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Artigo

A dramaturgia em Uberaba

A dramaturgia uberabense surgiu com o início das encenações teatrais na cidade nos meados da década de 1830

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05/02/2020 06h00
Por: Redação

 

Guido Bilharinho

Quando se fala em teatro em Uberaba vem à mente tão só as encenações, os grupos teatrais e os teatros.

Contudo, mais ou tão importante do que isso é a criação teatral, ou seja, a elaboração de peças teatrais, sem as quais não existiriam aquelas atividades.

Sem peças não há teatro, grupos ou encenações.

A ênfase e a centralização nessas atividades quando se fala em teatro na cidade devem-se ao fato de existirem poucas peças teatrais aqui elaboradas.

Todavia, existiram e existem. O necessário é que seus textos sejam redescobertos, conhecidos, estudados, ensaiados e levados ao palco, bem, como, e não menos importante, editados em papel e/ou eletronicamente para alcance de todos.

 

Século XIX

Por certa coincidência ou não a dramaturgia uberabense surgiu simultaneamente com o início das encenações teatrais na cidade nos meados da década de 1830, promovidas pelo padre Zeferino e outros intelectuais.

Exatamente, pois, nessa época, segundo o historiador Hildebrando Pontes, foi aqui escrita a primeira peça uberabense, “Colégio de Dona Abelha”, de autoria de ANTÔNIO CESÁRIO DA SILVA E OLIVEIRA SEÑIOR, pai do major Cesário, que, no entanto, só foi levada à cena na década de 1860, após submetida à censura pelo delegado de polícia, já que, conforme o mesmo historiador, era comédia apimentada.

O significado e a importância dessa peça extrapolam os lindes locais e regionais para se inserir no contexto teatral geral do país, porque, em Uberaba, simultaneamente com Martins Pena no Rio de Janeiro, em meados da citada década de 1830, inaugurou-se o teatro de costumes no país.

A segunda peça teatral escrita em Uberaba de que se tem notícia - informação que se deve também a Hildebrando Pontes - é “O Filho Pródigo”, de 1871, de autoria de HENRIQUE RAIMUNDO DES GENETTES, que também escreveu nessa época a comédia em um ato “O Estalajadeiro”.

Tempos depois, JOÃO JOSÉ FREDERICO LUDOVICE escreveu, entre possíveis outras, as peças “Os Apuros de Um Canelinha” (comédia encenada no teatro Provisório de São Paulo), e “Os Milagres de São Francisco” (drama representado em Ouro Preto em 1894).

No final do século XIX, prolongando-se aos anos iniciais do século XX, ocorreu certa efervescência teatral em Uberaba, com o teatro São Luís sendo doado à Câmara Municipal, existência e atividades de grupos teatrais e elaboração de textos, a exemplo, dos também citados por Hildebrand0 Pontes, “Princesa do Sertão”, revista encenada em 1895, de autoria do célebre JOAQUIM GASPARINO (de quem se pode saber mais na “Epopeia dos Borges”, p. 968/970).

 

Século XX

Em 1901 foi levada ao palco a revista “Capital do Triângulo”, de autoria de ninguém menos que o médico, cientista e político (foi agente executivo de Uberaba), FILIPE ACHÉ, o fundador dos laboratórios Aché. Uma terceira revista sobre acontecimentos uberabenses foi ainda encenada nessa época, “Fatos Modernos”, de autoria dos atores MANUEL FREIRE e DOMINGOS FERNANDES MACHADO, constando que este último ainda seria autor da revista “Homem Arara e Mulher Pachola” (1904), que poderia ser também outro título daquela.

No início do século XX, o médico JOÃO TEIXEIRA ÁLVARES, goiano, radicado em Uberaba desde 1899, não só construiu cineteatro nos jardins de sua residência na rua Artur Machado como escreveu as peças “Montezuma” (1909, drama histórico sobre a conquista do México, editada em livro em 2002 pelo Instituto Goiano do Livro), “Eleusa” (1913, tragédia fantástica), além de “Barolas” e de “O Cego e a Leprosa”, dramas, dos quais este último foi encenado no teatro São Luís, tendo no elenco, entre outros, os pintores Anatólio Magalhães e Joaquim Gasparino.

Tanto João Ludovice quanto Teixeira Álvares possuem verbetes próprios no notável “O Teatro no Brasil” (1960), de J. Galante de Sousa, bem como em inúmeros dicionários literários brasileiros.

Após esse promissor princípio de século, só se tem notícia da peça teatral elaborada em Uberaba pelo advogado PELÓPIDAS FONSECA, intitulada “Ladrão!” e levada à cena, com grande sucesso, em 1929, no cineteatro Capitólio (posteriormente Roial).

Conquanto tenham sido organizados na cidade diversos grupos teatrais (Artur Azevedo e teatro de Brinquedo, década de 1930; do Estudante, década de 1940; Luís Braille e Núcleo Artístico e Cultural da Juventude, década de 1950; Nata e Teu, década de 1960), só ocorreu elaboração de peça teatral, ao que se sabe, por MAURÍLIO CUNHA CAMPOS nos fins dos anos 60, lida, já que sem possibilidade temporal de encenação, no I Festival Chapadão de Teatro, organizado por Jorge Henrique Prata. Peça está, como inúmeras outras citadas neste artigo, carecendo de terem seus textos recuperados, editados e encenados.

A partir de 1972 foram encenados vários espetáculos teatrais e musicais: “Good Gin x Bad People” (1972), criação, montagem e direção de JORGE ALBERTO NABUT; “Good Gin Contra os 4 Cavaleiros” (1973), criação, texto, coreografia e direção de Jorge Alberto Nabut; “Montagem Para Uma Noite de Inverno” (1976) e “Uma Noite Para Garcia Lorca” (1977), ambos com montagem de Jorge A. Nabut e direção de Demilton Dib; “O Circo” (1977), texto e montagem de Jorge A. Nabut; “Os Quatro Sentidos” (1978), de vários autores; “Laranja Partida em Quatro” (1979), texto e direção de Jorge Alberto Nabut. 

Em 1984 foi encenada a peça “Face a Face”, do professor DÉCIO BRAGANÇA.

Em 1993 encenou-se a peça “Pax”, do professor JOSÉ MARIA MADUREIRA.

Nos últimos decênios, várias peças de curta duração e montagens criativas foram elaboradas e encenadas por integrantes dos mais de 20 (vinte) grupos teatrais que atuaram na cidade desde 1990.

 

Século XXI

O jornalista e dramaturgo REINALDO DOMINGOS FERREIRA, diretor do grupo teatral Núcleo Artístico e Cultural da Juventude na década de 1950, teve diversas peças publicadas.

Só no livro “Três Mulheres no Palco”, editado em 2000, publicaram-se as peças “Dona Bárbara”, “Estela Garcia” e “As Falsas Lágrimas de Domitila Franco”. Dele ainda foram editados os dramas “A Mulher de Lote” (2006) e “Lullius Rei” (2010). A peça “Dona Bárbara”, por sua vez, teve nova edição em 2009.

Em 2011, Francisco Antônio de Almeida, sob o pseudônimo de CHICO LIMA, publicou em “Dramaturgia Nas Gerais” duas peças: “O Olho da Barriga”, escrita em 1994, e “Juízo Final”, de 2009.

Em 2007, JOSÉ HUMBERTO HENRIQUE publicou em seu portal na Amazon (onde estão seus trezentos e cinquenta livros até o momento) duas peças teatrais, “A Mola e o Diapasão” e “O Umbigo de Jean Jacques Rousseau” e, em 2009, a peça “A Casa do Faisão Dourado”.

 

Guido Bilharinho é advogado em Uberaba e autor de livros de literatura, cinema, estudos brasileiros, História do Brasil e regional editados em papel e, desde setembro/2017, um livro por mês no blog https://guidobilharinho.blogspot.com.br/