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Artigo

André Borges Lopes

Binóculo Reverso

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Binóculo ReversoEscrito por André Borges Lopes

08/12/2019 06h00
Por: Redação

MÉDICOS NA CADEIA

Há duas semanas, reuniu-se em Uberaba um pequeno grupo de médicas e médicos veteranos. Alguns são da região, outros vieram de longe especialmente para o evento. Tinham em comum – além dos cabelos brancos, da longa experiência e da consagração na profissão que escolheram – a emoção de um reencontro: comemoravam os 60 anos de sua formatura na então Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro. No final do distante ano de 1959, a FMTM concretizou a ousadia de um antigo sonho ao entregar os diplomas para sua primeira turma de doutorandos. E Minas Gerais passou a ter, de fato, a sua terceira faculdade de medicina.

Desde o início do século XX, Uberaba era um centro médico importante. Viajantes chegavam todos os dias das imensidões do sertão brasileiro em busca de atendimento. Com o tempo, multiplicaram-se os consultórios médicos, as clínicas, casas de saúde e hospitais. Era comum que os filhos dos pecuaristas e das demais famílias abastadas da cidade fossem estudar medicina fora – em geral no Rio de Janeiro ou em São Paulo, mas por vezes até no exterior. Formados e especializados, retornavam a cidade para exercer a profissão. A eles se juntavam médicos de vindos de outras partes do Brasil, atraídos pela promessa de uma clínica farta.  Muitos conciliavam a prática médica com as atividades rurais – uma combinação que se tornou usual na região.

Minas Gerais já era o terceiro estado mais populoso do Brasil, mas contava somente com a Faculdade de Medicina de Belo Horizonte. Fundada em 1911 e mais tarde incorporada à Universidade Federal (UFMG), foi lá que formou-se médico o futuro presidente da república Juscelino Kubitschek de Oliveira. Em janeiro de 1951, JK elegeu-se governador de Minas Gerais pelo PSD, com apoio de diversos partidos e a promessa de dar uma cara nova ao estado. Além do binômio “Energia e Transporte”, Juscelino queria aumentar o número de médicos. Decidiu apoiar duas iniciativas de abrir novas faculdades: uma em Juiz de Fora e outra no Triângulo Mineiro.

Na época, Uberaba dava mostras de que estava vencendo uma antiga maldição: desde a fugaz experiência com o Instituto Agrotécnico (que entre 1895 e 1899 formou uma única turma de engenheiros agrônomos) a cidade colecionava fracassos nas tentativas de montar escolas de ensino superior. Até que, em 1947, o professor Mário Palmério – já dono do Colégio Triângulo e da Escola Técnica de Comércio – colocou em funcionamento uma Faculdade de Odontologia e, quatro anos mais tarde, um curso de Direito. Com JK à frente do governo mineiro, Palmério – que havia sido eleito deputado federal pelo PTB – resolveu dobrar a aposta e buscou seu apoio para abrir na cidade uma faculdade de medicina.

Embora não fosse da região, Juscelino tinha um histórico de proximidade com Uberaba. Em 1934, acompanhou o interventor Benedito Valadares na visita a Exposição Agropecuária e deu início ao hábito de frequentar as feiras de gado zebu. Isso não impediu que, em abril de 1952, a cidade fosse palco de uma assombrosa revolta popular contra um aumento de impostos estaduais promovida por seu governo, que só foi contida por tropas enviadas da capital e resultou em dezenas de uberabenses presos. O motim deixou claro que crescia a força do movimento separatista do Triângulo Mineiro, que tinha em Palmério um dos seus entusiastas.

Velha raposa política, JK aproveitou a oportunidade para estreitar os laços com a região. Poucos dias depois da revolta, desembarcou na cidade em companhia do presidente Getúlio Vargas, de quem era fiel aliado. Reza a lenda que teria prometido transformar o belo prédio da praça do Mercado – onde funcionava então uma penitenciária estadual – em uma faculdade de medicina. No ano seguinte, um projeto de lei foi aprovado pela Assembleia Legislativa mineira cedendo o prédio e fornecendo apoio financeiro estadual ao projeto. Coube ao presidente Vargas autorizar o funcionamento do curso. Em janeiro de 1954, a FMTM recebeu sua primeira turma de alunos. Estudar medicina deixava de ser um privilégio das famílias muito ricas mas, por alguns meses, os calouros da nova faculdade dividiram o grande prédio com algumas dezenas de detentos, que continuavam encarcerados no andar superior.

Eleito Presidente da República em 1955, JK cedeu à pressão dos estudantes e da comunidade uberabense e federalizou a escola, que passou a ser pública e gratuita. Em pouco tempo ganhou respeito e prestígio dentro da comunidade médica brasileira, além de novos cursos de graduação e pós graduação na área de saúde. Em 2005, durante o governo do presidente Lula, a FMTM foi enfim transformada em uma Universidade Federal.