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Prof. Décio Bragança

Prof. Décio Bragança

Prof. Décio BragançaGraduado em Letras pelas Faculdades Integradas Santo Tomás de Aquino (Uberaba, 1972). Especialista em Metodologia do Ensino Superior pela Universidade Federal de Santa Catarina (Uberaba, 1982. Especialista em Língua Portuguesa pelas Faculdades Integradas de Uberaba em convênio com a UNICAMP (Uberaba, 1987). Cronista de Rádio às quartas feiras e de Jornal quintas feiras, na cidade de Uberaba.

15/12/2019 06h00
Por: Redação

O povo de Deus no deserto andava, mas à sua frente Alguém caminhava - Em tempo de Advento, continuemos a reflexão sobre o Natal – nascimento de um Deus no nosso meio. Perdemos a identidade, nossa vida privada, nossa subjetividade, dada a nossa ex-posição diária na internet, nas redes sociais. Há uma tendência, senão uma tentativa universal de nossa reconquista subjetiva, sem os olhares e ouvidos dos outros, sem a intromissão de palavras e vozes dos outros, sem a interferência demoníaca e malévola dos outros. Isso não significa que o outro deva ser excluído, espinafrado, marginalizado e até morto. O outro é a possibilidade de realização do projeto do sujeito. Sou para mim e sou para o outro – essência da convivência humana. Não por acaso dizem que a hu-manidade nunca tinha experimentado tanta solidão e isolamento, tanto narcisismo e in-dividualismo, tanto sofrimento e morte. 

 

O povo de Deus era rico de nada, só tinha a esperança e o pó da estrada - Para muitos, o outro é o inferno, ou o inferno são os outros, como nos ensinou Jean Paul Sartre. Isso também não significa que a solidão – momentos de privacidade – não seja importante e necessária para se criarem espaços de reflexão, de intimidade, de silêncio, de oração, de leitura, de recolhimento, de audição de uma música, de escrita de poemas, de sonhos de rei e de artista, de informações e decisões. Em grupos, trocamos experiências e vivên-cias, mas nunca tomamos decisões para o outro – razão da solidão do existir. Cada um se constrói amando, respeitando, dignificando, construindo o outro. Não se trata de construir, por exemplo, casas iguais, sem originalidade e sem beleza, como nos muitos conjuntos e prédios habitacionais populares, espalhados pelo mundo, mas construir-se na diversidade, na multiplicidade, na pluralidade, na heterogeneidade. 

 

O povo de Deus também vacilava; às vezes custava a crer no amor - Não se trata de re-ceber da sociedade tudo pronto, feito, acabado, mas exigir respeito da sociedade em to-dos os passos e caminhos dados por todos e por cada um. O modelo de sociedade não foi escolhido, decidido, pensado por nós, mas por uma minoria dominante, detentora de poderes, inclusive o poder de escolher, decidir, pensar pelos outros. Esse modelo permi-te especulação econômica, financeira, imobiliária, enquanto muitos ainda não têm seus direitos respeitados e garantidos, vivendo em condições sub-humanas. O bolo está cada vez maior e cada vez mais mal dividido, porque, conforme estatísticas, os ricos estão ficando cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres, segundo dados do IBGE, divulgados em setembro com os dados de 2018. Isso é uma violência institucionalizada, uma injustiça que clama por vingança. 

 

O povo de Deus chorava, rezava, pedia perdão e recomeçava - Pior ainda é a manipula-ção das informações, das forças políticas, para que tudo continue da mesma maneira, ou ainda os políticos definam, aprovem leis e/ou reformas que garantam o poder aos mes-mos detentores do poder. A política e a economia neoliberais querem deixar tudo para a iniciativa privada, como se não fossem responsáveis pelo desastre social produzido até hoje. Então, para que Estado? A justificativa das privatizações é que as empresas esta-tais são ineficientes, ineficazes, incompetentes. Acredito que são mal geridas, mal admi-nistradas, mal gestadas, por falta de clareza e transparência, insensibilidade e menospre-zo pelos problemas sociais. Dizem alguns que o sucateamento dos muitos serviços pú-blicos: hospitais, escolas, universidades, saneamento básico é proposital para se justifi-car posterior privatização. 

 

O povo de Deus também teve fome e Tu mandaste o pão lá do céu - O grande problema atual é que tudo virou mercadoria e, de uns tempos para cá, transformaram também o Natal, o Menino-Deus, o Deus-Menino, o presépio, o Papai Noel, a árvore em mercado-ria – “a mão invisível do mercado” – onde absolutamente tudo se vende e tudo se com-pra, até a dignidade, a honradez, o amor, a paz, a tranquilidade. O único critério de sal-vação e libertação é o amor: amar a Deus é amar aos outros; amar aos outros é amar a Deus, porque Deus é o outro. Nesse sentido, somos semente, luz do mundo, sal da terra, fermento na massa. Queremos ser o que somos e não o que os outros querem que seja-mos – identidade. Só assim, buscamos o outro – alteridade. A mulher exige cada vez mais ser reconhecida como mulher, assim como o idoso, a criança, o cidadão, exigem também reconhecimento e respeito. 

 

O povo de Deus, cantando deu graças, louvou Teu amor - A colonização, a escravidão, a subserviência, a humilhação, a discriminação, a marginalização – coisas do passado – devem ser totalmente rechaçadas. Outro mundo é possível. Outra humanidade é possí-vel. A intolerância está no limite. É hora de se viver a pluralidade sem polaridade, para salvar as pessoas. Muitas religiões preferem salvar Deus a salvar as pessoas, muitas re-ligiões preferem carregar Deus a carregar as pessoas, porque se propõem donos de Deus e falam em nome de Deus. Quanta insensatez! Pessoas precisam de pessoas, inteiras e identificadas, sujeitos e protagonistas. Nosso crescimento e desenvolvimento têm de ser horizontais, isto é, tocando os noutros do nosso lado, sem medo da liberdade e da cami-nhada. Nossa fé e orações têm de ser verticais, isto e, buscando o transcendente e o divi-no. 

 

O povo de Deus ao longe avistou a terra querida que o amor preparou - Esse sentido vertical e horizontal, talvez em forma de cruz, é a união do céu e da terra, do eterno e do finito, do divino e do terreno, da oração e do compromisso social. Sempre gosto de me lembrar de duas datas importantes, para mim: Natal – Deus que se apresenta, se humi-lha até mim; e Páscoa – a outra via, o meu caminho, a minha passagem para Deus, com muitas pessoas comigo. Falar em pessoas é falar em partilha do sofrimento, em com-promisso com a vida em sociedade, em dom gratuito do amor, em salvação e libertação coletiva, em esperança de boa convivência e justiça, em pluralidade de sentimentos e es-colhas, contra a intolerância e indiferença, contra a violência e agressão, contra a des-truição e ganância.