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Prof. Décio Bragança

Prof. Décio Bragança

Prof. Décio BragançaGraduado em Letras pelas Faculdades Integradas Santo Tomás de Aquino (Uberaba, 1972). Especialista em Metodologia do Ensino Superior pela Universidade Federal de Santa Catarina (Uberaba, 1982. Especialista em Língua Portuguesa pelas Faculdades Integradas de Uberaba em convênio com a UNICAMP (Uberaba, 1987). Cronista de Rádio às quartas feiras e de Jornal quintas feiras, na cidade de Uberaba.

02/02/2020 06h00
Por: Redação

O ideal é a alma de todas as realizações - A violência, a agressividade, a vingança, a maldade, talvez façam parte da própria natureza humana. Para Sigmund Freud (1856 – 1939), é o lado tânatos – pulsão de morte, do mal; a pulsão da vida, do bem é o lado eros. Essas duas pulsões – energia, força, latência, possibilidades, potências – são im-pulsos existentes em todos os seres humanos. Do embate e combate entre essas pulsões nascem as virtudes e os pecados, o bem-estar e os crimes, o ânimo e o marasmo, as ad-versidades e as amizades, o ódio e o amor, a luta e a derrota, a vida e a morte. Não te-mos todos os meios e instrumentos de controle dessas forças, porque sofremos influên-cias do meio, das instituições, das organizações, dos próprios interesses e intenções. 

 

Educar é semear com sabedoria e colher com paciência - Não é possível termos um au-tocontrole absoluto, nem estarmos controlados absolutamente, principalmente porque ainda pouco nos conhecemos. Não sabemos ou temos consciência do que somos capa-zes. O ambiente em que estamos inseridos desempenha um papel vital em nosso com-portamento e opções, em nosso desenvolvimento e ações, em nossas ideias e ideais. Porque nunca estamos sós, a família e as ruas, a escola e os colegas, a religião e as cren-dices, a sociedade e os conceitos e preconceitos, o governo e os desmandos, a empresa e sua cultura organizacional, a justiça e a aplicação de leis, batem muito fortemente à por-ta de nossa individualidade e eudade, unicidade e identidade, criando grandes problemas para a sociedade e até mesmo para a humanidade. 

 

O homem pode tanto quanto sabe - A verdade é que não existem varinhas de condão, fórmulas mágicas, receitas precisas para se educar, por exemplo, um filho. Você conhece e eu também conheço famílias, aparentemente, certinhas e amorosas, compreensivas e bondosas, com um filho desvariado e desequilibrado. O contrário também é verdadeiro. Isso não significado que um filho deva viver a seu bel prazer, sem interferência e deveres dos pais, sem limites e obrigações. De qualquer maneira, o amor e a honestidade, a soli-dariedade e compreensão, os conceitos de direitos e deveres começam em casa. O inte-ressante é que quando um filho é bem-sucedido, bem-formado, homem de bem, os pais fazem questão de proclamar em todos os cantos e recantos que é seu filho. 

 

Infeliz quem limpa o jardim de sua casa jogando sujeira no jardim do vizinho - Caso contrário, muitos fazem até questão de negar a filiação. Sob o ponto de vista jurídico, a culpa é intransferível, isto é, um crime de um filho não pode ser transferido para os pais e vice-versa. Se a culpa é intransferível, os méritos também são intransferíveis. Como pai e professor, entendo que se educa para criar possibilidades de o próprio filho ou aluno enfrentar de frente seus problemas e frustrações, suas construções e demolições. A isso se dá o nome de autonomia, independência, responsabilidade, compromisso com a própria vida e a vida dos outros. Num ambiente de competição e exigência de eficiência e eficácia, professor e alunos, pais e filhos, patrões e empregados, trazem para seu meio esse mesmo espírito. 

 

Nenhum trabalho de qualidade pode ser feito sem concentração e autossacrifício, esforço e dúvida - Há quem diga que, hoje, estamos vivendo a ditadura dos filhos, a ditadura dos alunos, a ditadura dos empregados. Nesse clima, é impossível manter um relacio-namento amoroso e verdadeiro, uma convivência pacífica e construtiva, uma cumplici-dade partilhada e compartilhada. Vivemos num ambiente – talvez seja uma fase, um momento apenas – altamente individualista e egocêntrico – tudo existe e gira em torno de um ego – centro do universo e de tudo. Vivemos a era do acumular, do multiplicar bens e riquezas. A era do distribuir, do dividir com os outros, talvez nunca tenha existi-do. Preferimos usar, abusar, sair com pessoas a estar, ser, conviver com as pessoas. 

 

Quando uma escolha é feita, é preciso esquecer as alternativas - A cultura do consumo nos faz entender que o outro é também uma mercadoria, porque tudo virou mercadoria. Os shoppings são os novos templos cultuando e adorando o novo deus: mercado que nos obriga a consumir, a ter, a ter-mais. Hoje, a maior de todas as frustrações é a possi-bilidade de não consumir, de não ter. você é melhor do que eu, porque você tem celula-res, pares de tênis importado, automóveis de luxo, mora em condomínios luxuosos e fechados. Daí a inveja, a irritação, a agressão, a intolerância, a violência e os crimes nas-cerem da impossibilidade de não poder ter. 

 

A felicidade é composta de pequenos prazeres - Resistir a essa cultura não é tarefa fácil, porque também fazem parte daquele impulso, daquela pulsão citada acima. A teoria da libertação nasce justamente dessa contestação: ninguém se salva sozinho, mas também se perde sozinho. Para viver no céu muitas pessoas devem estar comigo; para viver no inferno muitas pessoas devem estar comigo. Aonde vou, por onde passo, levo muitas pessoas comigo. Ou nos salvamos todos, ou nos perdemos todos. Gosto muito da ex-pressão sinergia, usada principalmente na biologia. Sinergia é cooperação, é trabalho, é esforço para, principalmente, manter a vida. 

 

Se todos os homens recebessem exatamente o que merecem, ia sobrar muito dinheiro no mundo - Cada célula de nosso corpo existe para uma determinada função, mas abre mão de sua função para a sobrevivência do ser. Assim, sinergia é o momento em que se entende que o todo é maior que a soma das partes. Em sociedade e nas instituições, pouco se fala em sinergia na família, nas empresas, no governo, nas escolas, nas igrejas. Resistir, conjuntamente, é preciso. Com garra e força, energia e gana, todos podemos construir um outro mundo, com novos homens e novas mulheres. É hora de não sermos mais um boi no rebanho, um número, uma cifra ou um cifrão. Claro, o discurso e os meios de comunicação e informação são competentes e poderosíssimos. 

 

A humildade é a única base sólida de todas as virtudes - Daí nossa ideia de alienação, fatalismo, conformismo, acomodação, apatia, massificação, coisificação – esmagamento do ser dentro de si mesmo. Há no ar, nas nuvens, a sensação de termos perdido as nos-sas raízes e finalidade, o contato e a relação com os outros seres vivos e não vivos, o sentido e os mistérios da vida e da morte. O fato é que estamos nos tornando frios e cal-culistas, vazios e feridos no corpo e na alma, destruidores de si mesmo e dos outros, cí-nicos e suicidas, porque deixamos de nos relacionar com nós mesmos, com os outros humanos, com todos os outros seres vivos e não vivos, com Deus. Preferimos aderir à violência do sistema de consumo, onde tudo vira mercadoria, onde tudo, absolutamente tudo tem um preço. Quem dá mais?