Mosaic
Prefeitura- coronavírus
Coluna

Em questão

Prof. Décio Bragança

Prof. Décio Bragança

Prof. Décio BragançaGraduado em Letras pelas Faculdades Integradas Santo Tomás de Aquino (Uberaba, 1972). Especialista em Metodologia do Ensino Superior pela Universidade Federal de Santa Catarina (Uberaba, 1982. Especialista em Língua Portuguesa pelas Faculdades Integradas de Uberaba em convênio com a UNICAMP (Uberaba, 1987). Cronista de Rádio às quartas feiras e de Jornal quintas feiras, na cidade de Uberaba.

19/01/2020 06h00
Por: Redação

É hora de partir - Viver, conviver e sobreviver – viver para conviver, conviver para so-breviver – significado e razão e sentido da vida em sociedade. Tudo isso tem de ser ensi-nado e aprendido e apreendido. Para alguns, a vida nos é dada gratuitamente e, a partir daí a convivência e a sobrevivência passam a ser dever de todos e de cada um. A ideia de que cada um se basta não existe. Nossa casa, nossos alimentos, nossas roupas, nossa cultura, são heranças deixadas desde os primeiros humanos, há mais de 13 bilhões de anos, desde a criação do planeta Terra. A vida, em todas as suas dimensões e expansão, é uma corrida de revezamento. 

 

É hora de parir - Ao nascermos, recebemos de tantos outros o bastão da vida, rumo à vitória que é de todos. As derrotas também são de todos. Isso para dizer que tanto o bem quanto o mal são produtos coletivos. Assim, o presente é o campo de experimenta-ções e propostas, metas e esforços, ideias e ideais, sonhos e utopia até se chegar a hora de dizer que tudo valeu a pena, porque todos estão e vivem bem. O caminho é longo, tendo consciência de que devemos passar por um contínuo processo de mudanças pro-fundas no modo de estar no mundo. Numa era de tantas informações, ninguém mais está escondido no seu mundinho, porque todos estamos envolvidos nas redes sociais, na dança da vida. 

 

É hora de adubar - Por isso, queiramos ou não, fazemos parte da história de todas as pessoas. Participamos das coisas ruins e boas das pessoas e do mundo. Se há falhas e erros, injustiças e abusos, crimes e pecados, desigualdades e discriminações, todos nós somos responsáveis, ou por nossa participação, ou por nossa omissão. Alguém poderá dizer que nada tem com o que está acontecendo, com a guerra e a fome, com a miséria e a marginalização de muitos, mas a omissão e o silêncio diante de tudo isso também é um crime social, tão perverso quanto a corrupção e desvio de dinheiro, sonegação e propi-na. A impunidade sempre gera mais crimes sociais – crimes sem sangue aparente. 

 

É hora de florir - Somos e estamos atingidos e envolvidos em todas as atividades de to-dos os homens, alguns de forma direta e explícita; outros de forma indireta e implícita. O fato é nem todos têm garantidos os seus direitos, não têm condições mínimas de vida, porque sem voz e sem vez. Daí a marginalização desenfreada produzida pelas muitas desigualdades. Os donos do poder e das pessoas esperam a nossa obediência, a nossa subserviência, a nossa submissão, a nossa aceitação, inclusive de sofrimentos, usando até um discurso religioso de resignação e humildade. 

 

É hora de semear - Os baixos salários, partidas de futebol em todos os dias da semana, liberação do seu dinheiro do FGTS como se fosse mérito e benesses do governo, jogos de loteria em todos os dias da semana, novelas com fundo de narcisismo, de permissivi-dade e de naturalidade, notícias espetaculosas, as fakes News com propósitos, interesse e intenções indizíveis, músicas e ritmos com apelos eróticos e carnavalescos, a ilusão de que consumir nos traz felicidade e prazer, são jeitos, são concessões, são maneiras de nos enganar. E assim entramos na onda, dançamos conforme a música. 

 

É hora de arrumar as malas - Poucos, muito poucos, rebeldes e inconformados, se ne-gam a entrar na onda e dançar conforme a música. Estamos cada vez mais doentes, por-que manipulados, coisificados, massificados, narcotizados, volúveis, como caniços toca-dos pelos ventos do individualismo imediatista. Não há salvação, ou redenção, ou liber-tação individual. Quem vai para o céu e vive no céu leva muitos consigo; mas também quem vai para o inferno e vive no inferno leva muitos consigo. O bem e o mal, sempre compartilhados, porque somos cúmplices uns dos outros, mesmo se negarmos a cum-plicidade. 

 

É hora de dividir e distribuir - A possibilidade ou não de realização de um projeto, mesmo que seja pessoal, depende da aceitação ou não do outro. Não há professor caso não existam alunos que o queiram como tal. Não há esposa caso não exista um homem que a queira como tal. Não há médico caso não exista um paciente que o queira como tal e assim em todas as atividades humanas e sociais. Isso para dizer que ninguém se basta a si mesmo. Somos todos caminheiros, estradeiros, romeiros, passageiros. Caminhamos ao lado de todos os homens, sentindo suas dores e anseios, suas angústias e esperanças, seus desejos e frustrações. O homem é um ser relacional. 

 

É hora de ser para ser mais e melhor - A razão é apenas um instrumento, um meio, um caminho, um roteiro para ser usado para o nosso bem e para o bem de todos. Nada é fácil para o homem, em nível pessoal e em nível social. Há dificuldades, por exemplo, para conhecer-se a si mesmo e aprofundar no autoconhecimento e, ao mesmo tempo, relacionar-se e manter laços afetivos saudáveis com os outros. Sou para mim e sou para os outros – desafio existencial que dá sentido à própria vida. Ser para os outros signifi-ca estar a serviço, à disposição dos outros, dos muitos outros. Vivemos e viveremos sempre em contradição, mas encruzilhada da vida: liberdade não é permissividade, mas limites também não é repressão; afetividade não é sexualidade, mas censura também não é virtude. 

 

É hora sair do caracol e das cavernas - A busca de equilíbrio é tarefa de todos os dias. A questão é que sempre pensamos em extremos: se eu não castigar filho, um dia meu filho mandará em mim; se eu não punir, o mundo virá uma bagunça; se eu não obedecer, ficarei desempregado; se você não estiver comigo, estará contra mim; se você não é capi-talista, é comunista; se você não é homossexual, é homofóbico; se você não se casa com uma negra, é racista, e assim em quase todas as atividades humanas. Esses extremos nos levam ao caos, ao radicalismo, à bipolarização de comportamentos. 

 

É hora de abrir janelas e corações - É importante cada um cuidar de si mesmo, amar um pouco mais a si mesmo, sem tantas culpas e arrependimentos, sem tantas cobranças e remorsos. A gente cuida da gente para cuidar melhor dos outros e vice-versa. A gente ama a gente para amar melhor aos outros e vice-versa. Não é mais possível se viver no meio de tanta violência e intolerância, arbitrariedades e opressão, malfeitores e armadi-lhas. A violência não é novidade de nossos dias. Costumo brincar com amigos que quando no mundo havia apenas quatro pessoas, um irmão matou o outro – é o caso de Caim e Abel. 

 

É hora de decidir e caminhar - Metaforizando essa história, estudo, pesquiso e entendo que há apenas quatro tipos de pessoas no mundo: ou somos Caim – violento, intoleran-te, estúpido, assassino, matador, encrenqueiro, invejoso; ou somos Abel – vítima, cân-dido, casto, ingênuo, inocente, puro, simples, humilde, infantil, bobão, babão; ou somos Adão – pai de Abel, do matador, do bandido, do covarde, do traiçoeiro, do vingativo, do machão, do irresponsável; ou somos Eva – mãe de Abel, da vítima, do inofensivo, do pacato, do singelo, do bondoso. Já fiz entre amigos este teste – coloque em ordem de-crescente estas pessoas: Adão (pai de assassino), Eva (mãe da vítima), Caim (assassino), Abel (vítima), de acordo com o que gostaria de ser, se lhe fosse possível escolher. Acre-dito que temos fases durante a vida. Hoje, aqui e agora, eu escolheria ser: Abel-Eva-Adão-Caim.