Mosaic
Prefeitura- coronavírus
Coluna

Em questão

Prof. Décio Bragança

Prof. Décio Bragança

Prof. Décio BragançaGraduado em Letras pelas Faculdades Integradas Santo Tomás de Aquino (Uberaba, 1972). Especialista em Metodologia do Ensino Superior pela Universidade Federal de Santa Catarina (Uberaba, 1982. Especialista em Língua Portuguesa pelas Faculdades Integradas de Uberaba em convênio com a UNICAMP (Uberaba, 1987). Cronista de Rádio às quartas feiras e de Jornal quintas feiras, na cidade de Uberaba.

05/01/2020 06h00
Por: Redação

Novas esperanças - Novo ano! Novas esperanças! Novas promessas! O que é a moder-nidade? Como interpretar a modernidade? Ou o que seja modernidade? A questão é que a vida se coloca com maior complexidade. Na complexidade, mais radicalismos, mais contradições, mais contrapontos. Todos têm direito à vida com todas as suas possibili-dades. Direito é direito para todas as classes e categorias e opções das pessoas, sem pre-conceitos e discriminações. As instituições e, em especial, o governo têm deveres legíti-mos de amparar, apoiar, incentivar, construir uma realidade menos desigual, mais fra-terna e solidária. 

 

Novo entusiasmo - Passadas as festas de fim de ano, temos a certeza de que fomos ma-nipulados por ideias apenas consumistas, mercantilistas, econômicas – contrárias às ideias de paz, de cooperação, de empatia, de altruísmo. No consumo, o que importa são as possibilidades facilitadas para ter, ter-mais, ter-sempre-mais, transformando-nos em objetos, desejos de consumo. Grande parte da população mundial e também a brasileira não tem acesso aos serviços públicos essenciais: água tratada e encanada, esgoto tratado e com destino determinado, lixo recolhido e reciclável, moradia digna e com energia elé-trica, educação com qualidade e transformadora, saúde tanto preventiva quanto curati-va. 

 

Novos homens e novas mulheres - As cidades dos homens e das mulheres são construí-das para alguns homens e algumas mulheres privilegiados, moradores do centro, como se as periferias fossem campos minados, prestes a explodir a qualquer hora. Pensamos maquiavelicamente: enquanto as facções, os traficantes, os bandidos, os pobres brigam entre si e se matam, mas não nos tiram a tranquilidade de nossos castelos e posses, tudo bem. A cidade não é vista como um todo, mas fatiada, mantendo principalmente os pri-vilégios de alguns poucos. Mais importante do que uma reforma agrária, é preciso que seja feita uma reforma urbana, uma reforma administrativa, uma reforma tributária, uma reforma política. 

 

Novas ideias e novos ideais - A classe política pensa em reformas que penalizam ainda mais os pobres, os desvalidos, os trabalhadores, as pequenas comunidades. Não há de-senvolvimento humano possível, enquanto se entender o mundo com todos os seres vi-vos e não vivos como objeto de manipulação, especulação, produção, eficiência, resulta-dos lucrativos. Infelizmente, tudo virou mercadoria. Quem dá mais?! Perdemos a capa-cidade de ouvir o outro, sentir o que o outro sente, valorizar as capacidades individuais, amar o outro como o outro é, respeitar o indivíduo, dialogar com os diferentes, criar uma cultura de paz, aceitando profundamente as práticas, as opções, os símbolos e os valores do outro. 

 

Nova cidade e novos prefeitos - Claro, um dos sinais de nosso tempo é, sem dúvida, o individualismo até no sentido religioso, a alienação, o imobilismo, a apatia. Nada disso é natural. Tudo isso foi programado por alguns poucos intencionalmente. Não existe aca-so. As políticas públicas de emprego, de salário, de moradia, de educação, de saúde, de saneamento básico, de alimentação têm de ser efetivadas urgentemente, no mínimo, para que todos e cada um possa ser protagonista de sua própria história. Para isto é que exis-te governo: colocar-se a serviço de absolutamente todos. 

 

Novo céu e novo sol - Só assim terá sentido a cooperação, a solidariedade, a chamada justiça e consciência social. O neoliberalismo – idolatria do mercado – nosso novo deus – traz consequências sociais terríveis e nefastas. Soma-se a isso, hoje, o que chamamos de meritocracia – manutenção dos mesmos privilegiados que têm até escola bilíngue. Os shoppings são os novos templos onde os deuses do consumo e do mercado se oferecem a todos. Estamos pagando a tarifa vermelha no patamar 1 de energia elétrica e dizem que a culpa é do povo. 

 

Novo paraíso e novo povo - Interessante, vejamos os milhares de shoppings espalhados pelo país: ficam praticamente vinte e quatro horas do dia com todos os ares-condicionados ligados, com todas as lâmpadas multicoloridas acesas, para justamente fazer as pessoas que estão lá dentro perderem a noção de tempo e de espaço. Todos pa-gamos a insensatez dos shoppings, porque, não por acaso, anulam a nossa capacidade crítica. Acredito que a nossa melhor atitude e opção seja a independência em relação aos poderes e poderosos, que se julgam donos do mundo e das pessoas. 

 

Novo dia e novas estrelas - É preciso libertar-se até das amarras poderosas da política e da economia. Livres e libertados, poderemos buscar uma boa convivência e entrosamen-to, oportunizar encontros de pessoas que se relacionam fraterna e profundamente, criar momentos de revisão de comportamentos e de vida. Sou para mim e sou para os outros. Nascemos num contexto social para também nos colocar a serviço, porque somos seres relacionais. A vida é sim uma corrida de revezamento: cada um se esforça o máximo e passa o bastão ao outro. Assim, todos ganham ou ninguém ganha. 

 

Novo amor e nova ordem - Empatia e sinergia – alteridade – são fundamentais nessa corrida. Vinicius de Moraes (1913 – 1980) nos ensinou que a vida é a arte de encontros, embora haja muitos desencontros. Vou usar Vinicius para fazer outras paráfrases: viver é estar encantado, embora haja muitos desencantos e desalentos; viver é respirar livre-mente, embora haja muitos estrangulamentos e sufocos; viver é ser singular, embora ha-ja pluralidade e multiplicidade de comportamentos e culturas; viver é acreditar em si mesmo, no outro, em Deus, embora haja muito desespero e angústia, muita intolerância e dúvidas, muito ateísmo; viver é iluminar-se e iluminar caminhos, embora haja muita escuridão e trevas; viver é rir com os riem e chorar com os que choram, embora haja fin-gimentos, interesses e intenções secretas; viver é estar no mundo, encarnado no tempo e no espaço, embora haja muitos devaneios e loucuras. 

 

Novos interesses e nova vida - Perder a esperança jamais, principalmente nestes primei-ros dias de um novo ano. A esperança, a confiança, a credibilidade, a fé é uma utopia. A utopia não morreu, como queria, em 1967, Herbert Marcuse (1898 – 1979) quando pu-blicou O Fim da Utopia. Mais do que nunca a utopia – um reino de paz e tranquilidade, de bem e verdade, de beleza e prazer – renasce com força e energia. É hora da reconstru-ção da esperança e utopia, da libertação e pluralismo, da consciência crítica e social, fora de qualquer processo de alienação e massificação.