Prefeitura - Carnaval
Entrevista

Atendemos 200% a mais que nossa capacidade, diz Ana Lúcia

Superintendente do HC-UFTM fala sobre a questão dos leitos, retenção de macas e sobre as denúncias

19/01/2020 06h00
Por: Redação
Superintendente diz que variáveis interferem nesta força de trabalho. Hoje temos um quadro de pessoas envelhecidas, uma força de trabalho comprometida - Foto: Divulgação
Superintendente diz que variáveis interferem nesta força de trabalho. Hoje temos um quadro de pessoas envelhecidas, uma força de trabalho comprometida - Foto: Divulgação

 

Maria das Graças Salvador

Em entrevista ao JORNAL DE UBERABA, a superintendente do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro, Ana Lúcia de Assis Simões, fala sobre a questão dos leitos, retenção de macas e sobre as denúncias. Nega que as cirurgias eletivas estão suspensas que estão acontecendo, embora não 100%. E lembra que o HC da UFTM é a maior porta de entrada para a alta complexidade e o único a atender urgência e emergência e acredita que deve ter uma relação mais respeitosa.

 

JORNAL DE UBERABA – Como está a questão de leitos e macas?

Ana Lúcia Simões – Esse não é um problema recente, não estamos vivendo esta situação agora. É antigo, é uma questão antiga não só de Uberaba. No Brasil inteiro tem essa situação, porque nós temos um sistema que, infelizmente, ainda não dá conta de atender todas as demandas de saúde da população. O Sistema Único de Saúde é um sistema muito bem pensado, muito bem fundamentado, mas, na prática, a gente tem uma realidade que muitas vezes não conseguimos atender efetivamente todas as necessidades de saúde da população. Infelizmente, a saúde é uma área muito complexa, mas Uberaba, podemos dizer, é um município privilegiado. Nós temos um atendimento em saúde para população de Uberaba e da região que tem sido bastante eficiente. Aí eu entro para a questão do nosso Hospital de Clínicas, que é o maior e o principal prestador de serviço em saúde para Uberaba e região, responsável pela alta complexidade de toda a macrorregião.

Temos feito um trabalho, historicamente, com muita eficiência, muita resolutividade. Em função disso, a gente tem a credibilidade da população. O Hospital de Clínicas é uma referência para Uberaba e toda a região, não só do ponto de vista burocrático, de organização de rede, mas um hospital que a população reconhece como sendo capaz de resolver os problemas. O hospital acaba influenciando e sendo parte dessa discussão, que é a própria regulação. Ela [a regulação] na nossa cidade tem passado por transformações. Uma regulação que era feita até dois meses atrás pelo Estado, no SusFácil, e hoje o município assumiu essa responsabilidade. Nós temos um complexo municipal regulador e até recentemente veio aí uma decisão do juiz determinando que realmente o município deve e pode continuar fazendo a regulação e nós estamos inseridos nessa organização. Nós vivemos um momento realmente de reorganização, que não é só do hospital, mas que é de todo o município e região.

Nós temos muito claro que é o único o hospital de Uberaba que recebe pacientes em vaga zero, então, independente de termos leito disponível, de temos uma capacidade operacional, nós recebemos esse paciente em vaga zero. Isso muitas vezes tem trazido essa situação da marca retida. O que significa retida? O paciente chega pelo Samu ou por alguma outra via com maca e não temos local adequado para colocar esse paciente. Ele fica momentaneamente nesta maca, que fica retida, até que o hospital viabilize uma realocação para esse paciente. Isso tem acontecido algumas vezes. Não é um fato inédito, isso sempre aconteceu.

 

JU – Sempre aconteceu...

Ana Lúcia Simões – Sempre aconteceu, só que agora, com a regulação municipal, o secretário [de Saúde, Iraci Neto] e sua equipe têm acompanhado, não só no nosso hospital, como em outros, a disponibilidade de leitos. É necessário esclarecer para a população que eventualmente, quando algumas leitos estão vazios em algumas outras unidades do hospital, não significa que esses leitos estão preparados para atender o paciente que está no pronto-socorro. Como eu tenho dito e disse na nota, uma cama vazia não significa um leito disponível, porque tem que haver uma sincronia entre a necessidade do paciente e a unidade que esse leito está vazio. Eu tenho que ter equipe de profissionais adequados para atender aquele paciente, ou seja, muitas vezes temos pacientes de clínica médica no pronto-socorro precisando subir para a enfermaria, mas o leito que eu tenho fica na outra especialidade, como cirúrgica. Como eu pego um paciente de clínica médica para ser atendido em uma unidade em que a equipe, os equipamentos e toda a infraestrutura é para atender um outro tipo de necessidade, outro tipo de doença, outra complexidade. Então, essa celeuma que se criou em função de o secretário [Iraci Neto] ter identificado alguns leitos vazios, é importante deixar claro para a população que existe toda uma organização, uma dinâmica dentro do hospital que a gente tem que respeitar para fazer a remoção e a transferência dos pacientes.

 

JU – E sobre fechamento de leitos?

Ana Lúcia Simões – Não houve da superintendência do hospital nenhuma orientação que se fechasse leitos para não receber paciente. A gente tem tentado fazer um diagnóstico da capacidade operacional do hospital, o que que nós temos de recursos humanos, de equipamentos, de insumos. A assistência não se faz só com equipamentos e funcionários. Precisa de insumos. Então, estamos fazendo esse diagnóstico para ver a real capacidade operacional do hospital, mas dessa superintendência jamais saiu alguma orientação para fechar leitos, para não receber paciente. Pelo contrário, a gente tem trabalhado para possibilitar todas as condições, para atender de acordo com a capacidade que temos.

 

JU – E os leitos vazios, aquele quarto que o secretário fotografou com várias camas e equipamentos?

Ana Lúcia Simões – Aquela sala, sob o ponto de vista de estrutura físico, foi construída para ser uma ala da unidade de neurologia. Havia um projeto para uma UTI neurológica, projeto que está em stand by. Não tivemos, ainda, as condições de implementá-lo, mas nós temos uma solicitação da Secretaria de Saúde, que o secretário não autorizou, que é o credenciamento de leitos de uma unidade de atendimento em neurologia. São pacientes que hoje já são atendidos. Temos uma enfermaria que fica esses pacientes de AVC, que seria um semi intensivo, recebendo cuidados e que a gente poderia estar recebendo por esse trabalho que a gente já faz na unidade. Estamos aguardando uma autorização da Secretaria Municipal de Saúde para entrar em funcionamento. Ou seja, não serão leitos novos. Será mais uma reorganização dentro da própria unidade, com a possibilidade de receber, de faturar por um trabalho que a gente já faz e que hoje não recebemos por ele. 

 

JU – A equipe, é suficiente?

Ana Lúcia Simões – Essa questão de dimensionamento de pessoal, nós passamos ao longo dos últimos anos por uma transição muito grande. Nós tínhamos aqui um grupo de profissionais efetivos, que são regidos pelo Regime Jurídico Único, um grupo de celetistas, contratados pela Funepu, e desde que fizemos a opção pelo Ebserh, nós fizemos a substituição da força de trabalho da Funepu pelos profissionais contratados pela Ebserh. Fizemos um estudo e dimensionamento de acordo com as características do nosso hospital e chegamos a um número, chegamos a um teto e fizemos concurso. Esse teto nós já atingimos.

Quantitativamente temos um número adequado de profissionais. Só que não podemos tratar esta questão apenas do ponto de vista quantitativo. Nós temos que considerar outras variáveis que interferem nesta força de trabalho. Hoje temos um quadro especialmente do RJU de pessoas envelhecidas, pessoas que já estão aqui há muitos anos, já têm algum acometimento em sua saúde. É uma força de trabalho comprometida. Se por um lado nós temos número por outro lado nós temos algumas questões que muitas vezes faz com que esse número seja insuficiente. Temos de fazer um trabalho internamente de realmente adequar com a necessidade do que realmente precisa. Em termos quantitativos nós atingimos o teto que o hospital comporta. Não está tudo bem, faltam pessoas, mas eles estão sendo contatas, mas no dia a dia temos um absenteísmo muito alto e são questões que acabam influenciando a força de trabalho diária. 

 

JU – Faltam médicos em algumas clínicas, pessoas que tentam consultas e não conseguem em algumas especialidades...

Ana Lúcia Simões – O nosso serviço, em algumas situações acaba sendo único para atender a população de Uberaba e região, que somando chega a um milhão de habitantes. Graças a Deus que não é todo mundo que precisa ao mesmo tempo. Mas, nossa capacidade operacional é insuficiente para a demanda essencial da região. Nos ambulatórios, há uma demanda muito grande, porque provavelmente falta na rede serviços que podem estar acolhendo estes pacientes. Jamais, só a nossa instituição dará conta da demanda. Nós vivemos, em algumas especialidades, uma situação que nos preocupa. O paciente conseguiu ter a sua primeira consulta, vem e começa a ser acompanhado e nosso profissional, muitas vezes, percebe que este paciente tem condições de ter alta e continuar o seu acompanhamento em outra estabelecimento de saúde de outro nível e ficamos preocupados de enviar para outro nível da atenção à saúde e este paciente pode retroceder, ter uma recaída.

Estamos discutindo muito com a Secretaria Municipal a questão do contrafluxo. O nosso recebe muito, seja pacientes para internação seja no ambulatório, mas precisamos ter uma retaguarda e serviço também de qualidade para que os pacientes possam, na medida que já estabilizou, liberar a vaga aqui e ser acompanhado em outro nível. Quando falamos em rede, é rever a responsabilidade de cada ponto e não pensar só no nosso hospital, seja em termos de atendimentos ambulatoriais ou hospitalares nas internações, como o único responsável por toda a demanda de Uberaba e região. Definitivamente a gente não vai ter capacidade operacional para atender a demanda, que é muito grande. Existe uma capacidade operacional, e esta capacidade tem sido continuamente sobreposta. Temos 22 leitos de pronto-socorro e diariamente. Continuamente, temos lá 35 a 40 pacientes. Já chegamos a 50 pacientes. Temos trabalhado com uma taxa de ocupação no pronto-socorro de 200%.  Eu tenho enfermagem para atender 22, equipamento para 22. Só que eu tenho de 45 a 50 pacientes.

 

JU – E no hospital?

Ana Lúcia Simões – No resto do hospital é não é muito diferente, temos uma taxa de ocupação menor nas outras unidades médica, cirúrgica, mas essa taxa de ocupação tem que ser compatível com os protocolos do Ministério da Saúde, porque eu não posso ter continuamente todos os leitos ocupados. Ele tem que ter um tempo para desinfecção, para a questão da logística na enfermaria. E não podemos deixar de considerar a questão das eletivas, que tem sido muito discutida. Eventualmente a gente tem alguns leitos desocupados na enfermaria cirúrgica, não é porque estão vazios sem saber se vai chegar um paciente. Estamos esperando pacientes que estão em uma fila de espera, já em preparo operatório e que serão chamados para internar no dia seguinte. É preciso entender que se estão vazios é porque foi chamado o paciente, que já está em pré-operatório, em dieta, lavagem intestinal, para procedimento cirúrgico. Não podemos cair na armadilha de acreditar que o hospital tem que estar com seus 300 leitos ocupados.

Não existe isso numa dinâmica hospitalar, é necessária a questão de rotatividade de um tempo para desinfecção e de pacientes que são programados para vir para o hospital para suas cirurgias eletivas. Não é justo com o paciente que está esperando há meses e eu suspender a cirurgia dele, porque o hospital não pode ficar com uma cama vazia de um dia para o outro. Também esse paciente que hoje está aguardando uma cirurgia eletiva, pode se tornar o grave amanhã e entrar na urgência. Isso tem um risco e é um problema social, traz problema para o hospital, porque o eletivo é sempre mais tranquilo de ser tratado, de ser recuperado e é menos gasto. Além disso nós temos a questão do ensino. Temos de atender a urgência e emergência também para dar uma boa formação do médico, mas nós temos que dar oportunidade para ele de atender a média complexidade, de fazer uma cirurgia eletiva. Se a gente não cuidar desse aspecto de formação nós podemos estar comprometendo também a formação dos profissionais de Saúde que amanhã a gente vai colocar na rede para atender a população.

 

JU – E sobre a denúncia de falta de gerência?

Ana Lúcia Simões – Tenho muita clareza do que é uma questão corporativa de alguma categoria profissional e até mesmo de uma questão machista porque pela primeira vez na história desse hospital, uma enfermeira e uma mulher assume a superintendência e foi algo que realmente feriu o orgulho de alguns colegas, especialmente pessoas que perderam seus cargos. Eu respeito e entendo, mas a minha equipe é equipe altamente qualificada, com experiência em saúde e em gestão.

 

JU – Como foi a reunião com o prefeito e a Secretaria de Saúde?

Ana Lúcia Simões – Bastante positiva. Desde a desastrosa do secretário, com as repercussões que tiveram nós conversamos com prefeito e fomos nos posicionar, enquanto responsáveis por essa instituição, do sentimento que a gente teve em relação a tudo o que aconteceu. Entendemos que foi uma visita um tanto quanto respeitosa e nós verbalizamos isso para o prefeito. Na verdade foi uma exposição de argumentos. O hospital se posicionou perante o prefeito sobre a nossa condição de funcionamento, e que o que a gente não faz é porque não consegue.

O secretário também fez colocações como gestor municipal. Qualquer cidadão tem o direito de entrar nesse hospital a qualquer momento, visitar, conhecer e questionar, até porque nós estamos aqui a serviço do cidadão. O que nós achamos ruim diz respeito à forma como imagens foram divulgadas e a forma como as notícias foram veiculadas e tratadas, de forma descontextualizada e expôs o hospital desnecessariamente.  O prefeito teve bom senso e entendeu. Esse momento foi importante tanto para a secretaria quanto para o hospital sentassem e conversassem sobre tudo o que vem acontecendo ao longo dos anos, afinal nós somos parceiros e temos de dar melhor assistência para o paciente e essa relação precisa ser forte, não pode ser estremecida e precisa ser, acima de tudo, respeitosa.