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Wilson Brasil e o troféu Gandula

André Borges Lopes

11/08/2019 06h00 Atualizada há 2 anos
Por: Redação

Nos anos 1970, ficaram célebres em São Paulo as cerimônias de entrega de um prêmio esportivo: o “Troféu Gandula”. Realizadas no início de cada ano, no ginásio da Associação Portuguesa de Desportos, esse prêmio homenageava dezenas de esportistas – das mais diversas modalidades – além de jornalistas e personalidades que haviam se destacado no ano anterior. Recebiam um pequeno troféu dourado com a figura de um “gandula” – as crianças apanhadoras de bola nos jogos de futebol – homenageando, segundo seu criador, “a humildade que simboliza a grandeza do desporto”.

O prêmio havia sido lançado em 1973 por um veterano da imprensa paulista: o jornalista, radialista, comentarista esportivo, escritor, poeta bissexto e cantor eventual Wilson Brasil. Junto com um pequeno grupo de auxiliares, Wilson selecionava os premiados, conseguia patrocínio e realizava a cerimônia de premiação. Em março de 1979, conseguiu a façanha de reunir na festa o craque carioca Zico e uma jovem promessa do futebol argentino: o garoto Diego Maradona, então com 18 anos, que começava a despontar para a fama nos gramados do país vizinho. Segundo o jornalista Milton Neves, o então quase desconhecido Maradona teria vindo ao Brasil em voo de classe econômica e ficado hospedado em um hotel três estrelas da capital paulista para receber o prêmio.

Wilson Brasil era, em sua certidão de nascimento, Wilson Hauach Miziara. Nascido em Uberaba em 30 de agosto de 1923, o jovem Wilson destacou-se como apresentador em eventos da Igreja Católica local. Congregado Mariano, chegou a pensar em ser padre, mas foi desestimulado pelo pai. No início da década de 1940, já escrevia sobre futebol no jornal “O Triângulo” e narrava jogos pela rádio PRE-5. No final de 1946, mudou-se para São Paulo, onde logo conseguiu um emprego no semanário “Mundo Esportivo”. Em algum momento entre outubro de 1947 e o início de 1948 deixou de assinar Wilson H. Miziara e assumiu o nome artístico Wilson Brasil, com o qual se consagrou. Pouco depois, estreava na Rádio Tupi da capital paulista.

O auge da carreira de Wilson aconteceu nas décadas de 1950 e 1960. Foi o primeiro locutor esportivo de televisão na América do Sul, irradiando futebol pela TV-PRF 3 (mais tarde TV Tupi Difusora) nos seus primeiros oito meses de atividade em 1950-51. Em seguida, tornou-se diretor do jornalismo esportivo da Rádio Nacional, empresa dos Diários Associados, para onde se transferiu em 1952. Escrevia também nas revistas “Equipe Esportiva” e  “Equipe Artística”, essa de variedades. No ano seguinte – num caso até então inédito no Brasil – foi processado por injúria por um juiz de futebol – José de Moura Leite – incomodado com seus comentários na rádio. Julgado com base na Lei de Imprensa, Wilson foi defendido pelos advogados (e colegas no jornalismo) Ari Silva e Murilo Antunes Alves. Terminou absolvido pelo júri.

Já consagrado como comentarista esportivo, foi enviado para cobrir a Copa do Mundo de 1954 na Suíça. O Brasil foi eliminado nas quartas de final pelo fantástico “Time Dourado” da Hungria, que, embora favorito, acabou derrotado pelos alemães na final. Wilson aproveitou a viagem para conhecer a França, Espanha e Alemanha. Dois anos depois, cobria o Campeonato Sul-Americano no Uruguai. Dono de um vasto repertório cultural, Wilson Brasil também ganhou fama ao participar de dois programas de TV – “Aposte no Campeão” e  “O Céu é o Limite” respondendo perguntas sobre o jurista Ruy Barbosa.

Nos anos 1960, mudou-se para a Rádio Piratininga, onde apresentava diversos programas: “Escola de Brotos”, “Roteiro do Mundo” e “Audição Wilson Brasil”, em paralelo com o trabalho nos esportes. Trabalhava na Rádio Cometa e fazia incursões pelo mundo da publicidade quando teve a ideia de criar o Troféu Gandula. A premiação permaneceu em São Paulo até meados da década de 1980, quando Wilson foi contratado pelo jornal Gazeta dos Desportos e pela Rádio Comercial, de Lisboa. Mudou-se então para Portugal levando junto seus troféus – que continuaram a ser entregues anualmente até 1995, quando o jornal encerrou suas atividades.

O retorno ao Brasil do veterano jornalista não teve maior destaque. Wilson Miziara faleceu em março de 2001, em São Paulo, vítima de um ataque cardíaco.

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