Artigo

Fernando Cunha

Jornalista e palestrante

Reflexões

ReflexõesArtigos diários

03/12/2019 06h00
Por: Redação

O discurso pirotécnico

A música é envolvente, as luzes dão um colorido ao show, o calor humano é inevitável, a energia é vibrante. Todos entram no clima e, rapidamente, se esquecem do mundo lá fora. As emoções começam a borbulhar. Alguns dão gargalhadas de tristeza. Outros choram de alegria. Um mix de sentimentos transita entre todos que, naquele momento, se sujeitam a fazer tudo (ou quase tudo) que o apresentador manda. Os posts nas redes sociais dos participantes mostram pessoas determinadas, otimistas e crentes de que, a partir de agora, tudo vai mudar. A vida será diferente. O mindset agora é outro. A abundância supera e escassez, a saúde vence a doença, o amor destrói definitivamente o ódio. A vida passa a ser o máximo. Até que a representação acaba e todos vão para casa. No dia seguinte, é vida que segue normalmente!

Assim como eu, você já deve ter assistido a alguns eventos que somente nos alucinam e nos entorpecem com seus enormes telões, luzes, efeitos visuais, música alta, frases impactantes gritadas ao microfone e dinâmicas totalmente sem sentido. Diferentemente das verdadeiras palestras motivacionais que, diante de nossos inúmeros problemas, desafios e oportunidades, nos apontam caminhos a percorrer e nos motivam à ação em busca de um propósito maior. Daí o termo “motivação”, que significa ter motivos para a ação. Muita gente confunde palestra ou discurso motivacional com pirotecnia verbal, a qual tenho o costume de chamar de “palestra animacional” que, apesar de também ser envolvente e divertida, não transforma e nada contribui com o nosso desenvolvimento.

Quando nos comunicamos com alguém ou discursamos, temos a possibilidade de levar os nossos interlocutores ou espectadores a tomar três atitudes: 1) deixar tudo como está; 2) retroceder; 3) dar um ou mais passos à frente. Como oradores, devemos escolher sempre a terceira opção. Por mais que nosso discurso seja carregado de eloquência e palavras potentes, transformacionais, de nada servirá se não fizer as pessoas tomarem atitudes importantes em suas vidas, seja para evoluir na carreira, cumprir uma meta impossível ou salvar um relacionamento. Como líderes, multiplicadores, apresentadores ou palestrantes, temos somente animado as pessoas com as quais nos relacionamos ou temos motivado elas a agir?

Informação é algo que oferecemos para ajudar as pessoas a desempenharem bem o seu trabalho. Comunicação efetiva é a informação acrescentada de incentivo para que as pessoas desempenhem melhor as suas funções e, além disso, retransmitam aos outros por acreditarem que também fará bem a eles. Os seres humanos precisam de inspiração clara, objetiva, específica e positiva. Informação sem motivação não funciona. Motivação sem propósito é só animação. O calor da animação dura pouco, é efêmero. Motivar é colocar mais lenha na fogueira. É tirar das pessoas o melhor delas. É proporcionar transformações que durarão para sempre em suas vidas e na vida daqueles que convivem com elas.   

O uso frequente de perguntas e frases que inspiram, incluindo o “nós” na solução dos problemas, é um caminho. Por exemplo: ao dizer “sei que você consegue resolver essa questão”, acrescente “estou confiante de que resolveremos essa questão”. Ao fazer um comentário ou discurso motivacional, não diga: “você deve atingir as metas”. Diga: “acredito que juntos somos capazes de atingir e superar essas metas”. Percebe a diferença? Ao invés de dizer, simplesmente “eu não tive tempo de ler seu relatório”, diga “aprecio a maneira como analisa as coisas, por isso estou buscando um tempo maior para analisar melhor o seu relatório”. Os exemplos são inúmeros, mas não é só o ato de recitar frases prontas e animadoras. O mais importante é que isso venha da alma. 

Madre Teresa de Calcutá certa vez disse: “todas as nossas palavras serão inúteis se não brotarem de nossos corações”. Por isso, antes de falar ou agir, seja no ambiente profissional, familiar ou entre amigos, devemos nos questionar: “como eu quero que as pessoas se sintam”? “Como posso transmitir a minha mensagem no sentido de conseguir esse sentimento desejado”? “Qual a real intenção que existe por trás de minhas palavras e ações”? “Meu discurso está sendo pirotécnico, somente com informações animadoras e sem aspirações verdadeiras e profundas, ou está realmente contribuindo com o crescimento pessoal e profissional de alguém”? Como diz Anthony Robbins, “pessoas bem sucedidas fazem melhores perguntas, e como resultado, obtêm melhores respostas”.

 

Fernando Cunha – Jornalista e palestrante

Nenhumcomentário
500 caracteres restantes.
Seu nome
Cidade e estado
E-mail
Comentar
* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou com palavras ofensivas.
Mostrar mais comentários
Ele1 - Criar site de notícias