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Prof. Décio Bragança

Prof. Décio Bragança

Prof. Décio BragançaGraduado em Letras pelas Faculdades Integradas Santo Tomás de Aquino (Uberaba, 1972). Especialista em Metodologia do Ensino Superior pela Universidade Federal de Santa Catarina (Uberaba, 1982. Especialista em Língua Portuguesa pelas Faculdades Integradas de Uberaba em convênio com a UNICAMP (Uberaba, 1987). Cronista de Rádio às quartas feiras e de Jornal quintas feiras, na cidade de Uberaba.

29/12/2019 06h00
Por: Redação

Fim de ano – exame de consciência e balanço do que foi feito de bom e de mau. Início de ano – esperanças renovadas, promessas e compromissos para o ano seguinte. Talvez, o grande desejo de todos é que possamos viver com mais tranquilidade e paz, menos so-frimento e problemas, mais soluções e alegria, menos crises e dores. Somos um povo ordeiro e trabalhador, santo e pecador. Tivemos durante o ano inteiro a sensação de que os corruptos, os sonegadores, os lavadores de dinheiro, os gananciosos, os inescrupulo-sos, os ladrões e bandidos prosperaram e gozaram de todos os bens oferecidos pela so-ciedade, enquanto os honestos, os trabalhadores, os esperançosos, os éticos, os sérios sofreram humilhações e explorações, passando a ser, inclusive objeto de escárnio, de desdém, considerado bobo, bocó, babão. 

 

Fim de linha – Será mesmo que vale a pena a bondade, a ética, a honestidade? Estamos vivendo momentos de discurso único e neoliberal em que a fama, o sucesso, a riqueza e a posse de bens significam o sentido de se estar no mundo. Vivemos a cultura do ter. Vale mais quem tem mais! Quem não tem é humilhado, desprezado, discriminado, casti-gado, sofrendo todas as violências e injustiças possíveis. Nesse sentido, somos, sim, os bodes expiatórios – vítimas inocentes sacrificadas no lugar de outros para expiar os pe-cados e crimes dos outros poucos. Isso não significa que também não cometemos desli-zes e pecados, passamos por caídas e recaídas. Todos queremos ser honrados e viver com dignidade. Para tanto, é fundamental a justiça social – caminho de renascimento e libertação. Daí a importância da esperança – força latente oriunda do sofrimento, da fraqueza, da pequenez, da fragilidade, das limitações humanas. 

 

Fim dos problemas – No início de todos os anos, ficamos cheios, repletos, prenhes de esperanças, porque em todos os fins de anos nos sentimos desiludidos e frustrados. Muitos não gostam das festas de final de ano, porque têm a certeza de que nada aconte-cerá, nada mudará no próximo ano. As mudanças pessoais e sociais acontecem sempre de dentro de cada um para fora, por vontade e por opção. Subjetiva e objetiva, consci-ente e inconscientemente, a sociedade é o que desejamos e o que fazemos com os nossos desejos: ou prosseguimos no caminho do comodismo e apatia, ou rompemos os laços e as algemas da subserviência e obediência cega, surda e muda. Muitas vezes, desejamos que o outro rompa esses nós e laços, enquanto nada fazemos, pensando não ser culpado se der errado, mas usufruindo os benefícios se der certo. Pimenta nos olhos dos outros é refresco. 

 

Fim dos ódios e das raivas – Não queremos assumir responsabilidades e riscos, mas queremos recompensa e glória. Gostamos do bônus e odiamos o ônus. A vida tem de ser vivida intensamente em si mesma e por si mesma, sem esperar qualquer recompensa. É bom ser bom! O bem faz bem!  O bem cresce, amadurece, dá frutos dentro dele mesmo.  Fim de ano: exame de consciência e plantio de sementes de esperança para o próximo ano. Existimos para a vida, para nos colocarmos a serviço da vida em todas as suas di-mensões e formas. Para tanto, precisamos de muita força e luz, muita energia e determi-nação na caminhada. A quem servir? Como servir? Sou para mim e ao mesmo tempo sou para os outros. Nesse sentido, a realização humana é uma avenida de mão dupla: o bem dos outros me faz bem; o meu bem faz bem aos outros. Sabemos que as pessoas do mundo estão muito mais preocupadas com os aspectos econômicos, com o ter, com o acumular. 

 

Fim das crises e arrochos – Sabemos também que as pessoas queremos um deus à sua imagem e semelhança, um deus privado. Sabemos que as pessoas desejam a autonomia, autossuficiência, descrendo na possibilidade de solidariedade e companheirismo, porque também não acreditam na gratuidade do amor e da vida. Sabemos que estamos passan-do momentos de crises de ideias e de valores, satanizando as instituições e organizações sociais e políticas. Estamos experimentando radicalismos, discriminações, preconceitos e fundamentalismos religiosos: quem não está comigo está contra mim. Sabemos que há um crescente desprezo, desdém, indiferentismo e individualismo, colocando o outro sempre como alguém que esteja abaixo de nós, mais sujo, mais pecador, mais podre do que nós. O fato é que estamos mais frágeis, mais doentes, mais frustrados, mais insegu-ros. 

 

Fim de palavras e promessas – Falamos que somos democratas, mas não aceitamos o pluralismo. Falamos que somos cristãos, mas somos omissos diante as políticas públi-cas falidas e nada fazemos pelo outro, muitas vezes nem pelos filhos. Falamos em liber-tação que sempre será coletiva, mas nos deixamos levar facilmente pela subjetividade e individualismo, pelo secularismo e ateísmo, pelo relativismo e intolerância, pelo imedia-tismo e consumo de drogas – prazer imediato. Os pais e professores e adultos reclamam dos jovens e dos adolescentes por sua falta de compromisso com os outros, com o pró-prio futuro. Os meios de comunicação e de informação não se cansam de anunciar homi-cídios, feminicídios, suicídios, diariamente, como se não existisse um amanhã. E as desi-gualdades sociais, a marginalização e as discriminações se acentuam e o neoliberalismo – ideologia do mercado livre – que cria dependência, exploração, dominação, avança a passos largos. 

 

Fim dos presentes e dos fingimentos – Sem a possibilidade de nenhuma crítica a música, o cinema, o teatro, a literatura, as novelas, vazias e evasivas, nos lavam a consciência e alma. Num ano que se inicia, perder a esperança jamais! Desesperar jamais! É hora de renovar nossas esperanças: que não sejamos tão desiludidos com os políticos que estão promovendo um retrocesso autoritário; que não haja o predomínio da impunidade e da corrupção, da apropriação indébita e da evasão de divisas; que não caiamos num vazio ideológico e existencial, buscando o hedonismo e o consumismo como compensações; que se pense num capital produtivo e não no capital especulativo que promove tantas desigualdades que geram angústias, inseguranças e medos; que se busque o bem, a ver-dade e a beleza – encantamento pela vida.