movimento até agora e que será protocolado e entregue em Brasília, no dia 4 de dezembro, incluindo mais pontos após o quarto encontro.  

Porém, o projeto de transformar o Triângulo em Estado é antiga e tem defensores da história da região. “O Triângulo Mineiro há muito tempo merece ser independente, é uma região rica e fica muito afastada da capital, essa separação seria muito benéfica, por exemplo, para o futebol e no cenário político principalmente. No cenário político ajudamos a eleger um governador que governa muito mais para os lados da capital e o Triângulo Mineiro fica esquecido. No futebol é a mesma coisa, os times daqui não têm muita evidência no cenário estadual”, avaliam os separatistas.

 

Uma luta antiga

O primeiro registro da emancipação do Triângulo Mineiro foi em 1835, movimento idealizado pelo fazendeiro e líder político de Araxá, Fortunato Botelho. Em 1857 foi a vez de moradores do Prata fazerem outra campanha. 

Em 1877, 20 anos depois, o jornalista e médico francês Henrique Raimundo de Genettes defendeu novamente a ideia, em Uberaba, época que a região ainda era Sertão da Farinha Podre e passou a se chamar Triângulo Mineiro. A proposta não foi para frente, porque a esposa de Genettes faleceu e ele largou tudo e se mudou para Goiás, onde virou padre.

 O escritor e historiador Hidelbrando Pontes faz a proposta renascer em 1906 e realiza campanha em Uberaba e Araguari e funda o partido separatista, que surgiu graças ao inconformismo da população diante da mudança do 2° Batalhão de Polícia para Belo Horizonte, e também da retirada do Instituto de Zootecnia, que também migrou para a capital mineira.

Já em 1919, o médico e escritor Boulanger Pucci fundou o jornal “A Separação” e reacendeu o movimento. Mas a tentativa da emancipação mais uma vez arrefeceu, desta vez com o fechamento do periódico, que durou somente dois anos.

Durante o seu Governo, em 1930, o presidente Washington Luiz até tentou convencer seu ministério a criar o estado do triângulo. Mas, com a entrada de Getúlio Vargas, o movimento ficou sufocado durante os anos do Estado Novo. Porém, em 1940, o movimento ressurgiu, com o jornalista Ari de Oliveira, que lançou o livro “Azul do Triângulo Mineiro”, que continha um levantamento total de tudo que havia na região.

O deputado federal e escritor Mário Palmério, leva a proposta para a Câmara Federal, em 1950, e o movimento ganha força. No dia 28 de junho de 1951, Palmério faz um discurso na Câmara defendendo a separação. “Não há, no movimento de emancipação do Triângulo Mineiro, intenção alguma de menosprezar governos ocasionais de nosso Estado. Há mais de 60 ou 70 anos existe tal movimento, aliás perfeitamente legal, pois está amparado em dispositivos constitucionais que permitem aos Estados se desmembrarem, se anexarem e criarem novos territórios... Defendo o movimento de emancipação do Triângulo por ser movimento nacional... Viso o progresso da região em que nasci e onde trabalho modestamente em benefício de seu desenvolvimento material e, sobretudo, cultural. Palmério também publicou matérias sobre o assunto nos jornais da Câmara. Entretanto, o movimento durou até 1956 e esfriou com a eleição de Juscelino Kubitschek para a Presidência da República.

Mais uma vez a ideia voltou 18 anos depois, em 1968, quando as associações comerciais de Uberaba e Uberlândia se unem e relançaram um novo movimento, muito organizado, com publicações e reuniões em congressos lideradas pelo então prefeito de Uberaba, Hugo Rodrigues da Cunha, e pelo político Ronan Tito, em Uberlândia. Segundo o advogado e escritor Guido Bilharinho, Hugo tinha uma noção muito boa do Triângulo Mineiro, que é uma região realmente singular, não uma região mineira. O motivo principal da emancipação era o problema com os impostos. O movimento adormeceu, mais uma vez, só que serviu para congregar as pessoas mais interessadas.

 

Movimento bem organizado

Em 1987, o então deputado Chico Humberto, que participou da reunião em Uberaba no sábado, dia 9, fez sua campanha que tinha como slogan “Minas no Congresso”. Esse movimento foi liderado por ele e pelo comunicador Ney Junqueira, que era dono da TV Uberaba – então repetidora da TV Manchete. Ney criou a Coordenação Geral para a Emancipação do Triângulo e a campanha junto à população também foi maciça, contando com as publicações de uma revista mensal com circulação de oito mil exemplares, chamada Revista do Triângulo. Também foram confeccionadas cartilhas para serem distribuídas nas escolas, e anúncios que foram fortemente vinculados na imprensa da região. Foi um movimento bem organizado e  que tinha um projeto que dividia o Triângulo em nove sub-regiões e idealizava que Nova Ponte seria a capital do Estado, por ser uma cidade pequena, onde há um rio que imita Brasília e por ficar bem no centro do Triângulo. Uberaba, Uberlândia, Patrocínio, Patos de Minas, Araxá, Araguari, Ituiutaba e Paracatu seriam as cidades mais importantes, mais desenvolvidas do Estado. Cogitou-se, ainda, que em caso de vitória, seria definida como capital provisória a cidade de Araxá, com o Grande Hotel servindo como palácio do governo. Após serem convocadas eleições, começaria então a construção da capital, em Nova Ponte. No entanto, faltou idealismo para os deputados da região, porque interesses dominantes não abrem mão e eles usam de todas as armas para não deixar isso acontecer, além de então governador de Minas, Newton Cardoso, ter impedido.

Em 2007, o então deputado federal e atualmente deputado estadual em Minas Gerais, Elismar Prado, apresentou um decreto legislativo sugerindo a realização de um plebiscito na região do Triângulo e Alto Paranaíba, sobre o desmembramento. Em maio de 2012 a Câmara determinou o arquivamento da proposição.

Em 2016 quem levantou a bandeira novamente foi o então deputado estadual Tony Carlos e fez um barulho grande, inclusive nos jornais da capital mineira. Tony lembrou que o movimento, que sempre existiu, sofreu uma forte queda por conta da Constituição de 1988 e que o Congresso Nacional apoiou a criação do Estado de Tocantins, mas negou a emancipação do Triângulo. “A ideia faz sentido por conta das ‘eminentes diferenças’ entre a cultura mineira e a do Triângulo. Quem já passou pelas cidades da região sabe que é diferente. O sotaque, a comida. Respeitamos muito Minas Gerais, mas a cultura não tem nada a ver”, disse Tony. “A região é muito rica, então é claro que Minas não quer perder a ‘galinha dos ovos de ouro’. Mas vamos continuar defendendo a emancipação”, ressalta Tony.

E agora o movimento ressurge com o Movimento Pacto Federativo – Oportunidades para o Triângulo.

 

Sempre sob controle

O Triângulo Mineiro pertencia inicialmente à capitania de São Paulo, juntamente com Minas Gerais, Paraná, Mato Grosso e Goiás. Em 1720, Minas Gerais se emancipou, mas o Triângulo, Goiás e Paraná continuaram pertencendo à província de São Paulo. Em 1748, Goiás conseguiu se emancipar de São Paulo e levou consigo o Triângulo. Só em 1816, Dom João VI, a pedido de um grupo de fazendeiros, líderes políticos e comerciantes de Araxá, separou o Triângulo de Goiás e o anexou a Minas Gerais. Eles alegavam que Ouro Preto, capital da época, era bem mais próxima do Triângulo do que de Goiás.

O estado do Triângulo, com 66 municípios, é uma proposta para uma nova unidade federativa do Brasil. Se criado, o novo estado teria uma área de 90 545 km². O Triângulo Mineiro teria plenas condições de se manter e se estruturar, porque esta é uma das regiões mais ricas e de maior e mais consistente progresso econômico do país, seja na área industrial, seja no setor da agropecuária. 

 

Porque não emancipar?

O advogado Hugo Cesar Amaral questiona há muito tempo; “se o altivo povo do Triângulo deseja um estado próprio, se a Constituição Federal admite tal emancipação e se a região é estruturada economicamente, o que falta para o Estado do Triângulo converter-se numa realidade?” Para ele falta engajamento político das lideranças triangulinas, preferindo manter uma relação quase de subordinação ao governo estadual, a quem interessa a manutenção do Triângulo sob os domínios mineiros.

“Não se trata de nutrir uma aversão ou rivalidade com estado de Minas Gerais, cuja cultura e história sempre hão de ser louvadas e respeitadas, mas apenas de se reconhecer a força e o potencial econômico das cidades da Região do Triângulo, bem como a sua distinta identidade histórica, a qual não teve a mesma formação do restante do Estado. O povo do Triângulo é maduro e empreendedor o suficiente para desejar o poder de se governar e determinar seus destinos”, avalia. 

Para o advogado, escritor e historiador Guido Bilharinho, figura que sempre esteve engajada na questão da emancipação da região, “o Triângulo não é paulista, goiano, nem tão pouco mineiro! Esta é uma região singular, cheia de particularidades que nos distinguem destes demais estados” afirma. Segundo ele, o Triângulo nunca teve, em tempo algum, identificação com os estados a que pertenceu, tendo sido anexado aos mesmos por se tratar de uma região estratégica, no centro de inúmeras passagens e confluências. “Nos primeiros séculos, a questão administrativa poderia justificar a inclusão do território em outras províncias. Hoje, entretanto, nossa região é auto sustentável”, explica Guido. O historiado avalia que a realidade é que o Triângulo Mineiro figura hoje como uma das regiões de progresso mais pujante do estado de Minas Gerais e, por uma questão puramente egoística, em caso de um plebiscito em todo o Estado, seria esperado que as populações das outras regiões deliberariam maciçamente contra a proposta da separação uma vez que hoje as atividades industriais, agropecuárias e comerciais existentes no Triângulo geram para Minas Gerais um descomunal volume de divisas oriundas de impostos, os quais não retornam aos municípios triangulinos na mesma intensidade em que vão. O Triângulo Mineiro pagaria um alto preço por ser rico e progressista, pois se esta região fosse pobre e subdesenvolvida não haveria quem se opusesse à separação.

“Em nome de interesses pessoais, e de favores oferecidos pelo governo estadual, nossos políticos esquecem de lutar por um bem maior, traindo a causa triangulina”, diz Bilharinho. E acrescenta que o próprio estado de Minas Gerais trai a sua história, negando o direito do Triângulo de se emancipar. “Minas, muito justamente, conseguiu sua emancipação do estado de São Paulo, podendo então desenvolver-se” esclarece, dizendo ainda que aquele que é contra a emancipação do Triângulo é automaticamente contra a emancipação mineira, visto que ela se deu pelos mesmos motivos.

Economicamente a divisão faria com que os impostos arrecadados na região (cerca de 20% do total arrecadado em Minas) sejam aplicados em sua totalidade na região, já que apenas 3% do total arrecadado no estado é aplicado dentro do Triângulo. “Queremos nos auto-gerir. Nunca precisamos deles. Nossas relações econômicas com Belo Horizonte são mínimas!” revela.

E lembra que os contrários à separação usam o pretexto de que o Triângulo, como região extremamente rica, deveria ajudar no desenvolvimento das regiões mais pobres do estado. “O responsável por estes desníveis regionais é o próprio estado, além do que, uma região menos desenvolvida não necessita de esmolas, mas sim de políticas públicas que ataquem as causas da pobreza”, reflete.

Mas o movimento pode esbarar, mais uma vez, no governador. Um dia após as eleições, antes de tomar posse, o governador Romeu Zema, que é de Araxá, se declarou contra a emancipação, ao ser questionado: “Como já diz o poeta, Minas são várias. Sou de uma cidade que fica entre o Triângulo Mineiro e o Alto Paranaíba. Nasci mineiro e vou morrer mineiro. Nós, do Triângulo, levamos a condição de mineiros até no nome da nossa região. Serei o governador de todos os mineiros. Do Triângulo ao leste, do norte ao sul. Num momento de crise, falar em se criar um novo Estado, com toda a estrutura governamental, constituir Três Poderes, é completamente fora da realidade”. E a luta continua. 

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