Banner prefeitura Covid
Artigo

EM QUESTÃO

Prof. Décio Bragança

Prof. Décio Bragança

Prof. Décio BragançaGraduado em Letras pelas Faculdades Integradas Santo Tomás de Aquino (Uberaba, 1972). Especialista em Metodologia do Ensino Superior pela Universidade Federal de Santa Catarina (Uberaba, 1982. Especialista em Língua Portuguesa pelas Faculdades Integradas de Uberaba em convênio com a UNICAMP (Uberaba, 1987). Cronista de Rádio às quartas feiras e de Jornal quintas feiras, na cidade de Uberaba.

26/01/2020 06h00
Por: Redação

As aulas estão começando - Para alguns estudiosos, antropólogos, sociólogos, a maior violência foi, é, será a injustiça, porque gera pobreza, miséria, fome e tantas desigualda-des, cada vez maiores. A justiça é que traz a paz social. A justiça de que estamos falan-do, talvez não seja essa dos tribunais, dos juízes e de procuradores, das polícias e de ad-vogados. Talvez, essa justiça seja apenas o fazer cumprir leis que nem sempre são jus-tas. Conceitos e concretização da justiça esbarram sempre num jogo de interesses e in-tenções. Sempre que falo em justiça me lembro de Salomão. Duas mulheres brigavam pela guarda de uma criança. Como não houve acordo entre elas, Salomão propôs dividir a criança ao meio. Uma das mães acreditou ter sido a melhor solução, aceitando que a criança fosse dividida ao meio. A outra decidiu abrir mão da justiça e entregar a criança inteira à outra, porque preferia saber que seu filho, mesmo não estando consigo, estaria vivo. Diante disso, Salomão, juiz e sábio, entregou a criança à mãe que não queria um filho dividido e morto. Isso para dizer que as leis legitimam, legalizam a divisão – o que nem sempre é justiça e sabedoria, que estão acima de qualquer e de todas as leis. 

 

Saber para ser - Meses atrás, o Supremo decidiu pela não prisão, enquanto for possível algum recurso e o povo se revoltou. Alguns ministros se defenderam dizendo que so-mente decidiram sobre o que estava escrito. É possível escrever, conceituar, dizer, o que seja justiça? O que seja amor? O que que seja transcendência? O que seja sabedoria? O que vale mais o bem das pessoas ou o cumprimento e observância de leis? O homem foi criado para as leis ou as leis para o homem? Punir é mais importante do que educar? Se há leis é porque somos maus. Não há leis para a garantia do bem, da verdade, da beleza. Já não temos mais piedade, misericórdia, compaixão com ninguém, nem com nós mes-mos. Dificilmente, nos dias de hoje, ouviremos histórias como a do bom samaritano, do filho pródigo – exemplos de ruptura de tudo que fazemos e vivemos. Para mim, toda ruptura é libertação, porque toda ruptura é um parto. 

 

Viver é deixar-se nos outros - O mundo e as ciências evoluem quando rompem com as estruturas solidificadas, petrificadas e velhas, rompem com as ordens econômicas, polí-ticas, sociais. Nesse sentido, a ruptura é a defesa da vida em sua plenitude. O nascimen-to de qualquer e de todos os seres mostra a força, a energia, a latência da vida para criar um novo mundo. Nascer é romper, porque prenhe de esperança e utopia. Há um clamor velado por uma nova ordem social, política, econômica, familiar, religiosa. As trevas, a falta de perspectivas e sentido, as alienações e lavagens cerebrais, as violências e opres-sões e pressões darão lugar para a luz, o conhecimento, a verdade e a beleza. Já é hora de experimentarmos a justiça e a solidariedade, a organização e renascimento da vida humana – viver para conviver. 

 

Quem não ama, nada produz - Defender a vida é falar de justiça, buscar a verdade, pra-ticar o amor, desmascarar as estratégias de comunicação e informação, fazer nascer a consciência, produzir a liberdade, processar o conhecimento. O primeiro passo de liber-tação é saber-se preso, submisso, duro de coração e de alma, escravo por vontade, servo por opção, ciente de suas possibilidades. Estamos no meio de muitas contradições: a razão e a ciência não resolvem tudo; o progresso econômico traz efeitos indesejáveis como a destruição da natureza, o lixo atômico, a poluição e morte de muitos rios, o efei-to-estufa e o aquecimento global. Pior ainda, tudo virou mercadoria, até mesmo a saúde, a educação, o amor, a paz, a fé. Nada é mais humano do que tocar profundamente o co-ração e a mente humana. 

 

Quem ama, fica pobre - O problema é que estamos cada vez mais fechados em nós mesmos, como caracóis, ou como avestruz que enterram a cabeça na areia para nada ver ou sentir. A sabedoria nasce e cresce em mentes, corações, olhos e braços abertos. Com sabedoria, é possível sentir o sentido e os mistérios da vida, do universo. A sabedoria é sempre uma ponte, um meio, um instrumento, uma ligação, uma religação. A ponte nos leva aos outros e traz os outros a nós. Sou para mim e sou para os outros. Arthur Schopenhauer (1788 – 1860), já no século XVIII, entendeu que o outro sempre machu-ca. 

 

Viver é estar consigo e com tantos outros - Conta-nos a seguinte história: cada homem – cada um de nós – vivia numa caverna muitíssimo fria. A temperatura baixíssima nos imobilizava, nos paralisava, nos congelava. Assim, cada um de nós, como porcos-espinho, era obrigado a sair da caverna e se encostar nos outros porcos-espinho. Claro, os espinhos dos outros nos feriam e os nossos feriam os outros, provocando dores e sangramentos. Para a nossa sobrevivência, deixávamos os outros e voltávamos para dentro da caverna. Moral da história: sozinhos morremos de frio; com os outros, duran-te um tempo, somos espinhados. Assim, viver é estar com os outros e voltar a si mes-mo. Talvez, esse seja o maior sentido da vida. 

 

Sou para mim e sou para os outros - Os outros fazem parte de nós. Somos cúmplices, parceiros, irmãos, corresponsáveis, companheiros de viagem. A dor dos outros é a nos-sa dor; a alegria dos outros é a nossa alegria. A razão da vida em sociedade, se é que é preciso ter razão de viver, talvez, seja rir com os riem e chorar com os que choram. “Vo-cê está em mim e eu estou em você, porque somos um”. Temos a insensatez de dizer que os problemas dos outros devem ser resolvidos pelos outros e que não tenho nada com isso. Não queremos mais ser Cirineu, porque cada um, individualmente e na solidão, de-ve carregar a sua cruz. 

 

Eu vivo em você e você vive em mim - Essa mesma situação acontece em relação a Deus. Não O buscamos nos bons momentos, mas exigimos que Ele nos socorra nos maus momentos. Claro, Ele como Pai e Mãe nunca diria isto: “Se vire” – “Cada um no seu quadrado” – “Cada macaco no seu ganho” – “Carregue sua cruz” – “Resolva o seu pro-blema” – “Tô nem aí”. Não queremos também viver uma experiência do mistério de Deus, que se revela na vida dos homens. “Habitou entre nós”. Enquanto isso, cresce a estupidez e a mediocridade, a intolerância e a violência, a corrupção e os privilégios para alguns poucos, o descrédito nas instituições e a desesperança.          

          

 

Nenhumcomentário
500 caracteres restantes.
Seu nome
Cidade e estado
E-mail
Comentar
* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou com palavras ofensivas.
Mostrar mais comentários