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Prof. Décio Bragança

Prof. Décio Bragança

Prof. Décio BragançaGraduado em Letras pelas Faculdades Integradas Santo Tomás de Aquino (Uberaba, 1972). Especialista em Metodologia do Ensino Superior pela Universidade Federal de Santa Catarina (Uberaba, 1982. Especialista em Língua Portuguesa pelas Faculdades Integradas de Uberaba em convênio com a UNICAMP (Uberaba, 1987). Cronista de Rádio às quartas feiras e de Jornal quintas feiras, na cidade de Uberaba.

01/12/2019 06h00
Por: Redação

Olha o que foi meu bom José - Em tempos de Advento, quero refletir um pouco sobre as festas natalinas, além de seu sentido comercial. Acredito que, talvez o primeiro gran-de erro da humanidade aconteceu quando se dividiu o homem em duas partes: corpo e alma, matéria e espírito. O UM é sempre indivisível e imultiplicável; se dividido por ele mesmo será sempre um e se multiplicado por ele mesmo será sempre um. E o homem é um, porque único, irrepetível, intransferível, inteiro, todo, cheio de si mesmo, como to-dos os seres, inclusive Deus. Nas lições de catecismo nos ensinavam: o Pai é Deus, o Fi-lho é Deus e o Espírito Santo é Deus. As crianças se agitavam e perguntavam ao cate-quista se havia três deuses. E o catequista, meio sem jeito e explicações, nos dizia que são três Pessoas em um só Deus – eis o mistério da Trindade-Una ou da Unidade-Trina. 

Se apaixonar pela donzela entre todas a mais bela - O Pai é Deus sem ser o Filho e o Espírito Santo; o Filho é Deus sem ser o Pai e o Espírito Santo; o Espírito Santo é Deus sem ser o Pai e o Filho: 1 x 1 x 1 = 1 ou 1 ÷ 1 ÷ 1 = 1. O que seria o corpo sem alma? O que seria a alma sem o corpo?  Dividir o homem em corpo e alma, privilegiando históri-ca e culturalmente a alma – o espírito – trouxe para a humanidade muitos interesses ocultos e intenções ocultas dos poderosos da política, da religião, da economia. Assim, o corpo poderia estar faminto, com sede, sem moradia, malvestido, malnutrido, mal dor-mido, maltratado, desprezado, humilhado, exausto, cansado, debilitado, sem saúde, sem dignidade, porque o que importava era a salvação da alma. 

Casar com Deborah ou com Sarah você podia - Até hoje, em alguns canais de televisão de caráter religioso, ouve-se falar: “dê-me almas” – “salve-se a alma” – “vamos salvar a sua alma” e tantas outras absurdidades, como se o corpo não valesse nada, fosse inútil, lixo. Esse dualismo, essa dicotomia, essa separação, essa divisão do homem em corpo e alma atende aos muitos interesses econômicos. O interessante é que num tempo atrás as mulheres eram consideradas seres sem alma com a única missão de procriar, de parir – nascimento do machismo – o homem como ser superior. Aqui, no Brasil, demorou al-gum tempo para que os índios e depois os negros fossem admitidos como seres alma-dos. Daí a ideia de o homem poder escravizar, maltratar, comprar, vender, matar mu-lher, índio, negro. Por isso as lutas das mulheres, dos índios, dos negros para alcança-rem e serem tratados com dignidade são enormes e incansáveis, fugindo da submissão, da sujeição, da humilhação, da exploração. 

E nada disso acontecia, mas você foi amar Maria - As primeiras lutas são de resistên-cias. As primeiras conquistas são de esperança. Foi um escândalo para os conservado-res e ortodoxos e reacionários e fundamentalistas religiosos do mundo inteiro quando o Papa Francisco, ao consolar uma criança que encontrou morto o seu cachorrinho de es-timação, disse que o cão havia ido para o céu. E por que o escândalo? Porque pensamos que o céu é um “lugar” de almas e como o cão não tem alma, não poderia ter ido para o céu. Um tempo atrás pensávamos que mulher, negro e índio também não poderiam ir para o céu por não terem alma, eram simples coisas, objetos. Para mim, nunca foi pro-blema entender que pessoas, animais, vegetais, minerais, tudo tenha alma, porque vida. 

Você podia simplesmente ser carpinteiro e trabalhar - Todos os seres vivos e não vivos formam uma unidade, uma família cósmica única, como entendeu e nos ensinou Francis-co de Assis (1182 – 1226). Daí considerar tudo como irmãos: Irmão Sol, Irmã Lua, Irmã Água, Irmã Terra, Irmão Ar, Irmão Fogo, porque filhos do mesmo Deus-Pai e Deusa-Mãe – porção paterna e porção materna de um mesmo e único Deus. Tudo está em Deus e Deus está em todas as coisas. Somos um com tudo e com Deus. Nada existe fora do todo. Não por acaso, na Teoria do Big Bang, é afirmado que tudo provém de uma única partícula – o átomo primordial – que causou um cataclismo cósmico há quase 14 bi-lhões de anos. Para muitos e para mim também, essa partícula única tem de ser chamada de Partícula de Deus. 

Sem nunca ter que se exilar, de se esconder com Maria - Cada átomo, cada molécula, cada célula, cada ser é uma Partícula de Deus. E porque eterno – sem tempo, sem ontem, sem hoje, sem amanhã – tudo continua em expansão. Mas isso é panteísmo, criticarão alguns. E daí? Deus é a força, a energia, a garra, a vontade, o desejo que une tudo no mesmo universo. Vivemos, hoje, talvez a maior crise de valores de todos os tempos, porque também perdemos a noção dessa irmandade universal. Crise são momentos de crescimento e vida, superando dogmatismos e sectarismos, radicalismos e intolerância, renovando propósitos e metas, concepções e fé, optando pelo bem e confiança, pelo no-vo e amor. Não há caminhos, fazem-se caminhos enquanto se caminha na utopia e na esperança. Estamos perdendo o sentido do sagrado da vida e da história dos homens. Gosto muito da ideia de entender Jesus como Emanuel – Deus conosco. 

Meu bom José você podia ter muitos filhos com Maria - Em outras palavras, o Natal me traz a ideia de que não estamos sozinhos, porque Deus nasceu para estar conosco. Dizer que Deus está conosco – Emanuel – é entender a solidariedade internacional, a coopera-ção de todos os homens, a luta pelos direitos de todos e de cada um, o respeito devido à natureza e a todos os seres vivos e não-vivos, a ética na política, a justiça como dever e meta, a paz e respeito nas relações entre todos, mesmo que de diferentes raças e nações e culturas e cores e credos e opções. A santificação de Irmã Dulce, para nós, brasileiros, traz um sentido essencial e fundamental para quem precisa de amizade, de solidariedade, de carinho e de amor. Há ainda muita fome e miséria, muitas doenças e mortes prematu-ras, pessoas que nascem, vivem e morrem sem a presença de um coração que ama, de um braço que acolhe, uma perna que indica caminhos. 

Por que será que seu filho andou com estranhas ideias que fizeram chorar Maria - Há muitos excluídos no mundo e no nosso país, porque vivemos momentos do “vale tudo” para o poder e riquezas, bens e fama, sucesso e domínio. Fazemos questão de não nos aproximar de nenhum deles. Sem contato com as pessoas necessitadas com existem possibilidades de compreensão e ajuda. O único critério de salvação e libertação é o amor. Com a aproximação do Natal – humilhação de um Deus que se encarna para o nosso bem e libertação – vamos pensar na possibilidade mínima de que no próximo Na-tal haja menos excluídos. Para tanto, pensemos na gratuidade da vida e do amor – expe-riência do sagrado, do divino na nossa vida, já que nos todos e muitos natais o céu des-ceu, Deus se fez homem, como nós.

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