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André Borges Lopes

Binóculo Reverso

Binóculo Reverso

Binóculo ReversoEscrito por André Borges Lopes

05/01/2020 06h00
Por: Redação

UM COMPLÔ PARA MATAR GETÚLIO

Bem antes do surgimento da Internet e das chamadas “redes sociais”, já era comum o uso de notícias falsas e acusações fantasiosas – o que hoje se chama de “fake news” – nas disputas políticas e eleitorais. Na história brasileira, para ficarmos apenas nos casos mais escabrosos, três episódios se tornaram célebres e tiveram influência nos destinos políticos do País.

O primeiro foi a publicação pelo jornal “Correio da Manhã”, em outubro de 1821, de duas cartas atribuídas ao governador mineiro Artur Bernardes – candidato à Presidência da República – com ofensas aos militares e, em especial, ao marechal Hermes da Fonseca, tratado como “esse sargentão sem compostura”. Bernardes acabou eleito e, no ano seguinte, comprovou-se a falsidade dos documentos. Mas o episódio azedou a relação entre a jovem oficialidade do Exército e da Marinha e o novo presidente, que enfrentou uma série de rebeliões armadas durante seu governo. O movimento “tenentista” teria papel fundamental na queda da República Velha e na ascensão de Getúlio Vargas ao poder em 1930.

Em setembro de 1937, foi o governo de Vargas quem espalhou as “fake news”. Autoridades policiais divulgaram documentos atribuídos à Internacional Comunista, contendo detalhes do suposto “Plano Cohen” – uma insurreição armada para a tomada do poder. Anos mais tarde, foi comprovado que tudo fora forjado pelos próprios militares pró-Getúlio. Derrotados no levante de 1935, a maioria dos  comunistas brasileiros já estava na cadeia na época, mas a farsa foi usada para justificar o cancelamento das eleições, o fechamento do Congresso e a instauração da ditadura do Estado Novo, que durou até 1945.

O terceiro episódio aconteceu na campanha presidencial de 1955, realizada em clima de tensão após o suicídio de Vargas no ano anterior. O governador Juscelino Kubitscheck chamou para vice o trabalhista João “Jango” Goulart, unindo a maior parte das forças getulistas – o que lhes dava boas chances na eleição. Seu mais ferrenho opositor, o jornalista Carlos Lacerda, publicou no jornal “Tribuna da Imprensa” uma carta atribuída a um deputado peronista argentino, Antonio Brandi, datada de 1953 e endereçada a Jango – na época Ministro do Trabalho de Vargas. Brandi prometia o envio clandestino de armas ao Brasil e o apoio do governo de Perón à montagem de uma “república sindicalista” na América do Sul. A farsa foi denunciada por um jornalista da própria Tribuna, que descobriu que a assinatura era falsa. E JK acabou eleito.

Embora não tenha a relevância dos casos acima, Uberaba também esteve envolvida em um curioso episódio de “fake news” no inicio dos anos 1950. O mundo começava a viver a “guerra fria” entre Estados Unidos e União Soviética, soldados morriam na Guerra da Coreia e a paranoia anticomunista se espalhava pelo Ocidente. No Brasil, o Partido Comunista havia sido colocado na ilegalidade, os deputados tiveram os mandatos cassados e algumas lideranças foram presas. Tendo retornado (dessa vez pelo voto) à presidência, Getúlio Vargas retomou o antigo hábito de comparecer às inaugurações das Exposições de gado zebu em nossa cidade.

No final de maio de 1951, poucas semanas após a visita de Vargas à Exposição, uma denúncia explosiva surgiu na imprensa. A polícia uberabense alegava ter desbaratado um “complô comunista” que pretendia assassinar o presidente durante sua estada na cidade. Alertadas do perigo pelo delegado local, Lindolfo Coimbra de Souza, as equipes de segurança da comitiva presidencial  haviam sido reforçadas por agentes secretos. Tropas extras da PM mineira vieram das cidades vizinhas e o famoso “tenente Gregório”, guarda-costas de Getúlio, ficara especialmente atento. Surpreendidos pela astúcia da polícia, os pérfidos comunistas teriam desistido da tentativa.

Pouca gente acreditou. A única evidência da polícia era uma carta anônima – obtida sabe-se lá como – cheia de erros de português e com sinais de confusão mental. Datada de 2 de abril e endereçada ao “prezado chefe comunista do Rio”, a carta fazia menção aos desconhecidos “Joaquim Cruvinel e sua amante Agripina” que, mancomunados com a “rezadeira e feiticeira Catalina”, estariam tramando os assassinatos à traição de Vargas, do delegado Lindolfo, do prefeito Antônio Próspero – além de “acabar com os padres e freiras” da cidade.

Questionadas, as autoridades federais negaram ter conhecimento do fato. Não há notícia de que alguém tenha sido detido ou investigado. Mas o delegado Lindolfo ganhou seu 15 minutos de fama e apareceu em uma notícia – com direito a foto – no “Diário da Noite” do Rio de Janeiro.