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Guido Bilharinho

Advogado em Uberaba e autor de livros de literatura, cinema, estudos brasileiros, História do Brasil e regional

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23/01/2020 06h00
Por: Redação

A PERENIDADE DA ARTE (I)

Para se entender melhor a orientação do cinema brasileiro atual em geral e, por exemplo, o filme “À Deriva” (2009), de Heitor Dhalia (Recife/PE, 1970-), é de se conhecer o que esse diretor afirmou em entrevista à jornalista Mariane Morisawa (“O Tempo”, Belo Horizonte/MG, 24 maio 2009):

“— Você mencionou que está buscando o público. Isso é importante?

— Sim, cada vez mais. Há uma mudança de paradigma no cinema mundial que muita gente ainda não percebeu. Estava falando com a Hengaméh (Panahi, sócia de Heitor na produtora Celluloid Dreams Brasil), e ela disse: ‘O filme de arte morreu’. Ou seja, o filme de arte não se vende, não tem mercado [....] Precisamos de produtos (sic) de qualidade que sejam possíveis de serem vendidos no país e fora. Cinema é uma expressão pessoal, mas uma expressão pessoal muito cara. E para mim, qualidade tem tudo a ver com resultado.”

Antes de se aplicar essa teorética à prática do filme, verifica-se nessa declaração uma constatação e alguns equívocos.

A primeira consiste na circunstância, que se tem denunciado, de que a indústria do entretenimento, que promove a massificação e estandardização do gosto, está se impondo cada vez mais em detrimento da cultura, da arte, do saber, da criatividade e da inventividade. A pretensão de que “o filme de arte morreu” constitui momento desse confronto entre o que é comercial, convencional e facilitário e o que possui valor cultural e artístico.

Realmente, assiste-se contemporaneamente a prevalência e mesmo o domínio do espetaculoso sobre o que efetivamente tem mérito. Bem entendido, é apenas prevalência na receptividade popular, ou seja, vitória nas batalhas que se travam, não da guerra. Esta, a médio e, principalmente, longo prazo e de maneira permanente, é sempre vencida pelo seu oposto, visto que a produção comercial se esfarela com o tempo, não subsistindo, não influenciando e nem deixando rastros.

O divisor de águas é, sempre, entre os indivíduos que procuram apenas ganhar dinheiro (como qualquer profissional) e obter fama (nem que fugaz) e aqueles que têm capacidade, talento, informação, cultura e se empenham com esforço a elaborar obras artísticas, que se incorporarão e constituirão o patrimônio artístico da humanidade.

Já a necessidade de “produtos de qualidade” encerra a ambiguidade proporcionada pelo equívoco de sobrepor o comercial ao artístico. O que Dhalia advoga é a “qualidade” comercial e espetaculosa, que é vendável, como confessa, ou seja, como ele mesmo afirma, “produto” como outro qualquer, a exemplo de sabonete, sapato, automóvel, etc.

Esse cinema comercial, ao contrário do que ele afirma, não constitui nem perfaz “expressão pessoal”, visto subordinado aos requisitos impostos pela indústria do entretenimento para atender ao mau gosto e falta de cultura e de informação do público.

O “resultado” que lhe serve de medida para o que entende e propõe como “qualidade” é justamente o oposto ao valor (ou qualidade) cultural e artística, é apenas resultado monetário.

 

Guido Bilharinho é advogado em Uberaba e autor de livros de literatura, cinema, estudos brasileiros, História do Brasil e regional editados em papel e, desde setembro/2017, um livro por mês no blog https://guidobilharinho.blogspot.com.br/