Prefeitura- coronavírus
Mosaic
Artigo

André Borges Lopes

Binóculo Reverso

Binóculo Reverso

Binóculo ReversoEscrito por André Borges Lopes

22/12/2019 06h00
Por: Redação

A IGREJA DE PEDRA DOS DOMINICANOS

Não é todo mundo que gosta do seu estilo e, para muita gente, o prédio parece uma construção inacabada. Mas é impossível ficar indiferente diante da Igreja de São Domingos, o centenário templo neogótico erguido pela congregação dos dominicanos em Uberaba na virada do século XIX para o XX. Mesmo nos dias de hoje, a igreja construída com grossas paredes de pedra aparente impressiona por sua imponência e grandiosidade. Dá para imaginar a sensação que devia causar na Uberaba completamente sem prédios de 1904. Em 1º de outubro daquele ano, a igreja foi oficialmente inaugurada, ainda sem as torres e a abóboda central. Quatro anos mais tarde, sediou a grande missa de comemoração do 7º centenário da revelação de São Domingos, onde teriam sido concedidas mais de 3 mil comunhões.

A ordem dos dominicanos estabeleceu-se em nossa cidade em 1881, proveniente de Tolouse, na França. Dois anos depois, chegou por aqui o frade italiano Raimundo Anfossi, responsável pela construção do primeiro prédio do Colégio Nossa Senhora das Dores (inaugurado em 1895). Os dominicanos haviam assumido a antiga igrejinha de Santa Rita, que não conseguia acolher mais que duas centenas de fiéis nas missas de domingo – muito pouco para uma população que crescia rapidamente. Na época, a tradicional festa de Nossa Senhora do Rosário já reunia todos os anos milhares de devotos vindos de toda a região. Por isso, em janeiro de 1899 foi lançada a pedra fundamental de uma nova igreja, que deveria ser capaz de abrigar entre 1200 e 1500 pessoas. O terreno para a construção, no alto da antiga Ladeira do Mercado (atual Rua Lauro Borges), foi doado pelo Comendador José Bento do Vale e por sua esposa, Francisca Teodora.

Não está devidamente documentada a autoria do seu projeto, que tem a planta da nave em forma de cruz. Sabe-se que a construção ficou a cargo do empreiteiro italiano Emílio Betti Monsagratti, já estabelecido na cidade, que teria contado com a colaboração de um engenheiro francês de nome Florent, do qual não se tem maiores informações. Segundo a pesquisadora francesa Claire Pic, autora de um trabalho sobre a missão dominicana no Brasil, “sua aparência maciça, tijolos ou pedras expostas (...) são similares as das construções no estilo gótico. Essas obras contrastam com as que eram usuais no Brasil, onde a arquitetura dos edifícios religiosos é geralmente colonial ou neocolonial, relacionadas às origens portuguesas do país. Elas testemunham a origem dos dominicanos por sua semelhança com o estilo de edifícios religiosos construídos durante o período medieval no sudoeste da França”.

A São Domingos introduziu algumas novidades em Uberaba, como o teto de alvenaria em forma de abóboda. Usou-se na construção das paredes uma rocha sedimentar do tipo “Limonita”, abundante na região do cerrado, onde é conhecida como “pedra tapiocanga”. Rica em óxidos de ferro, ela deu à igreja sua coloração marrom avermelhada. O trabalho de erguê-la contou com a colaboração de muitos operários e construtores locais, entre eles José Cotani. Jornais da época estimaram o custo da construção em mais de 600 contos de reis, uma pequena fortuna, que foi obtida com doações da comunidade. Uma réplica da Gruta de Lourdes foi construída, também em pedra, ao lado da edificação pelo cantareiro italiano Miguel Laterza. Durante cerca dez anos, o templo funcionou sem as duas torres, que só foram inauguradas em 1914. Tinham a estrutura e parte inferior feita em madeira de lei, com o telhados pontiagudos revestidos com placas de cobre importado. No início da década de 1960, o interior da nave foi reformado pelo arquiteto Carlos Millan, que substituiu parte do antigo piso de pedra bruta.

No final de 1980, as torres estavam em estado precário de conservação e algumas placas de cobre começavam a se desprender, colocando em risco os visitantes. A prefeitura municipal, contratou a Construtora Urbano Salomão para fazer a demolição das antigas estruturas e a construção de duas réplicas. As novas torres foram erguidas com estrutura de metal e concreto, com revestimento do telhado feito em chapas de ferro pintado com tinta epoxi, serviço executado pela empresa uberabense Promelco. O obra foi concluída em agosto de 1981. Em 2003, a igreja de São Domingos foi tombada pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG).